"Tinha medo de que algo me acontecesse", revela fotógrafo sobre caso Marighella
Sérgio Vital Tafner Jorge (75), fotógrafo da extinta revista Manchete, revelou à Isto É que a imagem oficial da morte do militante de esquerda Carlos Marighella foi montada pelos oficiais da repressão.
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Passados mais de 40 anos, o testemunho de Jorge desmancha a versão oficial dos militares sobre a execução do líder da Ação Nacional Libertadora (ALN), tido na época como inimigo número 1 do regime militar.
À IMPRENSA o fotógrafo revelou o esquema da ditadura para encobrir a verdade sobre o assassinato do líder comunista.
IMPRENSA - Como você ficou sabendo da morte do militante?
Sérgio Jorge - Estava acontecendo um jogo importante entre Corinthians e Santos no Pacaembu e o Caixinha, um repórter de campo, veio dar a notícia para três ou quatro fotógrafos lá. Ele chegou dizendo que o "Sérgio Fleury tinha acabado de matar o Marighella". Sabendo de toda a história
E o que você viu chegando ao local?
Eu e Mituo [Shiguihara] chegamos lá uns 30 minutos após o acontecido. Estávamos entre cinco ou seis fotógrafos e o esquema de segurança ainda não estava armado. Entramos [na rua] até onde estava o Marighella morto dentro do fusquinha. Quando nos aproximamos, o [delegado] Sérgio Fleury perguntou o que estávamos fazendo ali. Depois, mandou que encostássemos no muro e colocássemos as máquinas no chão e não fotografássemos até que ele autorizasse. Ficamos praticamente meia hora de braços cruzados vendo aquela cena.
E como estava o Marighella quando chegaram ao local?
A porta do fusquinha estava aberta e ele morto ao volante. Eu e o Antônio Pirozelli ficamos tentando imaginar como ele tinha sido morto, pois havia dois tiros no vidro da frente, o vidro de trás estava meio quebrado, provavelmente por um tiro, e ele morto sem nenhuma aparência de morte por tiro. Não havia quase sangue, tinha apenas um machucado no queixo e sangue numa das mãos.
E o que os policiais fizeram?
Três pessoas tiraram o corpo e colocaram deitado na calçada. Eles mexeram nele, abriram o cinto e começaram a colocá-lo no banco de trás do carro. Um deles deu a volta, pegou o Marighella pelos ombros e os três o colocaram na posição que é aquela que todo mundo conhece das fotos.
Quando saiu a matéria na Manchete eu li e reclamei com o autor, dizendo que o que estava ali era relativamente tudo mentira, mas ele disse que o Fleury tinha dito aquilo e que era o que ia ser publicado. Mas aquela cena da armação ficou guardada. Quando saiu a Comissão da Verdade eu pensei "agora posso falar a verdade", porque na época não dava, eu tinha medo que algo me acontecesse. E a gente sabe que acontecia.
Você pretende contar essa história para a Comissão da Verdade?
Sim, é só me chamar.






