Tim Maia e os padres

Tim Maia e os padres

Atualizado em 12/01/2011 às 20:01, por Silvia Dutra.

Não sei se isso acontece com todo mundo, mas vou confessar uma coisa: tem dias que leio os jornais e encontro umas notícias que me deixam com uma incômoda sensação de irrealidade. Sinto- me exatamente como deve ter se sentido aquele personagem do Kafka ao acordar e descobrir que havia passado por uma metamorfose durante a noite. Pisco os olhos, limpo meus óculos, releio e a coisa continua não fazendo sentido. De vez em quando, dependendo do que acabei de ler, ainda escuto vozes dentro de minha cabeça, ou risadas. E daí penso: o mundo é louco ou a louca sou eu?
Por exemplo: vi no Portal Imprensa uma notinha sobre um padre brasileiro, Fábio de Melo, envolvido num imbróglio recente com jornalistas. "O exercício do Jornalismo requer caráter e ética. Mentiroso produzindo notícia é tão perigoso quanto traficante vendendo droga: envenena", disse o padre em seu perfil no Twitter. Primeira surpresa do dia pra mim, uma não católica, não religiosa, agnóstica e iconoclasta convicta e praticante: até padres agora tem perfil no Twitter. Dentro de minha cabeça, nesse exato instante, ressoou a risada debochada de Tim Maia e os primeiros acordes daquela maravilha "Vale Tudo".
Daí passo os olhos por outra notinha, no mesmo site: Xuxa ganha na Justiça uma indenização de 150 mil reais da Editora Gráfica Universal, responsável pela publicação do jornal Folha Universal, que faz parte do grupo de comunicações Universal Produções, do Bispo Edir Macedo. Ao fundo continuo ouvindo, bem baixinho, " vale, vale tudo, vale o que vier, vale o que quiser...etc".
Em 2008 a loira entrou na Justiça contra o jornal -- que imagino deve ser lido pelos milhares de seguidores da igreja do Bispo Macedo -- após o veículo ter afirmado que Xuxa seria "satanista" e que teria vendido sua alma ao demônio por 100 milhões de dólares. Xuxa queria e ganhou a indenização por danos morais. E o jornal ainda vai ter que publicar na primeira página uma nota afirmando que ela "tem profunda fé em Deus e respeita todas as religiões". Nesse momento escuto uma gargalhada do finado Tim Maia, meu amado e saudoso síndico do Brasil, e continuo lendo, enquanto perguntas pipocam em minha cabeça:
* houve testemunhas nessa suposta transação entre Xuxa e o tinhosão de pé fendido? * ou algum intermediário? Alguém da igreja Universal talvez? * Como o jornal sabia da exata quantia que teria sido paga? Nessa hora confesso que senti uma bruta inveja do pessoal da Folha Universal. Porque vamos combinar: isso é que é ter fontes poderosas é ou não é? * como foi o pagamento? Dólares, euros, ouro, ações do Google? Foi a vista ou parcelado? * o demônio passou recibo? * será que o Flamengo pagou mais caro pelo passe do Ronaldinho? * a transação foi declarada ao Imposto de Renda ou foi mais uma por debaixo dos panos?
Graves questões, que não querem calar. Enquanto eu, pobre de mim, tento, sem sucesso, mandar Tim Maia parar de rir e a banda Vitória Régia abaixar o volume do "Vale Tudo" que toca com toda animação dentro de minha cabeça. Meu marido pergunta se estou falando sozinha e minto que estou pensando alto.Vejam vocês: duas gotinhas de notícias me fazem cometer um pecado -- mentir para o marido -- e um sacrilégio: querer calar Tim Maia e a Vale Tudo. Será que terei salvação?
Mudo de site, vou ler a Folha de São Paulo, já que a Falha não posso ler mais.
Leitora compulsiva que sou, fui checar a livraria da Folha, ver se tinha algo interessante e novo. Sim, porque as enchentes, os soterramentos, as vítimas, os desabrigados, os engarrafamentos, as promessas de prefeitos e governantes de providenciar a limpeza de bueiros e o desassoreamento dos rios, a velha história de colocar a tranca na porta depois da casa ter sido assaltada é notícia requentada e, por Baco, não tenho mais paciência para isso.
Daí estou lá na livraria da Folha e vejo que um outro padre, Jacir de Freitas Faria, lançou um livro pela editora Vozes (Tim Maia riu ainda mais alto) chamado "Infância Apócrifa do Menino Jesus: histórias de ternura e travessuras". E descubro, para meu completo assombro, que o menino Jesus era traquinas, subia nos telhados, quebrava os cântaros alheios, apaziguava dragões (????) -- Tim Maia, cala a boca! -- transformava crianças em carneiros e, de vez em quando, fazia também malvadezas.
Sei não.Não comprei e nem pretendo ler essa obra prima, mas pela materinha da Folha dá pra perceber que Jesus era dado a um bullying, uma opressãozinha contra os fracos e não divinos. Uma vez condenou à morte, com meia dúzia de palavras, um menino que fez uma sacanagem inocente contra ele quando ambos brincavam às margens do rio Jordão. Nada sério, coisa besta, de criança. Maria intercedeu, deu uma bronca e fez Jesus ressuscitar o amiguinho. Imagino que depois dessa o tal amiguinho, se tinha algum juízo, deve ter ido arrumar outra turma. De outra feita, injustamente acusado de ter causado a morte de outra criança, fez o pobre ressuscitar, contar a verdade e só depois voltar ao mundo dos mortos. Tá tudo lá, no livro do padre e na matéria da Folha, não estou mentindo nem exagerando.
Baseado nos evangelhos apócrifos -- textos antigos que não fazem parte dos livros sagrados das religiões judaica e cristã -- o livro do padre Faria, de acordo com a matéria da Folha, dá até o dia e a hora exata da concepção de Jesus pela Virgem Maria. Tudo teria acontecido num dia 6 de abril, uma terça feira, às 3 da tarde. De novo lá fui eu pecar, capital e duplamente dessa vez: senti inveja e ira. E clamei aos céus, batendo no peito: por que só poucos são os escolhidos -- o pessoal da Folha Universal e os autores dos tais evangélicos apócrifos -- para ter essas fontes? Por que nunca uma fonte desse quilate, com tantos conhecimentos e conexões cruzou o meu caminho?
E daí lá veio outra enxurrada -- minha homenagem à São Paulo -- de questões que não querem calar:
* se a concepção se deu num dia 6 de abril, Jesus então nasceu prematuro, de 8 meses? * de quem foi a idéia do Natal ser dia 25 de Dezembro? * isso significa que deveríamos comemorar o Natal no dia 6 de janeiro? * mas com tanta chuva e enchentes que normalmente acontecem em janeiro, não seria melhor deixar tudo como está mesmo?
Olha, depois de ler essas três notinhas, já completamente ensurdecida pelas gargalhadas do Tim Maia e aquele sax infernal da música Vale Tudo que continuavam retumbando em minha cabeça, lembrei da frase de efeito do padre twiiteiro. E cheguei a conclusão de que eu e os demais coleguinhas do Jornalismo temos muito a aprender com esse pessoal religioso. Caráter e ética são essenciais para quem lida com palavras. E inteligência e senso crítico essenciais para quem as lê. Mentirosos produzindo ou reproduzindo notícias são gente muito perigosa mesmo... acautelai- vos irmãos!