Thomas Enlazador, do Centro Ecopedagógico Bicho do Mato, em Recife; e Tom Coelho, educador em Cotia (SP)
Thomas Enlazador, do Centro Ecopedagógico Bicho do Mato, em Recife; e Tom Coelho, educador em Cotia (SP)
Thomas Enlazador, do Centro Ecopedagógico Bicho do Mato, em Recife
Existe uma grande ilusão de que a balança comercial brasileira e o superávit têm coisas positivas pelo fato de o país ser o maior produtor de soja do planeta e de biodiesel ou agrocombustível. É um crescimento econômico insustentável, que não apresenta um projeto de desenvolvimento sustentável a médio ou longo prazo. A mídia não fala isso, só sobre recordes de produção, de exportação. Estão por trás disso multinacionais como Monsanto e Bayer. Não alertam o consumidor para uma visão critica e uma escolha. No supermercado só há praticamente transgênicos. A Cargill e a Bunge não produzem tanto transgênicos, mas apoiam a monocultura. Falta formação crítica ao jornalista. A imparcialidade da mídia é boa, mas não pode ter essa miopia de ratificar o status quo. Isso, pelo menos, é o que essa mídia alternativa tenta fazer, mas não tem muita voz. Mas na imprensa alternativa às vezes tem um direcionamento que envolve partidos políticos, pautas pré-elaboradas, tem de ficar atento.
Mídia livre e educomunicação mereceriam mais destaque para tentar mudar isso... Se você não gosta da mídia, faça sua própria.
Não dá pra separar como "alternativa é bom" e "grande mídia é ruim". Mas a alternativa busca e suscita algumas informações que a grande mídia simplesmente não busca.
Mesmo na grande mídia você tem iniciativas interessantes. Outro dia vi no "Repórter Record" uma denúncia à produção de gado na Amazônia repercutindo como isso afeta o consumidor, em cima de uma investigação do Greenpeace. Tem iniciativas de algumas emissoras e de alguns repórteres.
Um programa que há muitos anos tem desenvolvido trabalhos bons é o "Globo Rural", programas muito bons, mas em horários que ninguém está vendo TV. O Le Monde fez há alguns meses atrás um especial sobre sustentabilidade muito instrutivo. A Caros Amigos fez uma matéria alertando que o Brasil é o maior consumidor do planeta de agrotóxicos, o que é um dado extremamente alarmante.
O destaque é muito grande para biodiesel, agronegócio etc. Mas agroecologia é outro paradigma, não se envolve com isso. A diversidade da cultura alimentar do Brasil hoje é a agricultura familiar... Via de regra, a agroindústria está levando um alimento de baixa qualidade e isso deveria ser muito mais pautado. Claro que tem muitos elementos econômicos aí, e muitas vezes os meios de comunicação estão ligados à agroindústria. Mas deveriam chegar mais perto da agricultura familiar e questionar a produção em grandes escalas. Fazer mais edições especiais, criar suplementos sobre agroecologia, consumo sustentável. O Brasil é o país com maior diversidade de ecossistemas, o maior em recursos hídricos, logo tem assunto para isso, mas esse patrimônio está sendo consumindo pelas multinacionais, e isso não é coberto pela mídia.
Tom Coelho, educador em Cotia (SP)
Veículos não específicos têm por hábito fazer abordagens pontuais sobre temas conjunturais, como enchentes, estiagens, enfermidades que acometem em rebanhos, oscilações nos preços internacionais etc. Já os veículos segmentados têm a virtude de analisar temas estruturais do universo do agronegócio. A cobertura jornalística pode se mostrar tendenciosa quando o veículo apresenta vínculo com entidades, associações ou organismos que defendem interesses setoriais.
Minha expectativa é em torno de um debate acerca de temas estruturais que colocam em risco a hegemonia brasileira e o sucesso de nosso agronegócio. Nosso país tem uma vocação agrícola e foi o setor primário o grande responsável pela estabilidade econômica que alcançamos graças aos superávits na balança comercial. Todavia, continuamos carecendo de maior competitividade nos portos, ampliação do seguro rural, rastreabilidade e certificação, sem falar em questões fundiárias não resolvidas, entre outros temas. A agenda é ampla e exige a participação ativa e coordenada dos setores público e privado. E a imprensa pode e deve promover este debate, deixando de se restringir à cobertura superficial de eventos meramente situacionais.






