Terceira idade tem filme em Locarno, por Rui Martins
Terceira idade tem filme em Locarno, por Rui Martins
Existe um cheiro de religião no filme La Donation, do canadense do Quebec, Bernard Émond, mas é pura impressão. Émond não é religioso e provavelmente ateu, porém sua cultura original cristã e seu conhecimento da doutrina estão presentes em todo filme e na trilogia, que agora completa, da qual fazem parte A Novena e Contra Toda Esperança.
É a história de um médico num lugarejo canadense em extinção depois do fechamento das minas de cobre, sem que outra atividade ocupasse o lugar. Metade da população partiu e restou uma população madura e idosa, havendo apenas uns poucos jovens. Ali passou sua vida o médico generalista doutor Rainville, que, além de tratar de seus doentes prodiga em gestos de humanidade e de atenção, conhecendo todos pelos nomes.
O doutor Rainville é um médico de interior que clinica para servir e, solitário, não tem nenhum interesse economico na clientela, bastando-lhe a casa onde vive e o carro com o qual visita seus doentes, dispersos pela região. Vez ou outra, aparece na literatura e no cinema a figura do médico do interior, contando ou sua vida conturbada e seus poucos recursos ou, tornam-se sucesso as série de televisão sobre hospitais e atendimentos de urgência. Nos anos 50, um médico inglês de interior, A. J. Cronin, se tornou mesmo um enorme bestseller com seus livros.
Mas voltando ao doutor Rainville, do filme exibido na competição internacional, se encontra em fim da carreira. Cansado e sentindo chegar a morte, publica um anúncio num jornal do Quebec convidando um colega para trabalhar durante um mês no seu lugar, para que possa fazer uma viagem. Quem aceita é Jeanne Dion, uma generalista do serviço de urgência de Quebec, onde fez sua vida mas onde não tem nenhuma ligação com seus pacientes.
No seu mês de substituição, Jeanne Dion trava conhecimento com a população local, seus idosos, seus doentes, uma jovem drogada grávida desejando abortar e com um ex-universitário transformado em padeiro que, no fazer um bom pão, encontrou a razão de sua existência.
O tema subjacente do filme é a questão do servir e de uma maneira mais ampla a solidariedade humana, numa espécie de evangelho ou samaritanismo dos ateus. Um filme de uma ateu sobre as três virtudes teológicas, a fé, a esperança e a caridade, principalmente sobre a caridade, sem qualquer interesse de retorno, prêmio ou recompensa.
"Para os incrédulos e ateus essas três virtudes religiosas são compensadas pelos valores humanos, negados atualmente pelo mundo moderno e pelo neoliberalismo", diz o diretor Bernard Émond.
Ao mesmo tempo, A Doação é, além de um filme da terceira idade, um filme sobre a morte. "Notre sociedade rejeita a morte, diz Émond. Ora, a vida humana não teria nenhum valor e seria vazia sem a existência da morte, sem a idéia de um termo, de um limite.
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