Teoria X Prática

Teoria X Prática

Atualizado em 25/03/2008 às 17:03, por Kátia Zanvettor.

Falar em teoria numa classe de ansiosos estudantes do primeiro ano do curso de jornalismo, nem sempre é tarefa simples. È plenamente compreensível que os alunos que estão ingressando no curso queiram não só saber mais sobre a prática profissional, como também queiram começar a praticá-la o quanto antes. Eu tinha um professor que ficou conhecido como Forrest Gump, porque era um contador de histórias incorrigível, falava horas sobre as alegrias e as mazelas da profissão e nos levava para visitar um tempo já acabado do jornalismo. Sua batalha era para que enxergássemos a teoria na prática, usando uma história para cada ponto ou situação do currículo. Para ser sincera, não me lembro de muita coisa destas aulas além das suas histórias e acho que já foi o bastante.

Hoje, como professora, percebo que a vontade de prática dos alunos está além de ouvir histórias, eles querem exercer a profissão, escrever, ver seu material publicado, virando notícia e repercutindo. Não canso de dizer que a universidade não tem a função de substituir o mercado de trabalho e por isso, dificilmente, conseguiremos nos cursos de jornalismo reproduzir a realidade do que acontece com os alunos depois de formados. Mas também, não podemos negar que é lá o lugar da experimentação do jornalismo e que o exercício da prática profissional contribui muito para a consolidação dos conceitos teóricos.

Aliás, é exatamente sobre isso que gostaria de refletir já que a teoria e a prática parecem ter sido separadas e colocadas em campos opostos do conhecimento. No dicionário ao buscarmos o verbete "teoria" identificamos a origem da palavra, que vem do grego theoría, e quer dizer contemplar, examinar, estudo. Assim, a própria origem da palavra nos remete a função da teoria que nada mais é que o exercício de contemplar ou de elucidar a prática. Bom, se simplificarmos as definições e pensarmos teoria como a sistematização do conhecimento humano e lembrarmos que conhecimento é a consciência das coisas da vida, da prática, fica fácil perceber o quão falacioso é a tentativa de separar a teoria da prática e vice-versa.

Claro que quando entramos no curso de comunicação e ingressamos em disciplinas como "teoria da comunicação", "sociologia", "história da imprensa", fica difícil associarmos a elas qualquer aspecto prático do fazer jornalístico. Isso muda imediatamente quando avançamos os períodos ou vamos para o mercado de trabalho e percebemos que nossas atividades práticas precisam de fundamentação teórica para acontecer, precisam estar respaldadas e justificadas pelo conhecimento prévio, sob pena de se tornarem mera reprodução, e de serem pouco valorizadas em um cenário muito competitivo.

Talvez precisemos ainda fazer uma análise crítica das nossas matrizes curriculares que ainda hoje, na maioria das escolas, mesmo com todos os avanços, continuam separando as disciplinas teóricas das ditas "práticas" criando mais dicotomia e confusão sobre a essência da profissão. De qualquer forma, gosto de imaginar que hoje compartilho com aquele professor a angústia de dosar coerentemente conteúdo curricular, com as histórias de redação e, ainda, oferecer aos alunos algumas oportunidades de experiências práticas, buscando na pluralidade uma forma de ensinar que não seja tão dogmática, praticando a teoria e teorizando a prática.