"Tenho a certeza de que me vigiam. Me acusam de ser um invento da CIA ", diz a blogueira cubana Yoani Sanchéz

"Tenho a certeza de que me vigiam. Me acusam de ser um invento da CIA ", diz a blogueira cubana Yoani Sanchéz

Atualizado em 04/05/2009 às 21:05, por Luiz Gustavo Pacete/Redação Revista IMPRENSA.

"Tenho a certeza de que me vigiam. Me acusam de ser um invento da CIA ", diz a blogueira cubana Yoani Sanchéz

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Impedida de sair de Cuba Yoani Sanchéz não pôde participar pessoalmente do "II Fórum de Liberdade de Imprensa e Democracia", realizado no último dia 04 de maio, na Fiesp. A segunda opção da organização do evento foi contar com a participação via videoconferência, que foi logo descartada, pois o acesso à internet em Cuba é precário e o risco de não dar certo seria grande. Mesmo com as dificuldades Yoani participou do evento, por meio de um vídeo gravado e enviado pela blogueira. Posteriormente, os participantes tiveram a oportunidade de fazer perguntas - mediadas pelo jornalista Heródoto Barbeiro - via telefone.

Divulgação
Yoani Sanchéz
Em sua participação Yoani falou de liberdade de imprensa em Cuba, sobre a atual situação da ilha, o governo de Raul e a iniciativa de criar um blog, onde quase não existe a possibilidade de acessar a internet. Filósofa, Yoani tem 33 anos, vive sob vigilância e não pensa duas vezes antes de criticar o governo por meio de seu blog. No último dia 02 de abril, foi duramente criticada por ter se manifestado na 10º Bienal de Havana com comentários críticos.

Por isso, a blogueira foi listada entre as cem pessoas mais influentes do mundo pela TIME . Em 2008, ganhou o prêmio Ortega y Gasset de Jornalismo e também foi eleita pela revista Foreign entre os 50 intelectuais mais importantes do ano. Acompanhe uma entrevista exclusiva que Yoani concedeu à IMPRENSA. Ela fala sobre Cuba, o regime castrista, as necessidades da ilha, sua juventude, a iniciativa de criar um blog e ainda comenta sobre um futuro que muitos cubanos aguardam.I

IMPRENSA - Cuba vive uma mudança com a chegada de Raúl?
Yoani Sanchéz -
Raúl não chegou, já estava há cinqüenta anos, compartilhando com seu irmão o poder e a responsabilidade pelas deficiências existentes. O que está mudando é o mundo e o único que fez Raúl Castro - de maneira tímida - foi tratar de adequar o país às mudanças no mundo.

IMPRENSA - Quais são as maiores necessidades do povo cubano?
Yoani -
As necessidades materiais são: moradia, que talvez seja o problema mais difícil, a alimentação, transporte, vestuário, utilidades domésticas, enfim, quase tudo. Porém há outro tipo de necessidade como a de ter informação, liberdade para opinar ou para se associar.

IMPRENSA - Qual é a Cuba que você e muitos outros cubanos, em outros países idealizam?
Yoani -
Muitos cubanos que levam anos vivendo fora da ilha idealizam a Cuba de antes da revolução, da prosperidade das grandes cidades. Eu, como muitos outros que não conhecemos esse passado, tão idealizado como satanizado, preferimos idealizar a Cuba do futuro como aquela a que podemos construir sem as forças criativas do povo serem bloqueadas.

IMPRENSA - Como falar de liberdade de imprensa em Cuba?
Yoani -
A liberdade de imprensa, por sorte, não é total em nenhum lugar do mundo. Internet é talvez o ponto mais alto e em Cuba não está ao alcance da população, bem porque não existem recursos bloqueados. Todos os jornais, revistas, estações de rádio e televisão que funcionam no país estão absolutamente controlados pelo Partido Comunista, nem se quer pelo governo.

IMPRENSA - Como trabalha um jornalista em Cuba?
Yoani -
Isso depende do veiculo em que esteja. Existem algumas publicações onde os jornalistas têm horários abertos e outras oportunidades onde a rotina de trabalho se parece com uma fabrica. Por regra geral os jornalistas dos meios oficiais se especializam nos setores de produção, serviços, cultura ou esportes. Em cada uma das regras são diferentes, porém em todos funciona a censura e o controle preventivo do que se deve ou não publicar.

IMPRENSA - Como foi sua juventude, você defendia alguma bandeira ideológica?
Yoani -
Era uma boa estudante, porém nunca fui recrutada para a União de Jovens Comunistas. Ao terminar o pré-universitário não consegui que me aceitassem na Faculdade de Jornalismo e tive que me conformar em fazer a matricula no Instituto Pedagógico, na Faculdade de Espanhol e Literatura. Porém preferi me transferir para a Escola de Filologia. Toda esta etapa aconteceu durante o chamado "período especial" instituído após a queda do socialismo na Europa. Não tive o privilégio de ver cair o muro, porque as imagens não foram transmitidas na televisão cubana, mas vi cair as mascaras ao meu redor.

IMPRENSA - De que maneira a formação em Filologia contribuiu para o trabalho de jornalismo?
Yoani -
Sempre gostei muito de ler e sabia que algum dia faria com as palavras muitas outras coisas, além de somente vê-las nas páginas alheias. Meus estudos universitários contribuíram na tarefa de afiar as ferramentas. Meu marido é jornalista de profissão e isso me permitiu conhecer as singularidades da profissão.

IMPRENSA - O que mudou em sua vida cotidiana depois que se tornou conhecida mundialmente?
Yoani -
Sigo vivendo no mesmo apartamento de arquitetura socialista, onde a substituição de elevadores soviéticos por elevadores russos me condena a subir quatorze andares de escada há seis meses. Não tenho carro, me visto com o que aparece limpo, também não tenho secretária. Respondo muitas entrevistas, para o radio, a televisão, jornais e revistas de quase todo o mundo, também me pedem colaborações jornalísticas e participação em eventos, algo que o governo não me deixa participar.

IMPRENSA - Você enfrenta censura ou repressão?
Yoani -
Uma vez que uma pessoa toma a decisão de saltar a barreira dos controles se convertem em uma pessoa livre. A censura somente existe nos meios oficiais (que são todos os que circulam legalmente), quando um jornalista possui um blog ou colabora com alguma publicação no estrangeiro já não sofre a censura.

IMPRENSA - Como surgiu a iniciativa de criar um blog?
Yoani -
Em abril acabo de cumprir dois anos desta experiência. Surgiu como uma urgência de colocara para fora meus devaneios, me livrar de um pesado fardo. Enquanto vi os primeiros blogs na internet pensei que também poderia ter um, me pareceu uma loucura, porém ao final criei e me dei conta de que fiz a escolha certa.

IMPRENSA - Qual é seu objetivo com este blog?
Yoani -
Como já disse, o objetivo inicial era fazer um exorcismo, tirar meus demônios do medo e da frustração. Quando descobri que havia leitores e logo quando começaram os comentaristas a debater no espaço que eu tinha aberto, me dei conta que existia um objetivo mais elevado em manter funcionando essa praça pública virtual de onde os cubanos discutem nossos problemas.

IMPRENSA - Você foi coagida por se expressar no blog?
Yoani -
Somente uma vez fui citada na estação de policia e fui advertida de que não poderia fazer uma reunião no blog. A outra maneira que escolheram para me penalizar foi não permitindo que eu saísse da ilha nas ocasiões em que solicitei. Tenho a certeza de que me vigiam, escutam meu telefone, controlam minhas visitas e cada vez que podem me acusam de ser um invento fabricado pela CIA ou pelo grupo de mídia PRISA ou qualquer bobeira destas.

IMPRENSA - Como você faz para postar em seu blog, considerando as dificuldades de conexão?
Yoani -
Nunca posto on-line, em primeiro lugar porque uma hora de conexão custa um aproximado de 5 ou seis euros, de maneira que tudo o que faço em casa e logo que o levo em um pen-drive a um local público. Não posso administrar diretamente meu blog porque ele está bloqueado para os leitores dentro de Cuba, desta forma envio os textos e fotos a amigos e eles se conectam. Ao mesmo tempo os que me ajudam me enviam os comentários para que eu possa ter o retorno dos comentários.

IMPRENSA - Além de manter o blog, quais são os planos para o futuro?
Yoani -
Tenho adiante duas etapas, a primeira e imediata acontecerá antes que as coisas mudem em Cuba. Neste tempo quero publicar livros e ajudar na formação de novos blogueiros. Na segunda, que é quando escrevemos Futuro com maiúscula, os planos são desmesurados. Ficaria encantada de participar de projetos de novos meios de difusão e editoriais, e não te conto mais para não parecer delirante.