Tempos de crise, por Silvia Bessa

Teve seu Pereira que remeteu à redação pelos Correios uma carta zelosa há uns cinco, seis meses pedindo “escusas” e dizendo que todo mundo q

Atualizado em 20/07/2015 às 16:07, por Silvia Bessa.

Crédito:Leo Garbin ue “escreve uma carta tem um bom motivo”. Estava entrelaçada de palavras rebuscadas. Estava certa de que valia a pena conhecê-lo. Cheguei à Casa de Repouso Geriátrica São Francisco, onde seu José Pereira de Albuquerque mora, dei a mão a ele para um boa tarde e comecei a entrevista - por cartas. Vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC), seu Pereira não fala. Comunica-se pelas letras da Olivetti estilo “pé duro” com conhecidos e desconhecidos. Supera-se assim.
E dona Heloísa Helena de Oliveira, do bairro humilde de Joana Bezerra, no Recife, que luta com uma dificuldade danada para garantir o pão diário e queria aprender a cozinhar como nos programas culinários de TV. Demétrius Demétrio, chef por formação e coordenador da Ong Pequenos Profetas que atende famílias carentes, foi lá na casa dela para ensinar a fazer um Frango Tailandês com gengibre. Vi um almoço de rico na casa de um vão e tijolos aparentes. Presenciei uma felicidade sem tamanho. Dona Heloísa puxava com o braço e a mão a fumaça que saia da panela e perguntava: “É assim, Demétrius?”.
Déborah Souza foi outra. É uma menina pobre, negra e lindíssima: 14 anos, 1,84 metros de altura, 48 quilos. O sonho dela é ser bailarina. Começou a treinar usando sapatilhas aos 3 anos, a maior parte em salas sem barras de ferro ou espelhos. A imagem de Déborah em pose de balé parecia um retrato de parede e gerou certa comoção. O relato de Monique Cabral, 29 anos, foi sobre a cirurgia que fez para retirada de um dos rins afetado pelo câncer. Descobriu o tumor do tamanho de uma laranja no meio desse semestre, já grávida de Francisco, e fez o procedimento raro no Brasil e no mundo. Na literatura especializada, só se tem notícia de 16 casos semelhantes. O de Monique foi bem-sucedido.
São exemplos, alguns de sucesso; outros, de superação. Contei essas e outras nos últimos meses e venho notando que os leitores estão mais interessados em narrativas que envolvem pessoas comuns com histórias diferenciadas e até inspiradoras. Pode ser um efeito da crise econômica que vem abatendo os brasileiros. É como se as pessoas - e aí me incluo como leitora - estivessem precisando de refrescos potentes para abrandar tempos difíceis enfrentados em casa ou no trabalho.
Não está fácil para ninguém, inclusive para nós, jornalistas. Colegas sendo dispensados, redações encolhidas, o discurso de que o papel e a energia estão caros e têm pesado nas despesas da produção, estudantes duvidosos quanto ao futuro no mercado de trabalho. O nosso atual desafio é fazer da crise uma oportunidade. É o meu também. Venho buscando com maior avidez as histórias pessoais. Ainda não sei ao certo, mas talvez seja um caminho para o momento.