“Tem que vender jornal, mas a gente passa de herói a vilão em um segundo”, diz Paulo André
Prestes a voltar aos campos após meses tratando uma contusão no joelho, Paulo André, zagueiro titular da campanha do pentacampeonato brasileiro do Corinthians, tem uma visão além do futebol.
Atualizado em 28/05/2012 às 16:05, por
Vanessa Gonçalves.
Dono de um onde trata assuntos polêmicos sobre o esporte, também é autor do livro “O jogo da minha vida” em que revelou os percalços enfrentados por meninos na luta por realizar o sonho de ser jogador de futebol.
A obra de Paulo André foi muito bem recebida pela imprensa, especialmente a esportiva, pois mostrou um lado nada glamouroso do esporte que movimenta milhões em todo o mundo.
Bastante ligado ao que acontece na política esportiva, o jogador sonha em chegar à presidência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e ajudar o país a ter um projeto definido dentro e fora dos campos.
Confira a entrevista que o craque concedeu à IMPRENSA:
IMPRENSA - Como surgiu a ideia do seu blog? Paulo André - O blog surgiu no final de 2010. Tenho muitos amigos envolvidos com esporte, direito esportivo, preparação física, fisiologia e sempre tive muitas questões que queria resolver ou que pelo menos pensava em chegar num ponto em comum tanto para o futebol como o esporte em geral. Então eu resolvi criar um grupo de estudos com esses amigos, só que ninguém me respondia. Eu levantava um tema, escrevia um texto e o pessoal correndo nessa vida maluca e não tinha tempo para discutir. Aí eu pensei ‘vou escrever um blog e pedir para o pessoal comentar’. Foi assim que surgiu.
Crédito:Divulgação
E ele tem bastante visibilidade? No começo, como era uma coisa muito inovadora ter um atleta em atividade escrevendo sobre futebol, os bastidores etc. acabou sendo muito comentado. E tiveram alguns textos polêmicos. Não polêmicos no contexto, mas eles foram soltos em momentos importantes, como na desclassificação da Libertadores, num momento difícil que vivíamos e acabou se espalhando para todo mundo.
E como surgiu a ideia de contar sua história em livro e mostrar um outro lado do futebol que não é o do glamour? Com o blog e o contato com os torcedores acabei percebendo que as pessoas não têm a menor ideia do que vivemos, do que passamos para nos tornarmos jogadores profissionais e, mesmo estando lá, como é difícil o dia a dia. Eu tinha alguns textos já prontos que ficava esperando os momentos certos de vitória do time para soltar no blog. Quando eu vi, eu já tinha uns dez, 12 capítulos do que na minha cabeça seria o livro e, dali para frente, foi só completar os capítulos em branco e formatar.
E como foi para você que não é um escritor entrar nesse mundo da literatura? Eu achei bem legal. Quando escrevi eram momentos de prazer. Não fiz nada obrigado e eu não tinha a preocupação de estar escrevendo bonito, cumprindo as regras gramaticais de um escritor. Foi muito natural e eu acho que consegui atingir exatamente aquilo que queria: passar uma humanização do atleta para o povo em geral.
Você tem projeto de escrever outro livro ou está só com esse por enquanto? Tem bastante gente pedindo por outro. Pelo retorno que eu tive as pessoas acabam lendo em dois ou três dias porque é uma leitura muito fácil, muito prazerosa e quando acabam falam ‘cadê o próximo? Esse aqui já foi’. Eu tenho vontade, mas ainda não pautei, mas com certeza virá ou virão outros.
A imprensa tem personificado jogadores de futebol como burros e analfabetos, como se não tivessem cultura nenhuma. Na sua opinião, isso é um preconceito? O jogador é o reflexo da sociedade. O brasileiro em geral não gosta de ler e de maneira geral tem certas limitações porque o ensino público brasileiro é muito ruim e, grande parte da população, depende desse ensino para se educar. É um erro classificar o jogador como analfabeto ou burro porque, na verdade, estamos falando de toda a população brasileira que não tem acesso à educação por falta de oportunidade.
Ano passado você esteve na mídia porque propôs para outros capitães se unirem para reivindicar melhores condições para jogadores de clubes menores e com dificuldades financeiras. Esse projeto continua em andamento? Na verdade não andou muito. Acabei deixando nas mãos do sindicato da categoria e eles não prosseguiram com o projeto. Eu até acabei propondo algo além do sindicato por eles estarem engessados, um pouco travados na ideia que eu tinha. Como tive o projeto do livro, além disso tenho o meu instituto, isso ficou um pouco de lado. Mas isso é uma coisa que eu preciso retomar, porque eu sei que vou fazer o bem para muita gente.
Você também disse que gostaria de ser presidente da CBF e isso repercutiu muito. Esse é um projeto que vai investir no futuro? A primeira vez que falei isso foi no programa do Juca Kfouri, o "Juca entrevista", e repercutiu bastante, foi legal. Eu sou apaixonado por esporte e o que eu puder fazer de bem para o esporte eu faço. Acho que falta um pouco disso nas federações e nas confederações aqui no Brasil. Os cargos são políticos e acabam faltando cargos técnicos, ou seja, pessoas que em primeiro lugar amam o esporte e, em segundo lugar, que tenham conhecimento para mudar as coisas necessárias. É o que eu tenho dito: posso não chegar a presidente da CBF, mas com certeza vou trabalhar em algum cargo diretivo para a melhoria do esporte no Brasil.
Como você vê o futebol brasileiro após o fim da era Ricardo Teixeira? Eu acho que a mudança é conceitual. A ideia do futebol no Brasil ficou muito tempo estagnada e agora com os últimos resultados, as dificuldades que o país vem enfrentando contra alguma seleções mundiais acabou fazendo com que esse movimento fosse necessário. Eu espero que mude e que novas pessoas, novas ideias surjam, mas, principalmente, que tenhamos um objetivo: onde estamos, para onde vamos e como vamos chegar lá. É isso que talvez falte para melhor o futebol como produto acabar atraindo profissionais capacitados e pessoas honestas para lidar com isso.
Hoje vemos muita glamourização da imprensa com relação aos jogadores, transformando o atleta em estrela. Como você vê isso? É claro que tem que vender jornal, mas a gente passa de herói a vilão em um segundo e, às vezes, por se tratarem de jovens de 18, 20, 22 anos, com certeza não têm estrutura emocional para lidar com esses altos e baixos. Ás vezes isso é prejudicial, mas a imprensa faz seu papel. O jogador de futebol no Brasil é um ídolo, um super-herói, que gera paixão, emoção e será assim para sempre. Estamos falando do país do futebol e as pessoas acabam transferindo toda alegria e felicidade da sua vida no seu time.
Você é bastante ligado às redes sociais. Acha válido o uso desses meios para se aproximar dos torcedores ou mesmo ter um canal para se expressar? Acho fundamental. Nos meus tempos de fã, de menino, eu nunca tinha tido contato com jogador de futebol ou tido a oportunidade de perguntar a eles se gostavam de ser jogador ou o que sentiam. Essas redes sociais acabam nos aproximando e dando mais oportunidade de as pessoas nos conhecerem. E esse é mais ou menos o meu papel do livro, ou seja, de humanizar o atleta. Eu sou uma pessoal normal . Eu saio, bebo meu vinho, gosto disso ou daquilo. Eu não sou só jogador de futebol e tem outras coisas que me dão prazer na vida, desde que não prejudique o meu dia a dia no trabalho.
É diferente jogar para o time para o qual você torce? Eu acho que sim. Eu tinha o sonho de jogar no Corinthians e todos os dias em que estou treinando lá estou realizando um sonho. Eu não esqueci não das minhas raízes e do que me motivou para chegar até aqui. É um prazer enorme e eu sempre digo que "se eu puder ficar no Corinthians até o final da minha carreira, vou ficar".
A obra de Paulo André foi muito bem recebida pela imprensa, especialmente a esportiva, pois mostrou um lado nada glamouroso do esporte que movimenta milhões em todo o mundo.
Bastante ligado ao que acontece na política esportiva, o jogador sonha em chegar à presidência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e ajudar o país a ter um projeto definido dentro e fora dos campos.
Confira a entrevista que o craque concedeu à IMPRENSA:
IMPRENSA - Como surgiu a ideia do seu blog? Paulo André - O blog surgiu no final de 2010. Tenho muitos amigos envolvidos com esporte, direito esportivo, preparação física, fisiologia e sempre tive muitas questões que queria resolver ou que pelo menos pensava em chegar num ponto em comum tanto para o futebol como o esporte em geral. Então eu resolvi criar um grupo de estudos com esses amigos, só que ninguém me respondia. Eu levantava um tema, escrevia um texto e o pessoal correndo nessa vida maluca e não tinha tempo para discutir. Aí eu pensei ‘vou escrever um blog e pedir para o pessoal comentar’. Foi assim que surgiu.
Crédito:Divulgação
E ele tem bastante visibilidade? No começo, como era uma coisa muito inovadora ter um atleta em atividade escrevendo sobre futebol, os bastidores etc. acabou sendo muito comentado. E tiveram alguns textos polêmicos. Não polêmicos no contexto, mas eles foram soltos em momentos importantes, como na desclassificação da Libertadores, num momento difícil que vivíamos e acabou se espalhando para todo mundo.
E como surgiu a ideia de contar sua história em livro e mostrar um outro lado do futebol que não é o do glamour? Com o blog e o contato com os torcedores acabei percebendo que as pessoas não têm a menor ideia do que vivemos, do que passamos para nos tornarmos jogadores profissionais e, mesmo estando lá, como é difícil o dia a dia. Eu tinha alguns textos já prontos que ficava esperando os momentos certos de vitória do time para soltar no blog. Quando eu vi, eu já tinha uns dez, 12 capítulos do que na minha cabeça seria o livro e, dali para frente, foi só completar os capítulos em branco e formatar.
E como foi para você que não é um escritor entrar nesse mundo da literatura? Eu achei bem legal. Quando escrevi eram momentos de prazer. Não fiz nada obrigado e eu não tinha a preocupação de estar escrevendo bonito, cumprindo as regras gramaticais de um escritor. Foi muito natural e eu acho que consegui atingir exatamente aquilo que queria: passar uma humanização do atleta para o povo em geral.
Você tem projeto de escrever outro livro ou está só com esse por enquanto? Tem bastante gente pedindo por outro. Pelo retorno que eu tive as pessoas acabam lendo em dois ou três dias porque é uma leitura muito fácil, muito prazerosa e quando acabam falam ‘cadê o próximo? Esse aqui já foi’. Eu tenho vontade, mas ainda não pautei, mas com certeza virá ou virão outros.
A imprensa tem personificado jogadores de futebol como burros e analfabetos, como se não tivessem cultura nenhuma. Na sua opinião, isso é um preconceito? O jogador é o reflexo da sociedade. O brasileiro em geral não gosta de ler e de maneira geral tem certas limitações porque o ensino público brasileiro é muito ruim e, grande parte da população, depende desse ensino para se educar. É um erro classificar o jogador como analfabeto ou burro porque, na verdade, estamos falando de toda a população brasileira que não tem acesso à educação por falta de oportunidade.
Ano passado você esteve na mídia porque propôs para outros capitães se unirem para reivindicar melhores condições para jogadores de clubes menores e com dificuldades financeiras. Esse projeto continua em andamento? Na verdade não andou muito. Acabei deixando nas mãos do sindicato da categoria e eles não prosseguiram com o projeto. Eu até acabei propondo algo além do sindicato por eles estarem engessados, um pouco travados na ideia que eu tinha. Como tive o projeto do livro, além disso tenho o meu instituto, isso ficou um pouco de lado. Mas isso é uma coisa que eu preciso retomar, porque eu sei que vou fazer o bem para muita gente.
Você também disse que gostaria de ser presidente da CBF e isso repercutiu muito. Esse é um projeto que vai investir no futuro? A primeira vez que falei isso foi no programa do Juca Kfouri, o "Juca entrevista", e repercutiu bastante, foi legal. Eu sou apaixonado por esporte e o que eu puder fazer de bem para o esporte eu faço. Acho que falta um pouco disso nas federações e nas confederações aqui no Brasil. Os cargos são políticos e acabam faltando cargos técnicos, ou seja, pessoas que em primeiro lugar amam o esporte e, em segundo lugar, que tenham conhecimento para mudar as coisas necessárias. É o que eu tenho dito: posso não chegar a presidente da CBF, mas com certeza vou trabalhar em algum cargo diretivo para a melhoria do esporte no Brasil.
Como você vê o futebol brasileiro após o fim da era Ricardo Teixeira? Eu acho que a mudança é conceitual. A ideia do futebol no Brasil ficou muito tempo estagnada e agora com os últimos resultados, as dificuldades que o país vem enfrentando contra alguma seleções mundiais acabou fazendo com que esse movimento fosse necessário. Eu espero que mude e que novas pessoas, novas ideias surjam, mas, principalmente, que tenhamos um objetivo: onde estamos, para onde vamos e como vamos chegar lá. É isso que talvez falte para melhor o futebol como produto acabar atraindo profissionais capacitados e pessoas honestas para lidar com isso.
Hoje vemos muita glamourização da imprensa com relação aos jogadores, transformando o atleta em estrela. Como você vê isso? É claro que tem que vender jornal, mas a gente passa de herói a vilão em um segundo e, às vezes, por se tratarem de jovens de 18, 20, 22 anos, com certeza não têm estrutura emocional para lidar com esses altos e baixos. Ás vezes isso é prejudicial, mas a imprensa faz seu papel. O jogador de futebol no Brasil é um ídolo, um super-herói, que gera paixão, emoção e será assim para sempre. Estamos falando do país do futebol e as pessoas acabam transferindo toda alegria e felicidade da sua vida no seu time.
Você é bastante ligado às redes sociais. Acha válido o uso desses meios para se aproximar dos torcedores ou mesmo ter um canal para se expressar? Acho fundamental. Nos meus tempos de fã, de menino, eu nunca tinha tido contato com jogador de futebol ou tido a oportunidade de perguntar a eles se gostavam de ser jogador ou o que sentiam. Essas redes sociais acabam nos aproximando e dando mais oportunidade de as pessoas nos conhecerem. E esse é mais ou menos o meu papel do livro, ou seja, de humanizar o atleta. Eu sou uma pessoal normal . Eu saio, bebo meu vinho, gosto disso ou daquilo. Eu não sou só jogador de futebol e tem outras coisas que me dão prazer na vida, desde que não prejudique o meu dia a dia no trabalho.
É diferente jogar para o time para o qual você torce? Eu acho que sim. Eu tinha o sonho de jogar no Corinthians e todos os dias em que estou treinando lá estou realizando um sonho. Eu não esqueci não das minhas raízes e do que me motivou para chegar até aqui. É um prazer enorme e eu sempre digo que "se eu puder ficar no Corinthians até o final da minha carreira, vou ficar".






