TELEVISÃO: PALAVRÓRIO SEM CARTILHA

TELEVISÃO: PALAVRÓRIO SEM CARTILHA

Atualizado em 18/05/2009 às 02:05, por Redação Revista IMPRENSA.

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A seguir, a íntegra do bate-papo entre Flávia Boggio, Paulo César Peréio e José Mojica Marins que rolou numa noite de abril de 2009 por intermédio da revista IMPRENSA. O plano era colocar para debater três entrevistadores que não seguem a cartilha tradicional do jornalismo. Até porque nenhum deles é jornalista, mas com muita criatividade e bom humor, destacaram-se na televisão brasileira com seus programas e personas. Flávia é a roteirista que ajuda a dar vida, ao lado dos desenhistas Pavão e Thiago Martins, da personagem Funérea, que entrevista gente de verdade na MTV. Mojica é o criador do famoso apresentador de "O Estranho Mundo de Zé do Caixão", colega de emissora do ator Peréio, que conduz seu cerebral "Sem Frescura" no Canal Brasil. A matéria editada e com outras fotos está na edição 246 da revista. A conversa aconteceu no Bar Brahma, no centro de São Paulo, às vésperas da assinatura da lei antitabaco do governador José Serra, como se vê logo no início do palavrório:

Revista IMPRENSA - Vocês todos fumam? Aproveitem enquanto pode.
José Mojica Marins - Não assinou ainda... Está pra assinar, daí são três meses.
Paulo César Peréio - Três meses de trégua, então vamos marcar aqui, de fumar direto por três meses. De manhã, de tarde e de noite.
Mojica - Tá correndo. O tempo está correndo. Depois não vai poder mesmo.
Como vocês são entrevistadores que não seguem os padrões mais clássicos do jornalismo, a ideia é que batam um papo entre si e nós muito raramente faremos alguma intervenção.
Peréio - O esquema tradicional é o seguinte: não pode errar. Portanto, botam o erro no poder. É a ditadura do erro. [O nosso estilo] é briefingless - sem briefing. Antes de se entrevistar, se faz uma pesquisa sobre o entrevistado e, frequentemente, o entrevistador acaba sabendo muito mais sobre a vida do sujeito do que o próprio. Já me aconteceu isso. E se é uma pergunta sarcástica, eu dou todas as informações erradas. Aliás, eu sou um darling da imprensa... Porque eu minto sempre.
Mojica - Antes de fazer uma entrevista, sempre levanto um briefing. Não uma pesquisa completa, mas aquela ideia de início, meio e final.
Você entra agora na segunda temporada. Que dia você grava?
Mojica - Olha... Eu já gravei para o ano todo. Até abril do ano que vem. Só faltam umas oito entrevistas que a gente faz quando acontece algum caso externo, as externas, né, como se diz. Mas já gravei "Praga", "Infernet", "Cartas" [quadros do programa]. Já está tudo pronto.
Flávia Boggio - Daqui a pouco já vai gravar o especial de aniversário de 10 anos do programa...
Peréio - É uma espécie de stock.
Todo mundo aqui já entrevistou um ao outro?
Peréio - Eu já entrevistei o Mojica, e já fui entrevistado por ele.
Flávia Boggio - A Funérea entrevistou o Zé do Caixão, e eu já trabalhei com o Mojica e já fiz texto pra ele [o Peréio] para o VMB [premiação da MTV].
Peréio - E eu dublei o Mojica! Para um filme do Maurice Capovilla chamado "Profeta da Fome". E ele ficou satisfeito. O melhor filme do Maurice Capovilla. Tinha cama de prego, né?
Mojica - Na verdade, vocês já ouviram falar do Silk? O Silk foi um dos maiores faquires que nós já tivemos, que ficou aqui pelo Paissandu, bateu recorde de peso. Ele ficou cento e poucos dias sem comer, sem beber, numa cama de pregos, com cobras... E eu fiz a fita dele sobre essa história.
Peréio - A fita, a fita!
Mojica - E a ideia, Peréio, de acabar com o Pão de Açúcar? Quer dizer, com o Cristo Redentor?
Vocês concordam com essa campanha de trocar o Cristo pelo Borba Gato [como uma das Sete Maravilhas do mundo moderno]?
Peréio - Essa campanha não é muito popular...
Mojica - Certamente não é nada popular.
Flávia - Eu votaria! Se houvesse essa eleição...
Peréio - É um factóide meu. Não tem nada.



Flávia - Você interpreta algum personagem quando você entrevista, ou é você mesmo [para o Peréio ]?
Peréio - Eu minto sempre. E é um paradoxo, né? Como digo que minto sempre, como sempre eu estava mentindo... [risos]
Mojica - É como dizia um assessor de Hitler: "uma mentira repetida muitas vezes torna-se uma verdade".
Peréio - O Mário Quintana costumava dizer que "a verdade é uma mentira que esqueceu de acontecer." Se você prestar atenção, literatura é mentira.
O quanto é você e o quanto é o personagem nas entrevistas?
Mojica - Entro como Zé do Caixão, na parte mais mística, no lado oculto. Agora, nas reportagens em que eu saio para a rua, aí eu vou como Mojica mesmo.
Peréio - Porém com o Zé Bonitinho houve uma interpenetração[risos]! E o "eu", segundo Theodor Adorno, é ficção.
Mas às vezes são perguntas que o Mojica também gostaria de fazer. Com a Funérea não acontece isso também?
Flávia - Às vezes são perguntas que todos nós faríamos. Mas a Funérea tem liberdade de fazer perguntas que ninguém teria a coragem de fazer. Ela tem o aval de agredir as pessoas e elas acharem bonitinho, legal. São perguntas pertinentes...
Peréio - Mas aí já estava arrumado.
Flávia - É, está pré-combinado. Mas ela pode falar que odeia a pessoa e a pessoa achar engraçado.
Esse lado despojado é o ponto comum? Soltos daquela hipócrita amarra da "verdade jornalística"?
Peréio - A verdade jornalística é a posição da inteligência canalha, é vender jornal. É a ditadura do erro! Eu percebi que há uma tendência ao briefing, é tudo overbriefed.
Flávia - Fazem uma pesquisa de pauta muito rápida, jogam os assuntos e, vira e mexe, fazemos uma pergunta que o cara fala "Pô! Essa pergunta todo mundo me faz! Aqui só tem pergunta clichê." Mas é que a gente tem liberdade mesmo de não fazer nenhuma pesquisa de pauta.
Peréio - Mas uma vez eu fui dar uma entrevista ao Jô Soares. Porra, ele sabia mais da minha vida do que eu!
Flávia - "Pra que eu vou contar sobre minha vida, se você já sabe tudo sobre ela?"
Peréio - Daí eu comecei a contar tudo ao contrário e começaram a me achar mais engraçado do que ele, porque o público dele é cativo, né? O Jô tem uma necessidade de compensação filha da puta. Ou seja, é a ditadura do erro. Se não pode errar, você bota o erro no poder... Eu não: eu procuro o erro.
Mojica - Eu acho o Jô um bom comunicador. Ele consegue levar muitos assuntos na esportiva, com graça, brincando. Acho ele um bom entrevistador. É a minha maneira de ver. O problema do Jô é que ele só traz o que a Globo quer.
Flávia - Ele vive o meio-termo entre ser entrevistador e comediante, mas não é atualizado. Quer fazer graça com umas piadas que já estão antigas, mostra vídeos na internet que rodaram há seis meses e tenta pegar um assunto - "a cocada branca que fulana gosta de comer em Copacabana" - e ficar uma hora falando disso sem nenhuma graça. E usa o entrevistado como escada. Parece que está cansado, fica na zona de conforto, vai esperar aposentar. Tinha que voltar para o "Viva o Gordo".
Você já contou alguma mentira ao ser entrevistado por alguém, Mojica?
Mojica - Veja, eu posso às vezes florear alguma coisa.
Peréio - Mas, Mojica, o Zé do Caixão é ficção!
Mojica - Mas quando vêm me perguntar sobre a origem do personagem, eu tenho de explicar. Tenho de fazer aquela média toda. Já teve programa em que o Mojica entrevistou o Zé do Caixão e foi muito legal. Foi para a Globo e eu me senti muito à vontade fazendo perguntas que ninguém faria, sobre o Zé existir desde os primórdios dos tempos, segundo os centros espíritas... Enfim, colocações como essa que ninguém faria nunca.

Existe entrevistado ruim, que não rende?
Flávia - Tem... Eu não vou entregar ninguém. Mas a gente procura quem sabe que vai entrar na brincadeira da Funérea.
Todo mundo topa ser entrevistado?
Peréio - Tem que agendar 50, pra sobrar 30.
Flávia - Mas eles adoram, até ligam pra fazer.
Peréio - É o sujeito e o objeto.
Flávia - Mas e se os 50 que você agenda aceitam?
Peréio - Não [acontece...] Tem uns, por exemplo, o Zelito Viana, que marcou
e quando fui à casa dele, ele tava em Paris [risos]. E ele é sócio do Canal Brasil.
Flávia - Eu já levei furo do Sérgio Mallandro. Ele conseguiu dar uns cinco canos na gente. Daí a gente fez um desenho pra avacalhar ele, de vingança [risos].
Peréio - Mas esse Mallandro, trocado por merda, dá prejuízo [risos].
Mojica - Eu acho que todas essas que tinham tudo para parecer igual se tornaram diferentes justamente por entrarem, abordarem um mundo diferente. Então saiam perguntas e repostas que as pessoas dificilmente imaginariam como perguntar para entrevistados... se eles acreditam em disco voador [por exemplo]. Eu já peguei pessoas famosíssimas falando sobre isso. Para você, Pereio, eu não fiz perguntas muito esquisitas. Perguntei sobre seu lado espiritual. Agora, por exemplo, o Sidney Magal se sentiu muito à vontade para falar sobre essa parte mística... Nossa, ele gostou demais!
Peréio - Mojica, sabe o que o João Guimarães Rosa falou? "Deus, se vier, que venha armado." Que não faz milagre. Milagre é a preguiça de Deus.
Vocês assistem TV, por prazer ou por trabalho?
Mojica - Eu assisto direto. Eu procuro TV a cabo que tenha fitas e conteúdos que me interessam, porque eu gosto mesmo. Não apenas por trabalho não.
Peréio - Qual a diferença entre filme e fita? É uma questão de geração, né? Quando o cara fala "fita", já está datando...
Mojica - Ah, não é bem assim.... Filme é uma história completa, realmente, que você pode levar para uma tela de cinema e que pode passar ela hoje para internet, televisão e tal. E fita... Tem que ver de que maneira vai... A fita pode-se dizer que é um material, Se o cara tá falando "fita", pode ser uma fita elástica, tem várias maneiras... Então quando o cara fala "fita" ele é de conhecimento bem baixo de cinema.
Peréio - Não, mas quem fala "fita" é da boca do lixo.
Flávia - Você assiste ao seu programa [para o Peréio]?
Peréio - Nunca. Eu gosto de assistir chanchada, filmes recuperados. Gosto de ver cinema com Copacabana nos anos 50. Gosto de Carlos Manga, de Watson Macedo. Mas odeio me ver. E a crítica não me cabe, eu sou um artista. Se eu jogo essa crítica pra dentro da minha consciência, aos poucos minha cabeça vai virar uma espécie de júri que vai me proibir de fazer qualquer coisa. E como eu disse no começo desta matéria, o erro é Deus. Quem tem medo de errar, não acerta.
Flávia - Mas às vezes não é bom assistir para ver os erros que você não enxergou na hora? Eu assisto muito à TV. Muito, muito. Luciana Gimenez, para ter repertório trash!
Peréio - Grande inspiração! [risos]
Flávia - Assisto Raul Gil, programas gringos, para imitar e fingir que foi criação minha [risos]... Tudo, tudo! Desde coisa chique até trash.
Peréio - Trash is God!
Flávia - Adoro. Minhas melhores ideias vem do trash.
Peréio - Na Alemanha, lixo é matéria-prima. Eles compram seu lixo, você só tem que separar. Aí passa um carro ou uma viatura do Estado, compra o lixo e é matéria-prima.
Mojica - Em São Francisco eu fui pegar um livro do lixo e me brecaram, uma gangue pesada e me disseram para ir em tal lugar que lá eu compraria o livro. Então eu fiquei na minha... É a máfia do lixo. Depois eu fui ao tal lugar e comprei o livro, que tenho até hoje. E cada coisa que tem no lixo por lá, viu... É um lixo diferente [risos].

É porque o lixo lá vale dinheiro, é capital.
Peréio - Templo é dinheiro! O dono da Record é 171!
Mojica - É um grande homem! Porra: o cara trabalhava com loteria esportiva e resolveu jogar na religião e ganhou. Sou fã da inteligência dele. Até a hora que ele foi preso, usou a fita como se fosse Cristo. Ganhou mais e mais fiéis. É um cara que eu gostaria de entrevistar. Está difícil, mas estamos tentando.
Peréio - Eu odeio ele. Eu prometo ajudar a destruí-lo com minhas palavras.
Que pergunta a Funérea faria para o bispo Macedo?
Flávia - Se eu trabalhar pra ele, vai me pagar com saquinho de dinheiro, como aquele de desenho? E aí eu vou ter que deduzir 30% na folha? Ou são só cinco, sem o dízimo?
Vocês são religiosos?
Mojica - Por formação sou católico, mas não sou praticante.
Peréio - Eu odeio todas as religiões. Fui batizado, mas alguém lá... Me batizaram, mas eu era muito pequenininho, não tinha condições de me defender [risos].
Flávia - Eu não fui batizada e minha avó, até morrer, dizia que a gente dormia de olho aberto porque a gente ia pro limbo. Porque a gente não tinha sido batizado...
Peréio - Deve ser pra lá que vão as canetas Bic, os isqueiros...
O que vocês acham que há de pior no jornalismo hoje?
Peréio - É o refúgio da inteligência canalha. É a posição do cinismo. O Samuel Weiner, meu ídolo, dizia que um jornal que não dá lucro é a coisa mais escrota que existe, porque se alimenta das contas oficiais e nunca deu certo...
Flávia - Acho que eles [jornalistas] falam como se fossem uns retardados, quando na verdade estão manipulando completamente a audiência. Ontem eu estava assistindo o Jô Soares e ele estava conversando com o Hélio Bicudo, falando sobre a Eliana Tranchesi: "Mas, quem faz formação de quadrilha não é aqueles bandidos mascarados? Não uma senhora!" Fazendo papel de bobão.



Peréio - Sabe que na cadeia gíria é número de artigo. Por exemplo: 121, homicídio; 157, latrocínio; 155, furto; 171, estelionato. Se for formação de quadrilha é agravante, 19. Mas para mim, o maior agravante é "formação de família". A mãe é o pior inimigo do homem.
Mojica - Olha, eu acho jornalista escroto aquele cara que tira partido de algo. Realmente nós temos caras inteligentes e também caras que tiram partido. Esses deveriam estar aqui na praça da República, sendo enforcados com direito à cobrança de ingressos. Porque eles influenciam a cabeça das pessoas. Jornalista tem poder muito forte. Agora, quando vai pro lado certo, ajuda demais. David Nasser foi um puta jornalista, por exemplo.
O que vocês acham da Marília Gabrilela?
Peréio - Ela é um grande veado [risos].
Flávia - Eu acho que ela fala tanto que eu não tenho paciência de esperar até a resposta do cara. "Porque chega uma hora em que você vai pra lá e aí sente aquela pessoa, sabe como que é isso?" E o entrevistado fica só olhando e responde: "sim". Ela tenta ficar amiga da pessoa, forçar uma falsa intimidade.
Mojica - Eu acho ela uma boa comunicadora. Faz tudo para estar ao lado do seu público... Eu acho uma boa profissional.
Mas tem alguém de quem você não gosta, Mojica?
Peréio - Porque por enquanto tá puxando o saco de todo mundo, né?
Mojica -Tem. Luciana Gimenez. Uma vez, levantei e deixei ela falando sozinha no programa dela. Já tinha ido uma vez e fui respeitado. Na segunda vez pedi para saber quais seriam as perguntas, para que não mexessem com minha vida particular. Mas tiveram a ousadia de perguntar se eu tive relacionamento com a minha filha... A produção perguntou isso e a Luciana repassou. Sei que o marido dela chegou [Marcelo Carvalho, vice-presidente da RedeTV!], deu uma bronca. Quem me defendeu foi o Cacá Rosset, que tava lá de júri. Foi um negócio horrível. Nunca mais voltei lá. Já me ofereceram, mas eu não vou não.
Peréio - Quando ela me entrevistou, veio aquela voz [imitando o locutor do programa, em voz grave]: "você fez sexo com a Sônia Braga e com a Vera Fischer", e eu morro dizendo que não comi. E eu: "Filha ingrata, eu fiz sexo com a sua mãe!" [risos] Aí tocou o celular, era a Vera Gimenez que falou assim: "Não foi uma vez! Foram duas!" E eu não comi... Morro negando!
Flávia - Aí ela falou "Minha mãe, não!", levantou e foi embora...
E o Sérgio Groissman?



Peréio - Começou comigo, foi meu foca, na Bandeirantes, ele cobria música [no programa de rádio "90 Minutos"]. Eu simpatizo hoje com ele. É mais debate.
Flávia - Eu acho que ele tá entrando no problema do Jô Soares, na zona de conforto. Ele não tem mais idade pra ficar no "Fala, garoto!", dar uma de garotão, amigo da galera.
Mojica - Ah, um outro que eu também não gosto é aquele Goulart de Andrade. Fiz uma vez e jurei que nunca mais. Ele pegou uma série de figurantes de manhã até altas horas da noite... Os caras eram pobres, estavam com fome, não foi servido nem sanduíche. Muitos não tinham dinheiro para voltar pra casa... Ele prometeu dar cachê e não deu nada! Deixou todo mundo na mão e eu tive de ajudar do meu bolso! Eu fiquei puto... Dali pra diante, fiquei com raiva do cara.
Flávia - A Funérea paga transporte [risos].
E o João Gordo?
Peréio - Elogios nunca serão suficientes. João Gordo é meu ídolo! É uma questão afetiva. Ele não me afeta e eu tenho afeto por ele.
Mojica - Eu tenho falado com ele. Já fiz entrevista com ele. Eu gosto do João Gordo, ele sempre me defendeu, acho legal, acho bacana. Sempre achei ele um cara... Pode ser assim explosivo do jeito que for com um cara que tem que ser sacaneado, porque ele sacaneia mesmo.
Flávia - Quando entrevistamos ele, teve um problema, pois começamos fazendo pergunta sobre o Ratos de Porão, daí fechou o tempo, ele encarnou o punk, cruzou o braço e virou o cara mais sério do mundo. Foi um mal jeito de começar uma entrevista.
Como funciona a entrevista da Funérea? É você quem está lá no lugar da animação, com o entrevistado?
Flávia - Ficam eu, os dois desenhistas, com uma pré-pauta, sentados numa posição com um ângulo que a pessoa olha para gente e parece que ela está falando com a Funérea. Daí a gente faz as perguntas e vai gravando as respostas. Só depois gravamos a voz e acrescentamos alguns comentários da Funérea que não pensamos na hora.
Mojica , foi confortável para você ser entrevistado por uma animação, pela Funérea?
Mojica - Eu entrei no clima, estava vendo uma menininha. Eu já entrei concentrado, sabendo o que ia acontecer.



Flávia -O Zé do Caixão falava: "Você é uma menininha e, quando crescer, vai dar à luz o Predestinado" [risos].
E o Peréio, a Funérea não quer entrevistar?
Flávia - Opa! Já pode ser o primeiro da próxima temporada, que vamos começar a gravar. Você topa, Paulo? Tem transporte e alimentação [risos].
Mojica , Onde você fez a entrevista com o Michael Stipe, vocalista do REM?
Mojica - Foi aqui em São Paulo, quando eles vieram fazer show no ano passado. Eu tenho uma equipe de produção muito boa, tem um jornalista muito bom, o André Barcinski, que consegue essas produções. Em 93 o próprio André me levou para São Francisco para uma série de reportagens.
Peréio , você só entrevista amigos?
Peréio - Não, veja bem, são 80 mil horas de gravação... Vou para o sexto ano. Mas não pode ser só amigo. Já pintou uma atmosfera áspera, me recordo agora, com a Martha Medeiros, aquela autora do "Divã" - o mesmo nome daquele beque do Vasco, que era uma homenagem ao Roberto Carlos, Odivan. Foi uma antipatia tão grande que morreu. Deu 15 minutos de entrevista e nem foi pro ar.
Flávia - Uma vez aconteceu isso com a gente, com o Rogério Skylab. A entrevista deu nove minutos, não sabíamos mais o que fazer com ele... Acabamos fazendo uma propaganda dele, pedindo pra fazer uma perfomance.
Mojica , qual a melhor entrevista que já fez?
Mojica - Olha, não foi ao ar ainda. Acho que o Zé Ramalho. A gente já teve uma grande amizade no passado, ele é místico demais. Ele guarda uma unha das primeiras vezes que eu cortei, nos anos 1980... Era no Gugu ainda, no "Viva a Noite". Eu dei uma unha que ele guarda até hoje.
Qual foi o tamanho máximo que você já chegou a ter nas unhas?
Mojica - Já passou de meio metro. Sempre me perguntam como eu faço para me coçar, me limpar... Essas coisas. Olha, eu sempre usei um tipo de escova que me permitia, segurando pela palma da mão, eu me coçar onde quer que fosse sem problema nenhum. Hoje eu só tenho uma unha grande, mas já quebrei várias vezes. Para dormir... A gente é como animal, irracionalmente, vai se acostumando. O problema é andar, a curiosidade das pessoas... Putz, já me quebraram a unha muitas vezes. Mas nunca me machuquei e nem a ninguém com as minhas unhas. Se há uma coisa legal, para a mulher, é um homem com as unhas compridas: se você passa nas costas delas, ela se arrepia todinha, todinha... É um carinho diferente [risos].
Peréio - Eu sei uma história sua e quero saber se é verdade. Que você uma vez pegou emprestada umas lentes com um cara e demorou a devolver. Aí ele foi até lá e pegou de volta, apontando: aquela, aquela e aquela. Aí você pegou um revólver e "pá, pá, pá!". Isso é verdade?
Mojica - Mentira! Eu sempre tive muito respeito por lentes porque o cinema é constituído por causa delas. Se tem uma coisa que eu entendo é de lente, para se por numa câmera de cinema. Desde a 9,8 até as menores. Agora tem uma coisa que eu não gosto: é aquele diretor que fica gritando câmera aqui, câmera lá... Putz, isso é chato. Quando eu coloco uma câmera num lugar é lá que ela vai ficar. Por isso que dizem que eu gosto de trabalhar sempre com a mesmo equipe, porque é mais fácil.
Você bebe devagar, né?
Mojica -Devagar. Porque bebendo devagar, não sobe. Eu quero estar sempre consciente.
Peréio - Você está iludido. Bate muito mais... [risos] Isso é um daiquiri? Daiquiri é bebida de boiola. O que você está bebendo é de macho? Isso aqui é açúcar?
Mojica - Não. Isso é sal [mostrando a borda da taça de marguerita].
Peréio - Ah, isso é sal, então sobe a pressão. Você não tem pressão alta?
Mojica -Tenho [risos]. E muito alta, aliás. Domingo eu cheguei a 20 por 13.
Quem vocês gostariam de entrevistar que ainda não deu certo?
Flávia - Entrevistar o Peréio, que já convidei aqui. A gente sempre tenta o Ronaldo Fenômeno, mas ele nunca topa. O Sidney Magal... A gente também convidou o Lourenço Mutarelli, mas ele não topou.



Mojica - Eu tô tentando entrevistar o Lula. Porque ele já falou abertamente comigo em Brasília que ia ajudar o cinema nacional. Só que a grana cai numa panela fechada lá do Rio de Janeiro e não sobra pra ninguém. Fica 80% a 90% da grana com essa gente e o resto para enganar paulista ou o pessoal do Nordeste. Sempre foi assim. O Glauber Rocha uma vez me falou que para pegar dinheiro lá no Rio, tinha de chegar chutando a porta e falar: eu quero dinheiro. Vai tudo para um lugar só. E os demais têm de ralar mesmo, buscar patrocinador... Eu quero esse ano juntar grupos de todo o Brasil e ir falar com o Lula direto.
Se a Funérea entrevistasse o Lula, que pergunta ela faria?
Flávia - Ah, não sei... [pausa] Acho que a primeira seria "Vamos tomar um goró aí?" [risos].