Tecnologia não faz de você um artista", diz o grafiteiro Marcello Savioli

Tecnologia não faz de você um artista", diz o grafiteiro Marcello Savioli

Atualizado em 14/03/2008 às 17:03, por Eduardo Neco/Redação Portal IMPRENSA.

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O desejo por adrenalina e a necessidade juvenil de reconhecimento levaram Marcello Savioli, à época com 14 anos, a pichar os muros da cidade de São Paulo. Hoje, o grafiteiro Marcello, 21 anos, que assina Mea, é reconhecido como um dos maiores nomes do segmento, mesmo que nada tenha feito, de forma consciente, para que isso acontecesse.

Em entrevista ao Portal IMPRENSA, Mea expressa sua falta de pretensão quanto ao sucesso por meio da arte e como o ato de desenhar é inato, puro e incontestavelmente ligado a sua vida, segundo relata, desde o momento em que conseguiu empunhar um lápis de cor, quando ainda era uma criança. "Cara, eu desenho há 21 anos. Isso nasceu comigo", diz o bem-humorado e tímido Mea.

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A reportagem desta semana da seção "Traço" traz, além de um artista, um estudante de Design e Multimídia, que colore as ruas da capital com sua arte marcante e delicada. A delicadeza, em primeiro plano descartada pela maioria dos artistas de rua, é de maneira, intencional ou não, o que norteia os traços de Mea, que relembra sem maiores problemas o tempo em que "tomar uns tapas na cara dos policiais" era mera conseqüência da tentativa de se expressar. "Ah, eles [os policiais] me davam uns empurrões, uns tapas, mas nada demais não".

Atualmente, ele não grafita sozinho; mas com a "gangue de grafite" [palavras do artista] O Vício, composta, entre outros nomes, por Zezão, entrevistado há poucas semanas pelo Portal IMPRENSA. Marcello relata que entrou para a "gangue" graças ao convite de Boleta, uma espécie de líder do grupo e seu amigo pessoal.

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Quanto aos conflitos gerados pelo que chamam de "passar por cima", ou seja, pintar sobre o desenho de outro grafiteiro, Mea não polemiza sobre o suposto clima hostil entre os artistas de rua. "Eu sei que isso existe, mas nunca fui agredido, nem nada. Quem é da rua sabe respeitar o que o outro faz. Quem é de verdade sabe bem é de mentira".

Ele relata, ainda, surpreendente desapego ao que produz e diz nada sentir quando passa por um muro e sua marca foi apagada. "Já fiz um desenho e um minuto depois (risos) pintaram tudo".

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Apesar da habilidade de Mea como grafiteiro já lhe garantir o posto de artista, ele não se prende a apenas um tipo de expressão e comenta como os avanços tecnológicos auxiliam na hora de criar. "Um tablet [plataforma digital para desenho], por exemplo, nada mais é que uma ferramenta. Assim como uma caneta, uma tinta, um pedaço de papel. Tecnologia não faz de você um artista", comenta.

Já sobre o conceito do que é arte, Marcello diz não haver definição exata."Tudo o que alguém falar que é arte, é arte".

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Sobre sua carreira, ele espera viver dos resultados da profissão que escolheu. Quando indagado sobre a possibilidade de ganhar dinheiro com o grafite, Mea não descarta totalmente a chance de vender, de alguma forma, sua arte. "Se acontecer de alguém querer comprar, beleza. Mas, como eu já disse, não é por isso que eu pinto".