TCC's nas prateleiras / Por Fábio Fujita

TCC's nas prateleiras / Por Fábio Fujita

Atualizado em 23/06/2005 às 12:06, por Fábio Fujita.

Por Enquanto o novo livro de Jô Soares chega às livrarias com uma tiragem inicial de nada menos que 100 mil cópias, editoras de pequeno e médio porte atravessam uma realidade bastante distinta. Sem cacife para manter em seu catálogo autores de vendagem previamente garantida, elas precisam se virar pela sobrevivência no desigual mercado editorial brasileiro. Um detalhe que chama a atenção é que muitas delas têm recorrido à universidade - e, mais detidamente, aos cursos de jornalismo - em busca de autores para seus novos projetos editoriais. Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC's), saídos da escola já com consistente qualidade profissional, têm chamado a atenção de editoras emergentes e, assim, garantem aos recém-formados a oportunidade de uma projeção profissional imediata à formação, materializada num livro editado.

É o caso de Bruno Marfinati, Juliana Octavini, Camila Matos, Luciana Camargo, Joelma Amaral e Miriam Hespanhol que, formados em 2004 pela Universidade Metodista, realizaram juntos um projeto experimental em livro-reportagem intitulado "Tudo Que Eu Vi", que lhes rendeu o diploma de jornalistas. O trabalho foi editado e acaba de ser lançado no mercado pela editora CLA. O livro trata da questão do idoso no Brasil, valendo-se de histórias de vida de personagens que foram atuantes na sociedade e que hoje alcançaram aquilo que se denomina, comumente, de "terceira idade". De acordo com Fabio Humberg, 40 anos, diretor editorial da CLA, o que atraiu a editora para a publicação foi a qualidade do texto. "Não tinha cara de trabalho escolar, mas sim a de uma reportagem de mais fôlego, no limite para o ensaio, além do componente emotivo mais forte, ou seja, um contexto de leitura muito agradável", explica.

Outro aspecto decisivo para a publicação foi a atualidade do tema. Na época da elaboração do TCC, o país vivia a repercussão da personagem Dóris (encarnada pela atriz Regiane Alves) na novela Mulheres Apaixonadas, conhecida por humilhar os avós. "É curioso saber como eles [os autores], tão jovens, vêem o idoso", diz Humberg. "[Nossa motivação] era descobrir que idosos vamos querer ser quando chegar nossa hora", disse Marfinati durante o lançamento oficial do livro, realizado na Fnac, em São Paulo, no início de maio. A curiosidade sobre esse fato em si - jovens escrevendo sobre o que eles não são - foi um aspecto valorizado pela editora, como um dos potenciais atrativos de vendagem.

A premissa é similar a que levou a editora Carrenho Editorial a publicar em livro o projeto experimental "Contos de Bordel", de Renata Bortoleto, Ana Laura Diniz e Michele Izawa. Formadas em 2002 pela Faculdade Cásper Líbero, as autoras freqüentaram a região da chamada "Boca do Lixo" de São Paulo para escreverem uma reportagem sobre a prostituição feminina da cidade. Além da temática por si só interessante, o fato de três jovens garotas terem se engajado num projeto que requeria tamanha coragem estimulou a publicação. "Podia gerar mídia, afinal, era um fato pitoresco - mais do que se tivesse sido escrito por um sociólogo", atesta Carlo Carrenho, 32 anos, publisher da editora.

Base ou íntegra? - A versão final do livro publicado pela editora nem sempre é a íntegra do que havia sido o TCC. Os casos variam conforme o próprio perfil de cada projeto. No caso de "Contos de Bordel", fez-se uma reestruturação, mas mantendo a essência original: como há a mescla de histórias no estilo new journalism (ou "jornalismo literário") com passagens descritivo-analíticas, optou-se em abrir cada capítulo com uma história.

Carrenho considera que o TCC é, via de regra, apenas o ponto de partida de um projeto editorial. Ele lembra de outro livro do catálogo de sua editora originado de TCC: "Nada Mais Que a Verdade", dos autores Celso Campos Jr., Denis Moreira, Giancarlo Lepiani e Maik nge Lima, que trata da trajetória do hoje extinto periódico Notícias Populares. "Quando estava lendo [o original], o texto vinha muito bem, mas de repente em três páginas o livro acabou, quando ainda faltavam dez anos para o jornal fechar as portas", diverte-se Carrenho. A justificativa dos autores era que o prazo para a entrega do TCC havia chegado ao fim, quando a elaboração do projeto ainda estava em andamento. "Comparado com o TCC, o livro [Nada Mais Que a Verdade] foi 30% maior, ou mais. Foi bem mais trabalhoso que 'Contos de Bordel', porque tivemos que refazer muitas coisas, fazer pesquisa iconográfica que não havia sido feita no TCC".

Já em "Tudo Que Eu Vi", os ajustes realizados pela editora foram mínimos porque o TCC já chegou praticamente pronto para ser publicado. "Mudou um pouco da parte estrutural, basicamente aqueles cabeçalhos dirigidos à universidade. A gente acrescentou a parte de créditos, os registros oficiais. Fizemos o texto de orelha, o texto de apresentações dos autores, com foto deles, e pequenas sugestões de ajuste no texto, como excluir as referências datadas", explica Humberg. Até mesmo o projeto gráfico, visando o leitor mais idoso - e, portanto, com maior potencial para ter problemas de vista -, fora algo já planejado anteriormente pelos autores. "Quem pegar o livro, vai ver que o tamanho da fonte é diferenciado, com espaçamento maior, tudo isso porque já pensávamos na publicação", afirmou Marfinati durante o lançamento.

No caso do jornalista Pablo Uchoa, 27 anos, formado pela USP (Universidade de São Paulo), o TCC foi apenas uma das três partes que iriam compor o livro "Venezuela: A Encruzilhada de Hugo Chávez", publicado pela Editora Globo. Durante o curso, estimulado por uma cadeira intitulada "Nossa América Latina", que o permitiu que fosse realizar pesquisas na Argentina com dinheiro da pró-reitoria, Pablo viajou para a Venezuela por conta própria. A intenção era a de acompanhar o processo eleitoral que reelegeu Chávez. Por um mês, o então estudante vasculhou arquivos do Banco Central venezuelano para compreender a economia do país, conversou com personalidades locais, vivenciou o dia-a-dia das manifestações sócio-políticas. Com o que apurou, redigiu o livro-reportagem que seria o seu TCC - aprovado com nota dez no ano de 2000.

Jornalismo na veia - Em 2002, no entanto, Uchoa sentiu novamente a necessidade de ir à Venezuela investigar o golpe que derrubou Chávez por 47 horas, para elaborar um quadro mais completo da política local. "Com esse material, voltei e escrevi os primeiros capítulos. E já tinha a parte dois do livro, que era o meu TCC", explica Uchoa. Assim, com o livro ainda incompleto, foi procurar as editoras. O ineditismo do tema no mercado editorial foi fator determinante para conseguir acertar a publicação pelo selo da Globo. "Ninguém tinha na época nenhum trabalho de fôlego sobre Chávez", lembra Uchoa. Seu trabalho acabou sendo iniciático: hoje, há pelo menos outros dois bons livros sobre tema no mercado brasileiro. Mais do que isso, o trabalho de Uchoa acabou servindo como a principal referência para a própria imprensa brasileira quando o assunto é Venezuela. "Recentemente, saiu uma matéria no [jornal] Estadão, em que o repórter foi entrevistar o mesmo sujeito que cito no meu livro", diz o autor. Ele se refere a ngel García, empresário cujo depoimento abre o livro de Uchoa, falando da neurose do povo venezuelano, que se armava dentro de casa, temeroso por um conflito de classes armado em plena Caracas. "Nas reuniões de condomínio, aqui a gente trata do playground das crianças. Lá, eles falavam sobre a explosão social do país".

A obstinação e o desafio, condições da boa reportagem, caracterizam essa safra de TCC's que viraram projetos editoriais comerciais. Carlo Carrenho fez questão de transformar o que no TCC era um memorial em uma espécie de epílogo/making of de "Contos de Bordel", em que são relatados certos apuros de reportagem pelas quais as autoras passaram. Uma delas, Ana Laura Diniz, escapou por muito pouco de ser esfaqueada, numa perseguição envolvendo uma prostituta. Conta-se também que, certa vez confundidas com o tipo que investigavam - prostitutas -, Ana Laura teve que ser perspicaz para impedir que a mão de um "cliente" invadisse as coxas da colega Renata Bortoleto.

O que também animou Carrenho no projeto "Contos de Bordel" foi a disposição das autoras em (re)confirmar dados, reestruturar o texto, correr atrás de divulgação pela própria conta. "Esse pessoal que acabou de se formar tem um superpique, que autor individual, numa outra situação, não teria", diz Carrenho. Ele lembra de um trecho do livro em que é mencionado um certo número de degraus da escada de uma casa na Boca do Lixo. "A Ana Laura não teve dúvida: foi lá contar de novo! Isso dificilmente vai acontecer com um Fernando Morais", diverte-se. Fato inusitado foi a participação das autoras no extinto programa sobre sexo da RedeTV, Noite Afora, apresentado por Monique Evans.

Universidade como fonte - Do ponto de vista das editoras, a iniciativa de recorrer aos TCC's para fazer destes os produtos de seus catálogos ainda é tímida, se levado em conta o alto número de trabalhos de qualidade apresentados ao final dos cursos. O principal fator, no entanto, é a dificuldade própria das pequenas editoras em conseguir desenvolver um bom trabalho de divulgação junto à mídia e à opinião pública de livros escritos por autores iniciantes/desconhecidos. É fundamental que um TCC, como qualquer outro tipo de original publicável, apresente alguma peculiaridade que justifique a aposta de uma editora em adquiri-lo.

O "Q.I." ("Quem Indicou"), nesses casos, é a melhor credencial - e, é bom que se diga, aqui não há o teor pejorativo com que a expressão é usualmente utilizada. O respaldo de alguém do mercado que tenha feito uma avaliação prévia positiva do trabalho em questão é, por si só, um apoio de vendas. Para se formar em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero em 2002, Marcílio Godoi, 42 anos, havia escrito como projeto de conclusão um trabalho intitulado "São Paulo, Cidade Invisível", em que traçava um perfil sentimental da cidade a partir de histórias de personagens anônimos. "Um mês depois, estava fazendo uma omelete para meus filhos em casa quando recebi um telefonema de uma colega, dizendo que o Mino Carta [editor da CartaCapital] e o César Tralli [jornalista da Rede Globo] tinham acabado de me dar o Grande Prêmio Cásper Líbero para o trabalho", lembra Godoi.

Ao entrar em jornalismo, o autor, também arquiteto e artista plástico, tinha em mente buscar na faculdade novos formatos e linguagens jornalísticos, que não fossem o padrão vigente. Nesse sentido, a Cásper Líbero é bastante "liberal", tanto que, ali, a denominação técnica para "Trabalho de Conclusão de Curso" é "Projeto Experimental" - efetivamente uma nomenclatura mais fiel à sua proposta. "Desde o princípio, tinha clara a idéia de convergir em um mesmo ensaio jornalismo e literatura", explica Godoi. "Tomei a publicação do projeto já de início como um desafio integrante da proposta, algo que viria a validar não só o trabalho, mas também o curso de jornalismo".

Como o seu colega de turma Uchoa, José Chrispiniano, 27 anos, também viajou para o exterior para realizar seu TCC. O então formando pela USP ficara 20 dias em Praga, na República Tcheca, para cobrir as manifestações anti-globalizantes e os protestos contra o FMI e o Banco Mundial, em setembro de 2000. O resultado foi o livro-reportagem "A Guerrilha Surreal". Inicialmente recusado pelas editoras, o projeto tomou novo rumo depois de uma avaliação positiva de um professor de Chrispiniano, o historiador Nicolau Sevcenko, que redigiu o prefácio. "O setor de livros é complicado. É louvável, que poucas editoras fazem, apostar em um livro de um 'moleque' de 20 e poucos anos, pela qualidade do livro em si. Em geral, publica-se muita porcaria porque o autor 'tem nome'", avalia Chrispiniano.

Para Carlo Carrenho, a falta de mais TCC's publicados é menos a aposta na universidade como fonte rica de bons projetos do que as dificuldades próprias das editoras nanicas no mercado editorial. "Quantos TCC's só a Cásper Líbero, por exemplo, faz por ano? O melhor deles sempre vale a pena publicar", acredita, dizendo que tem intenções de discutir uma eventual parceria nesse sentido: a de obter para sua editora os direitos de publicação do melhor projeto experimental de cada ano. Por sua vez, Fabio Humberg aponta para a questão das ambições dos formandos com seus respectivos TCC's. "Muitos dos trabalhos apresentados têm foco apenas na apresentação, no cumprimento da tarefa, não na busca de fazer algo diferenciado", lamenta.

Visibilidade - Apesar de adquirido na conjuntura da efeméride dos 450 anos da cidade de São Paulo, completados em 2004, o livro de Marcílio Godói sofreu com a falta de um nome de maior envergadura da editora (a carioca Bomtexto), causando uma situação peculiar: o livro tem apresentado vendagem maior fora de São Paulo. "Tive capa de caderno de cultura no Rio e em Curitiba, mas em São Paulo não consegui nem um tijolinho, um drops, uma linha, em jornal algum", lamenta. Pouco depois de ter acordado com a Bomtexto, Godoi foi procurado pela editora do Senai, mas já era tarde. "Se pudesse escolher, talvez optasse por uma editora com maior penetração na mídia paulistana".

É utópico pensar que a edição do TCC em livro poderá resultar num best seller das livrarias. Mesmo o trabalho de Pablo Uchoa, que saiu por uma editora de ponta, a tiragem inicial foi de 3 mil exemplares - assim como "São Paulo, Cidade Invisível" e "A Guerrilha Surreal". "Contos de Bordel" saiu com 2,5 mil cópias; "Nada Mais Que a Verdade", 2,2 mil; "Tudo Que Eu Vi", 2 mil. "Deu para pagar o investimento, mas é pouco", lamenta Uchoa, que, como todo autor iniciante, recebe 10% do valor de capa. "No meu caso, fiz todo o projeto gráfico, editoração e montagem. Se colocar essas contas na ponta do lápis... é melhor não colocar. Use o lápis para escrever outro livro", ironiza Godoi.

Carlo Carrenho diz, sobre "Contos de Bordel", que logo na primeira reunião alertou as autoras de que o livro venderia pouco, mas que o tratamento que sua editora dispensaria seria o diferencial. Os dois TCC's editados por Carrenho consumiram, cada um, o trabalho de um semestre inteiro da equipe, já que a Carrenho Editorial lança em média apenas dois livros por ano. "Editora grande tem mais força de marketing, mas na relação pessoal se perde um pouco, é simplesmente mais um livro", completa. A editora CLA, que lançou "Tudo Que Eu Vi", tem números pouco superiores: lançou seis livros em 2004, e prevê oito para este ano.

Se ninguém vai ficar rico com os contratos assinados com as editoras, é certo que, ao menos, os autores ganham uma visibilidade - e uma conseqüente abertura de portas no mercado profissional - inimaginável, se os mesmos trabalhos tivessem ido para a gaveta, a partir da conclusão da graduação. "Quem sai do TCC e quer publicar, realmente não deve pensar ainda na história de valor. A publicação dá uma legitimação, que é impagável", analisa Uchoa. Não é incomum os autores, assim que publicados, passarem a receber "serviços por encomenda". Chrispiniano, hoje colaborador da revista Caros Amigos, fez uma matéria para a revista Trip, entrevistando a melhor amiga de uma menina que se suicidou (junto com um brasileiro) no cenário político de Praga. Um dos autores de "Nada Mais que a Verdade", Celso de Campos Jr., acaba de lançar uma biografia de fôlego de Adoniran Barbosa, pela editora Globo - um catatau de 608 páginas. "Sinto-me honrado de ter dado o primeiro espaço para ele aparecer, ter surgido como autor de livro", festeja Carrenho. Pablo Uchoa também já foi acionado para escrever uma pequena biografia, que, se tudo der certo, vai ser o lançamento inaugural de uma nova editora. Seu biografado será o escritor Graciliano Ramos.

(Reportagem publicada originalmente na revista Ensino Superior)

Serviço:
Contos de Bordel
Renata Bortoleto, Ana Laura Diniz e Michele Izawa
160 pgs.
Preço: R$ 29
Editora Carrenho Editorial
Telefone: (11) 3816-1270
www.carrenho.com.br

A Guerrilha Surreal
José Chrispiniano
160 pgs.
Preço: R$ 29
Editora Conrad
Telefone: (11) 3346-6088
www.conradeditora.com.br

Nada Mais Que a Verdade
Celso de Campos Jr., Denis Moreira, Giancarlo Lepiani e Maik Rene Lima
280 pgs.
Preço: R$ 32
Editora Carrenho Editorial
Telefone: (11) 3816-1270
www.carrenho.com.br

São Paulo, Cidade Invisível
Marcílio Godoi
180 pgs.
Preço: R$ 42
Editora Bomtexto
Telefone: (21) 2176-0606
www.bomtextoeditora.com.br

Tudo Que Eu Vi
Bruno Marfinati, Juliana Octavini, Camila Matos, Luciana Camargo, Joelma Amaral e Miriam Hespanhol
110 pgs.
Preço: R$ 20
Editora CLA
Telefone: (11) 3766-9015
www.editoracla.com.br

Venezuela: A Encruzilhada de Hugo Chávez
Pablo Uchoa
296 pgs.
Preço: R$ 35
Editora Globo
Telefone: (11) 3767-7800
www.globolivros.com.br