Tão perto, tão longe
Tão perto, tão longe
Atualizado em 27/12/2010 às 11:12, por
Igor Ribeiro.
Orestes Quércia e José Alencar permaneciam internados a poucos quartos de distância, no hospital Sírio-Libanês, até um deles sair - o ex-governador paulista, falecido na manhã de sexta-feira, 24. Até o término desta coluna, o vice-presidente lá permanecia, combatendo um câncer abdominal, repetindo diariamente aos seus médicos o desejo de ver a posse de Dilma Rousseff em Brasília. Fora o fato de tanto Quércia quanto Alencar serem empresários e políticos com carreiras de destaque, pouca coisa resta em comum.
O primeiro fez parte do MDB, legenda política de oposição à Arena da ditadura militar. Quércia contribuiu para a fundação do PMDB, quando na transição democrática voltou a ser legalizado o pluripartidarismo, e apoiou as Diretas Já. Alencar era do PL, partido de fortes convicções neoliberais que se associou ao Prona - do doutor Enéas Carneiro - e virou o PRB, alvo de polêmica por atrair políticos com histórico religioso para seus quadros.
O PMDB também é aliado do governo federal. Mas não em São Paulo, onde Quércia criou uma poderosa barricada contra o PT e Lula, preferindo se aliar aos quadros do PSDB e do Democratas (ex-PFL, custa nada lembrar, com resquícios da Arena...). Nas últimas eleições, ao retirar-se da corrida para o Senado para cuidar da doença, passou a apoiar o tucano Aloysio Nunes, que deu uma arrancada inesperada na reta final e acabou se elegendo.
Apesar da riqueza acumulada, Alencar tem origem bastante popular, um laço pessoal muito mais intenso com Lula do que os vínculos políticos entre PRB e PT. À parte disso, a presença de um vice-presidente com fortes convicções no livre mercado serviu para acalmar os pessimistas com a vitória do ex-sindicalista em 2002. A aliança do então PL a quem estivesse no poder fazia muito mais sentido do que qualquer nível de instabilidade interna da legenda.
O mesmo tipo de aliança situacionista assumiu o PMDB nacional um ano depois, conquistando vários ministérios. A ala quercista permaneceu afastada desse dividendo. Se estivesse vivo em 1º de janeiro, o ex-líder nacional do PMDB assistiria ao atual, Michel Temer, tomar posse como vice-presidente. Com uma pontinha de rancor, certamente.
Tantas diferenças para se encontrarem tão proximamente, em quartos do Sírio Libanês, hospital de primeira linha localizado na região central de São Paulo. Pouco importa se usufruíram de equipamentos de alta tecnologia em dormitórios limpos e arejados de uma instituição particular e não das sucatas e leitos desconfortáveis (raramente) disponíveis da rede pública do SUS ou estadual. Pouco importa o quanto se desencontraram em suas carreiras políticas e empresariais, ainda que raramente tenham feito oposição direta entre si. Pouco importam siglas, dissidências, alianças... À beira da morte, tudo isso parece pequeno e insignificante.
O frágil pêndulo da vida faz pensar que, no mínimo, todos deveriam ter a vontade de perseguir, com maturidade, um bem maior e coletivo. E tomara, de verdade, que seja este o caminho a ser percorrido pelos nossos novos representantes a partir de 2011. De resto, nada importa. No fim das contas, voltamos todos para o mesmo lugar. Sempre.
O primeiro fez parte do MDB, legenda política de oposição à Arena da ditadura militar. Quércia contribuiu para a fundação do PMDB, quando na transição democrática voltou a ser legalizado o pluripartidarismo, e apoiou as Diretas Já. Alencar era do PL, partido de fortes convicções neoliberais que se associou ao Prona - do doutor Enéas Carneiro - e virou o PRB, alvo de polêmica por atrair políticos com histórico religioso para seus quadros.
O PMDB também é aliado do governo federal. Mas não em São Paulo, onde Quércia criou uma poderosa barricada contra o PT e Lula, preferindo se aliar aos quadros do PSDB e do Democratas (ex-PFL, custa nada lembrar, com resquícios da Arena...). Nas últimas eleições, ao retirar-se da corrida para o Senado para cuidar da doença, passou a apoiar o tucano Aloysio Nunes, que deu uma arrancada inesperada na reta final e acabou se elegendo.
Apesar da riqueza acumulada, Alencar tem origem bastante popular, um laço pessoal muito mais intenso com Lula do que os vínculos políticos entre PRB e PT. À parte disso, a presença de um vice-presidente com fortes convicções no livre mercado serviu para acalmar os pessimistas com a vitória do ex-sindicalista em 2002. A aliança do então PL a quem estivesse no poder fazia muito mais sentido do que qualquer nível de instabilidade interna da legenda.
O mesmo tipo de aliança situacionista assumiu o PMDB nacional um ano depois, conquistando vários ministérios. A ala quercista permaneceu afastada desse dividendo. Se estivesse vivo em 1º de janeiro, o ex-líder nacional do PMDB assistiria ao atual, Michel Temer, tomar posse como vice-presidente. Com uma pontinha de rancor, certamente.
Tantas diferenças para se encontrarem tão proximamente, em quartos do Sírio Libanês, hospital de primeira linha localizado na região central de São Paulo. Pouco importa se usufruíram de equipamentos de alta tecnologia em dormitórios limpos e arejados de uma instituição particular e não das sucatas e leitos desconfortáveis (raramente) disponíveis da rede pública do SUS ou estadual. Pouco importa o quanto se desencontraram em suas carreiras políticas e empresariais, ainda que raramente tenham feito oposição direta entre si. Pouco importam siglas, dissidências, alianças... À beira da morte, tudo isso parece pequeno e insignificante.
O frágil pêndulo da vida faz pensar que, no mínimo, todos deveriam ter a vontade de perseguir, com maturidade, um bem maior e coletivo. E tomara, de verdade, que seja este o caminho a ser percorrido pelos nossos novos representantes a partir de 2011. De resto, nada importa. No fim das contas, voltamos todos para o mesmo lugar. Sempre.






