Tancredo Neves e a farsa da Secom
Tancredo Neves e a farsa da Secom
Atualizado em 10/03/2010 às 17:03, por
Nelson Varón Cadena.
Na manhã de 26 de março de 1985 os jornais diários do país estampavam na sua primeira página a foto do Presidente Tancredo Neves vestindo um robre de chambre sobre o pijama, echarpe em volta do pescoço, sentado num sofá, ao lado dos médicos num cenário onde não faltaram lindas flores, o toque pessoal de Dona Risoleta. Segundo noticiou Veja , na época, (versão contestada por Augusto Nunes) atrás do sofá uma enfermeira abaixada segurava dois frascos de soro. A foto era uma farsa, uma encenação montada pela Secretaria de Comunicação da Presidência, então sob a direção do ex-ministro e ex-governador Antônio Brito, com o propósito de mostrar ao país que o Presidente eleito pelo colégio eleitoral estava se recuperando das várias intervenções cirúrgicas realizadas. Na mesma hora em que a Secom distribuía à imprensa a foto revelada, Tancredo sofria uma nova hemorragia.
Lembrei dessa imagem semana passada, a propósito das comemorações do centenário de nascimento do político mineiro. O retrato em questão foi apenas um dos desencontros entre a realidade dos fatos e as versões, então divulgadas por razões de estado (vivíamos a transição entre a ditadura e a democracia e persistia a dúvida se a morte do presidente interromperia o processo), num contexto de muitos boatos, inclusive o do envenenamento por prepostos do regime. Prevaleceram as versões, todas surgidas dentro do Palácio do Planalto e faltou à imprensa brasileira um trabalho investigativo que melhor poderia ter esclarecido a opinião pública. Houve alguns esforçadas isolados, nesse sentido, atropelados pelos boletins oficiais, sempre otimistas.
As várias versões
Versões que surgiram desde 12/03/85 quando Tancredo recebeu a visita do médico Renault Mattos Ribeiro que O Estado De São Paulo noticiou tinha o objetivo de tratar de uma faringite. O próprio Tancredo teria mentido ao jornal declarando estar muito bem de saúde. Dois dias depois quando o Presidente foi internado às pressas, às vésperas da posse, prevaleceu a versão de que tinha sido operado de apendicite. Não se sustentou por muito tempo. Os médicos então informavam, através de boletim, da retirada de um divertículo de Meckel do abdômen do paciente. Era mentira. Tancredo Neves de fato tinha um tumor, um mioma de seis centímetros que foi retirado do intestino e os brasileiros não foram informados disso, naquele momento.
O laudo falso (que sustentou a versão preparada pela Secom ( tinha sido assinado pelo médico Élzio Miciara, o profissional admitiria muitos anos depois a farsa, atribuindo o documento à pressões da família do Presidente que nunca admitiu a acusação. Em todo caso é difícil admitir que um médico, por iniciativa própria, falsifique um laudo. O que teria a ganhar com isso? Pressões a parte, o fato é que durante os 38 dias da longa agonia de Tancredo Neves a imprensa foi permanentemente induzida ao erro, por um aparelho de divulgação do Estado que se esforçava em passar a imagem para os brasileiros de uma eventual (e desejada) recuperação do Presidente. A foto de Gervásio Batista, mencionada no início deste artigo, seria a peça mais representativa dessa farsa.
Muitos anos antes 1918/1919 a imprensa também omitira a doença de Francisco Rodrigues Alves, eleito para um segundo mandato de Presidente da República, vitima da influenza, o vírus que passaria para a história com a injusta denominação de gripe espanhola. Deveria ter tomado posse em 15/11/1918, mas veio a óbito em 16/01/1919. O editorial de Fon-Fon, revista semanal, noticiando a morte do político resumiu a questão num simples "após longa e tenaz enfermidade". Careta, por sua vez, sequer mencionou a existência de uma doença, limitando-se a noticiar as exéquias e a repercussão no meio político. Na morte de Rodrigues Alves a imprensa fez o jogo da omissão supostamente para não causar pânico entre a população. Na morte de Tancredo Neves a idéia era garantir a transição sem percalços. Em ambos os casos prevaleceram as versões sobre os fatos. Os interesses de Estado sobre os direitos dos cidadãos. O Direito à informação.
Lembrei dessa imagem semana passada, a propósito das comemorações do centenário de nascimento do político mineiro. O retrato em questão foi apenas um dos desencontros entre a realidade dos fatos e as versões, então divulgadas por razões de estado (vivíamos a transição entre a ditadura e a democracia e persistia a dúvida se a morte do presidente interromperia o processo), num contexto de muitos boatos, inclusive o do envenenamento por prepostos do regime. Prevaleceram as versões, todas surgidas dentro do Palácio do Planalto e faltou à imprensa brasileira um trabalho investigativo que melhor poderia ter esclarecido a opinião pública. Houve alguns esforçadas isolados, nesse sentido, atropelados pelos boletins oficiais, sempre otimistas.
As várias versões
Versões que surgiram desde 12/03/85 quando Tancredo recebeu a visita do médico Renault Mattos Ribeiro que O Estado De São Paulo noticiou tinha o objetivo de tratar de uma faringite. O próprio Tancredo teria mentido ao jornal declarando estar muito bem de saúde. Dois dias depois quando o Presidente foi internado às pressas, às vésperas da posse, prevaleceu a versão de que tinha sido operado de apendicite. Não se sustentou por muito tempo. Os médicos então informavam, através de boletim, da retirada de um divertículo de Meckel do abdômen do paciente. Era mentira. Tancredo Neves de fato tinha um tumor, um mioma de seis centímetros que foi retirado do intestino e os brasileiros não foram informados disso, naquele momento.
O laudo falso (que sustentou a versão preparada pela Secom ( tinha sido assinado pelo médico Élzio Miciara, o profissional admitiria muitos anos depois a farsa, atribuindo o documento à pressões da família do Presidente que nunca admitiu a acusação. Em todo caso é difícil admitir que um médico, por iniciativa própria, falsifique um laudo. O que teria a ganhar com isso? Pressões a parte, o fato é que durante os 38 dias da longa agonia de Tancredo Neves a imprensa foi permanentemente induzida ao erro, por um aparelho de divulgação do Estado que se esforçava em passar a imagem para os brasileiros de uma eventual (e desejada) recuperação do Presidente. A foto de Gervásio Batista, mencionada no início deste artigo, seria a peça mais representativa dessa farsa.
Muitos anos antes 1918/1919 a imprensa também omitira a doença de Francisco Rodrigues Alves, eleito para um segundo mandato de Presidente da República, vitima da influenza, o vírus que passaria para a história com a injusta denominação de gripe espanhola. Deveria ter tomado posse em 15/11/1918, mas veio a óbito em 16/01/1919. O editorial de Fon-Fon, revista semanal, noticiando a morte do político resumiu a questão num simples "após longa e tenaz enfermidade". Careta, por sua vez, sequer mencionou a existência de uma doença, limitando-se a noticiar as exéquias e a repercussão no meio político. Na morte de Rodrigues Alves a imprensa fez o jogo da omissão supostamente para não causar pânico entre a população. Na morte de Tancredo Neves a idéia era garantir a transição sem percalços. Em ambos os casos prevaleceram as versões sobre os fatos. Os interesses de Estado sobre os direitos dos cidadãos. O Direito à informação.





