Supervalorização de empresas na internet faz o mercado temer a possibilidade de nova bolha digital

A supervalorização de empresas como Facebook e Twitter gerou uma certa apreensão pelo risco do surgimento de uma nova bolha no mercado de al

Atualizado em 28/05/2011 às 16:05, por Flávio Costa e Pamela Forti.

Uma bolha Web 2.0

ta tecnologia. IMPRENSA abordou o tema na edição de maio (267, pág. 62). Executivos como Eric Schmidt, do Google, já vê claros sinais de um novo estouro no ar, como aconteceu em março do ano 2000.

A questão é controversa, como se pode notar pelas análises dos entrevistados abaixo pelo Portal IMPRENSA sobre o assunto: o economista Ricardo Amorim, apresentador do Manhattan Connection, colunista da IstoÉ e presidente da Ricam Consultoria (www.ricamconsultoria.com.br); e os empreendedores Paulo Veras (www.imperdivel.com.br) e Marco Perlman (www.digipix.com.br)

Ricardo Amorim

HAVERÁ UMA NOVA BOLHA?
Não. Não acho que há sinais de uma nova bolha. Na virada para os anos 2000 houve uma alta de tudo que era associado à internet. Bastava uma empresa colocar um ".com" no nome para ela passar a valer mais do que ela valia antes, e esta situação até agora não aconteceu. Estamos muito longe disso. Isso não quer dizer que não possa acontecer uma nova bolha, mas, no momento, não há sinais. Eu acrescentaria ainda uma outra questão: não são as empresas de internet como um todo que estão tendo altas significativas, são as empresas ligadas às redes sociais. Se é para se falar uma nova bolha, ela não é de internet, e sim das redes sociais.

VALOR DAS EMPRESAS
Em parte, um dos fatores que levaram a esta alta do valor do mercado do Facebook, foi processo pelo qual as ações da empresa foram oferecidas. Até agora muito poucas ações foram oferecidas como um todo. É a questão clássica da demanda e da oferta: como a oferta de papeis de Facebook ainda é pequena e muita gente acha que a empresa é um ótimo investimento, o preço logicamente vai subir muito. Talvez um lançamento maior de ações possa ter um impacto contrário, um impacto de redução dos preços das ações.

FACEBOOK VAI CHEGAR A US$ 1 TRILHÃO?
É um chute do David Kirkpatric. Pode acontecer, como pode acontecer justamente o contrário. Talvez o Facebook já tenha chegado ao maior valor que ele venha a atingir. Há dois fatores essenciais: um é o desenvolvimento da economia mundial, e principalmente da economia dos Estados Unidos. Uma coisa importante salientar é que o Facebook é líder global porque é líder disparado nos Estados Unidos e nos países de língua inglesa. No Brasil, por exemplo, o Facebook não é líder, e sim o Orkut. Na China, Rússia e Índia, o Facebook também não é líder. Em grandes mercados que vão crescer ainda mais, o Facebook não detém a liderança. A questão é a seguinte: se a economia americana passar por um período ainda complicado, e as chances não são pequenas, vai limitar o potencial de crescimento do Facebook. Um segundo aspecto, é que eles já conseguiram rentabilizar o Facebook, mas em parte. O valor de mercado do Facebook está ligado à possibilidade de que eles vão conseguir rentabilizar muito mais. Mas isso pode não acontecer. Eles estão criando esquema de propagandas especiais levando em consideração o perfil do usuário para definir o que vai ser anunciado. Pode ser que funcione e o Facebook consiga rentabilizar ainda mais.

LIQUIDEZ GERA DESENVOLVIMENTO NO MERCADO
Este é o lado positivo da situação. Maior liquidez gera maior investimento e acabar por desenvolver o mercado. O lado negativo, que é o que caracteriza uma bolha, é quando você tem mais dinheiro disponível do que boas ideias efetivas, acaba acontecendo que vai ter investidor colocando dinheiro em ideias ruins, em negócios sem nenhuma viabilidade. Eu acho que existe disponibilidade de capital não só para empresas de internet, especificamente, empresas de redes sociais, mas existe disponibilidade de capital, de maneira geral. Como resposta à crise financeira, os bancos centrais europeus, dos Estados Unidos e do Japão colocaram uma quantidade imensa de dinheiro em circulação. Apenas nos Estados Unidos quadruplicou a oferta de dólares em um período de três anos. A disponibilidade de financiamento não é exclusivamente relacionado ao mercado de internet.

MÍDIA & TECNOLOGIA
Eu concordo que há uma timidez das empresas em usar toda a tecnologia disponível da Web 2.0. Mas isso não é exclusivo das empresas de mídias brasileiras, e sim, das empresas de mídia em geral. Há um desafio para as empresas de mídia que pode ser resumido da seguinte forma: como agregar a internet ao seu negócio sem canibalizá-lo? Ninguém achou uma solução satisfatória para este dilema. A Web 2.0 tanto pode alavancar os negócios dessas empresas como pode matar uma parte importante dos negócios destas empresas. As empresas de setores tradicionais também sentem esta dificuldade, mas a diferença é que no caso da mídia há um fator agravante: as empresas de redes sociais oferecem, sobretudo, informação, que é a razão de ser destas empresas.

NOVA EMPRESA DE TECNOLOGIA
Eu acredito que teremos uma grande uma empresa de tecnologia brasileira nos próximos anos.

Paulo Veras

HAVERÁ UMA NOVA BOLHA?
Há sinais de uma bolha na internet. Mas temos que separar um pouco as coisas. Claramente está tendo excessos, em termos de valorização e assédio a estas empresas. Você pega o mercado de compras coletivas, somente no Brasil há mais de duas mil empresas, esta situação obviamente não é sustentável. Eu não sei se tem espaço para 20. Neste setor específico você vê muita gente sem noção de como tocar um negócio achando vai ficar rico em um mês apenas por montar um site.
Por outro lado há um número maior de empresas com mais fundamento do que na época da primeira bolha. Naquela época era tudo potencial: Dizia-se "a internet vai ter dez milhões de usuários na banda larga", "30 milhões brasileiros comprando na internet". Eram previsões muito otimistas e só agora, dez anos depois, estamos chegando a estes números. Este cenário só se consolidou por agora. Você tem uma empresa como a Net Shoes, que fatura centena milhões de reais por ano, apenas vendendo artigos esportivos pela internet. Isso não era possível no ano 2000, mas agora, onze anos depois, isso é possível. No fundo a gente está vivendo uma nova bolha até certo ponto, mas, por outro lado, existem empresas viáveis, com fundamento surgindo no mercado.

BOLHA DAS REDES SOCIAIS
Acho que existe esta euforia de "ter muito dinheiro fácil no mercado", que caracteriza mais a bolha. Tem muita gente ganhando dinheiro hoje na internet. E estas empresas que têm números reais, sólidos, fluxo de caixa, vão estar menos vulneráveis a um processo de desvalorização. Em 2000, antes de estourar a primeira bolha, muita gente perdia dinheiro, então as empresas dependiam do mercado de capitais para conseguirem financiamento. Na hora em que houve o estouro e os financiadores recusaram-se a assinar outro cheque: quebrou quase todo mundo. Hoje você não depende tanto do mercado de ações para sustentar o negócio porque há um número maior de empresas dando dinheiro de verdade.

LIQUIDEZ DESENVOLVE MERCADO DE TECNOLOGIA
Isso normalmente acontece sim: quando você tem excesso de liquidez e muitos investidores procurando negócios para aplicar o capital mais empresas e ideais recebem investimento. Sejam ideias boas ou ruins, fica mais fácil o acesso ao capital. Tem muita ideia ruim que vai receber dinheiro, mas tem muito ideia boa, que, em um outro cenário não receberia investimento, mas neste momento vai ter acesso ao capital. Vai ter um avanço sim, não tenho dúvida.

MERCADO DE MÍDIA
Haverá uma transformação profunda nos próximos anos, sem dúvida, e as empresas de mídia vão ter que se adaptar.