"Superinteressante" lança documentário sobre a legalização da maconha medicinal

"Ilegal" estreou em 9 de outubro e foi dirigido pelo jornalista Tarso Araújo e pelo cineasta Raphael Erichsen.

Atualizado em 27/10/2014 às 16:10, por Lucas Carvalho*.

A revista Superinteressante estreou em outubro sua primeira produção cinematográfica. O filme “Ilegal”, dirigido pelo jornalista Tarso Araújo, acompanha a história de mães brasileiras que lutam na Justiça pelo direito de importar legalmente medicamentos para suas filhas. O debate fica por conta da matéria-prima desses remédios: cannabis sativa, a folha da maconha.
Crédito:Divulgação Denis Burgierman explica como reportagem se transformou em documentário
A brasiliense Katiele Bortoli Fischer é a personagem principal da história. Sua filha Anny, de apenas cinco anos, sofre de um tipo grave e incurável de epilepsia, que lhe causa repetidas convulsões numa frequência alarmante: a menina chegou a ter 80 crises em uma mesma semana.
Após diversas tentativas frustradas, a família encontrou o único tratamento que diminuía consideravelmente a quantidade de convulsões e permitia à menina desenvolver habilidades básicas de fala e locomoção. O problema é que o medicamento usado, o canabidiol (ou CBD), por derivar da cannabis, faz parte da lista de substâncias ilícitas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
A história de uma mãe que precisava importar ilegalmente – ou “traficar”, em suas próprias palavras – um medicamento à base de maconha figurou em uma edição especial da Super de fevereiro deste ano, voltada para o tema e editada por Tarso. Ao lado do jornalista, o diretor de redação da revista, Denis Burgierman, enxergou o potencial do assunto, que acabou se tornando um documentário em publicado no YouTube em março.
“Naquele momento a gente já soube que tínhamos um filme”, revela Denis. O longa-metragem “Ilegal”, que chegou aos cinemas de 20 cidades ao redor do Brasil em 9 de outubro, foi realizado em uma parceria da Super com a produtora 3FG, dirigido pro Tarso e pelo cineasta Raphael Erichsen.
De acordo com Denis, essa primeira experiência da Super no universo cinematográfico foi satisfatória. “Tem um monte de detalhes para ficar atento, mas estamos percebendo que a nossa marca funciona muito bem no cinema. Ela tem muito baixa rejeição, é uma marca muito querida e respeitada. Talvez não haja nenhuma outra marca no Brasil com tanta vocação para documentários”, diz.
A equipe editorial da Super tem planos para lançar ao menos um longa-metragem por ano a partir de 2015, mas novas ideias ainda estão em discussão. O foco, por enquanto, está todo em levar “Ilegal” para um público cada vez maior. O filme já é o documentário com maior número de exibições na estreia na história do cinema nacional.
De acordo com Denis, a marca Superinteressante “significa conhecimento” e, por esse motivo, transpor a barreira do conteúdo impresso é muito importante para o público, levando discussões e debates para diferentes mídias.
“Quando eu comecei a fazer isso, eu me considerava um ‘revisteiro’. A gente achava que tudo o que a gente fazia tinha que caber em papel grampeado. Para nós, esse mundo novo é muito mais interessante. Tem um monte de desafios, do ponto de vista da complexidade da operação, que aumentou muito, mas, para nós, é sensacional. [...] Eu vejo mais um monte de lugares onde a Super pode fazer sucesso”, completa.
Preconceito e política
Por se tratar de um tema ainda considerado “tabu” por boa parte da população, houve receio de que o filme não fosse bem recebido por distribuidores e exibidores parceiros. Porém, não foi o que aconteceu. “A marca mais abriu portas do que qualquer coisa, ajudou a dar credibilidade para o projeto. Mas a grande força do filme é o filme”, diz Denis.
Segundo o editor, o longa se preocupa em não “abrir demais a discussão”, procurando focar-se no tema central da legalização da maconha medicinal. O apelo da história de Katiele e outras mães pelo Brasil mobilizou parceiros que surgiram espontaneamente durante a produção do filme. “Nunca se sabe, talvez tenham havido conversas que a gente não teve por causa de preconceito. Mas, com todo mundo que a gente conversou, sentimos boa vontade com o projeto”, acrescenta.
Lançar o filme em período eleitoral não foi coincidência – a possibilidade de influenciar o debate foi levada em conta pelos realizadores. Mas nenhuma etapa da produção foi apressada ou protelada. Segundo Denis, o filme aconteceu “no seu tempo”. “A gente tinha urgência de contar logo essa história, porque essas crianças não podem ficar esperando”, afirma.
“Ilegal” está em cartaz na rede Cinépolis e no Espaço Itaú de Cinema de Belém (PA), Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Campo Grande (MS), Curitiba (PR), Florianópolis (SC), Fortaleza (CE), Manaus (AM), Natal (RN), João Pessoa (PB), Porto Alegre (RS), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA), São Luís (MA), São Paulo (SP), Santos (SP) e Sorocaba (SP).
Assista ao trailer do filme:

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves