Superando a educação bancária
Superando a educação bancária
O jornalismo é uma das carreiras mais concorridas nos principais vestibulares do país e, na carona neste "sucesso", cresce espantosamente o número de faculdades particulares que oferecem o curso. Em contrapartida, o número de vagas no mercado de trabalho não cresce na mesma velocidade, neste cenário, dar aulas nos cursos de comunicação já virou uma alternativa de trabalho para quem não consegue uma vaga no mercado tradicional ou quer complementar a renda.
Quando estive na coordenação de cursos de comunicação, nos anos de 2006 e 2007, me espantei inúmeras vezes com a quantidade de currículos de recém formados que recebia e, mais ainda me espantava a quantidade de professores, digamos, já veteranos que desconheciam completamente questões básicas da vida acadêmica, como planejamento de aulas, organização curricular, etc. O senso comum que via prevalecer nas conversas é que dar boas aulas em jornalismo é contar sua experiência com a profissão, eventualmente com o apoio de algum livro técnico, nada além disso.
É duro enfrentar, mas esta é uma realidade que precisamos questionar. É legítimo que os recém formados ou colegas de profissão vejam a sala de aula como uma alternativa de emprego e é assim, meio sem querer, que a maioria descobre sua vocação para o magistério. Mas também é necessário fortalecer a idéia que dar aula requer necessariamente uma preparação específica.
Em uma recente conversa com uma jovem professora relembrei a dimensão deste problema e percebi que o pior da falta de preparação não está no conteúdo, mas no distanciamento da dimensão humana da educação. Os jovens professores chegam com uma imagem pronta do que seria o "aluno ideal", àquele que não conversa e está ávido pelo conhecimento, e quando suas expectativas não se confirmam eles enfrentam dificuldades para lidar com a complexidade da sala de aula. No relato que ouvi desta amiga a indignação era com a falta de atenção e maturidade da turma e, claro, com sua própria frustração de não conseguir "passar" o conhecimento.
Esta é uma realidade que sem dúvida já incomodou muitos que assumem uma sala de aula e o senso comum é estigmatizar os alunos como despreparados. Afinal, o que aconteceu com àquele ideal de aluno pronto para absorver o conhecimento que o professor está pronto para transmitir? O fato é que este ideal de aluno só existe mesmo no plano das idéias e na prática as coisas são bem mais complexas. Primeiro que uma sala de aula antes de ser formada por alunos é formada por seres humanos, com problemas, falhas, traumas e dúvidas, comuns a todo ser humano, segundo que "transmitir conhecimento" está longe de ser um processo linear, simples e programado.
O educador Paulo Freire, em seu famoso trabalho Pedagogia do Oprimido, já questionava essa concepção bancária da educação em que o conhecimento é visto como um compartimento a ser depositado, sem questionamento, na cabeça do aluno. Educar, segundo o próprio Freire, é muito mais uma troca de concepções, de visão de mundo entre professor e aluno, é também o respeito sobre a própria história de vida do aluno e sobre o seu saber pregresso, é aceitar que o aluno também traz suas expectativas para a sala de aula e, portanto, seu comportamento e sua forma de aprender não podem ser generalizados.
Assim, a primeira tarefa de qualquer jornalista que se disponha a dar aulas é reconhecer que não possui o controle total do processo e, exatamente por isso, precisa de uma formação constante, buscando sempre novas respostas para problemas aparentemente iguais. O professor/jornalista deve superar a idéia que possui um saber pronto a ser "transmitido", deve questionar suas verdades absolutas, colocá-las em dúvida junto com sua história e seu conhecimento, mas acima de tudo deve estar aberto para aprender com os alunos muito mais do que possa querer ensiná-los.






