Suicídio de um estranho motivou o fotojornalista Tuca Vieira a escrever matérias além de fazer fotos

Suicídio de um estranho motivou o fotojornalista Tuca Vieira a escrever matérias além de fazer fotos

Atualizado em 04/09/2008 às 15:09, por Adriana Douglas / Redação Portal IMPRENSA.

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Formado em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (1998), o fotojornalista paulista Tuca Vieria, ex-discípulo de Nair Benedicto e Cláudio Feijó, se dedica, atualmente, quase que exclusivamente a projetos urbanísticos em São Paulo e no exterior. Aos 33 anos, registra passagem pelo Museu da Imagem e do Som e na agência N-Imagens e integra a equipe de fotografia do jornal Folha de S.Paulo desde 2002.

Tuca Vieira

Sua carreira como fotógrafo profissional começa em 1991, tratando de temas sempre relacionados à cidade e à paisagem urbana. Em março de 2007, durante uma caminhada pelas ruas de São Paulo à noite, voltando para casa, Tuca não imaginava que um estranho marcaria sua vida como pessoa e profissional. Ao passar pelo viaduto da avenida Dr. Arnaldo, viu um homem parado que, em questão de segundos, sentou no beiral da construção e anunciou seu suicídio. Na tentativa de persuadi-lo a não tomar tal atitude, o fotógrafo passou algum tempo conversando - com que em um monólogo - com o senhor até que o, então, inevitável acontecesse: o estranho se jogou do viaduto.

Na época, Tuca fazia alguns trabalhos para a revista Piauí e na ocasião do incidente, carragava sua inseparável câmera. "Preciso fazer alguma coisa. Pego a câmera e logo me reprimo. Fazer uma foto seria o ato mais insensível que alguém poderia ter. Mas por que diabos ando sempre com uma câmera?", escreveu ele no . "Pareceu uma obrigação. Eu fotografo tudo, não vou fotografar isso?", explica sua decisão em tirar fotos da vítima.

Tuca Vieira

Tuca, a princípio, não pensou em, de fato, publicar as fotos em algum lugar. Ao contar a história para sua amiga Daniela Pinheiro, repórter da revista, ouviu a sugestão de escrever a respeito. "Senti a necessidade de contar a minha história, que pode não ser tão trágica quanto a do rapaz que se matou, mas também o meu drama.", diz. E completa: "Andar de madrugada fotografando é uma coisa que eu sempre fiz. As coisas extraordinárias, para o bem ou para o mal, só acontecem a quem está exposto a isso. E eu estou sempre exposto à cidade e podem acontecer coisas assim", declarou à IMPRENSA.

Com grande repercussão, em maior parte com elogios, o fotógrafo acredita que o texto não é, em si, uma matéria jornalística, mas sim um relato pessoal daquilo que ele estava vendo e acredita que não rompeu com limites éticos da profissão. "A família dele depois me procurou e me agradeceram por tê-los ajudado a compreender o que aconteceu", conta.

Tuca Vieira

Mesmo com o episódio, Tuca reúne trabalhos que lhe deram grande prazer em realizar, como no caso da cobertura, para a Folha , da primeira viagem ao espaço do astronauta brasileiro Marcos Pontes. "Essa foi a pauta mais incrível que já fiz. Não pela qualidade da cobertura, porque foram poucos dias [quatro], mas pela oportunidade de estar lá". Como faz muitos projetos por conta própria, ele já foi a diversos países em busca de boas fotos, como Rússia e Argentina.

Tuca Vieira

Atualmente, está envolvido com o "Urbanate", que é "uma investigação sobre as metrópoles do mundo, sendo uma delas São Paulo". Com planos de passar uma temporada em Berlim, cerca de seis meses, Tuca pretende fotografar cidades, enviar matérias diretamente de lá e revelou que vai aproveitar a oportunidade para aprender alemão. "Vai ser uma espécie de período sabático em Berlim, vou sem compromisso".

Tuca Vieira

O fotojornalista contou, ainda, que depois da matéria sobre o suicídio, seus amigos o encorajaram a escrever mais. Ele concordou e pensa em, de fato, fazê-lo mais. "É uma coisa que eu tinha que exercitar mais", diz. "Eu não sei até que ponto essa história faz parte da minha vida profissional, porque é um fato tão delicado, tão humano. Com esse acontecimento, toda a minha experiência de vida e de fotógrafo foi colocada à prova. Eu raramente falo sobre isso", finaliza.