"Suborno" incentiva leitura e evita evasão escolar nos EUA

"Suborno" incentiva leitura e evita evasão escolar nos EUA

Atualizado em 12/05/2010 às 14:05, por Silvia Dutra.

O jornal " " noticiou que o senado do Colorado aprovou semana passada um projeto de lei que pretende gastar 1 milhão de dólares do orçamento estadual pagando para crianças das escolas primárias lerem livros fora da sala de aula. Pretendem pagar 2 dólares por livro lido.
Após aprovação no Senado, o projeto de lei foi enviado para apreciação do Congresso e esta semana um comitê de Educação propôs adiar a decisão. Não mataram o projeto, não o recusaram totalmente, apenas adiaram a decisão, que ainda pode vir a tornar-se lei.
O autor do projeto, o senador democrata Chris Romer, baseou-se numa controversa pesquisa feita pelo economista Roland Fryer, da Universidade de Harvard. Fryer utilizou estudantes de escolas em bairros de baixa renda (predominantemente negros e filhos de imigrantes) de quatro cidades americanas -- New York, Chicago, Washington e Dallas -- para testar se incentivos monetários influenciariam positivamente quatro aspectos da vida escolar: a leitura e a compreensão do que foi lido, a frequência às aulas, o aumento na média das notas, e um desempenho satisfatório nos testes de final de ano.
Ele descobriu que o grupo que recebeu dinheiro para ler livros mostrou maior aprendizado e desempenho geral melhor do que aqueles estudantes que receberam somente por frequentar a escola ou melhorar os pontos nas notas ou exames. O grupo melhor sucedido continuou a demonstrar boa performance escolar mesmo após o término da pesquisa e das recompensas financeiras.
Acredite se quiser, mas há vários programas similares à pesquisa de Fryer já sendo usados por pelo menos 12 estados americanos em escolas públicas. A escola Cesar Chaves, em Albuquerque, Novo México, recompensa com 300 dólares anuais aqueles alunos que não faltam às aulas. Em Santa Ana, na Califórnia, crianças que vão bem em testes de Matemática podem ganhar até 250 dólares anuais e em Baltimore, Maryland, um estudante que alcance uma boa nota nos testes finais recebe 110 dólares. Isso porque as escolas públicas são avaliadas pelo desempenho de seus alunos e disso depende a quantidade de dinheiro que cada estabelecimento receberá para o ano letivo seguinte. Então "pagam" aos alunos para que a escola também consiga receber dinheiro do Governo.
Os estudantes evidentemente adoram esses programas. Já pais, educadores e entidades da sociedade civil se perdem em discussões e encruzilhadas éticas sem chegar a nenhum consenso. Exatamente o que, imagino eu, deve ter causado o adiamento da discussão do projeto de lei pelos legisladores do Colorado. Alfie Kohn, autor do livro "Punished by Rewards" (Punido pelas Recompensas) diz que essa idéia de subornar crianças pobres para que elas estudem é uma forma de racismo.
Fryer rebate essa visão dizendo que famílias ricas costumam recompensar seus filhos pelo bom desempenho escolar e ninguém as acusa de estarem "subornando" os estudantes com jantares, viagens, festas ou carros novos. "Nós (se referindo ao sistema escolar americano) estamos em crise, já passamos da hora de ficar filosofando se isso é errado, se isso é suborno. Se isso também não funcionar estaremos discutindo sobre o nada".
Já educadores como Andres Alonso, do sistema escolar da cidade de Baltimore, diz que esses programas asseguram que aqueles estudantes em risco de abandonar a escola não o façam e assim consigam ao menos concluir o segundo grau e ter alguma chance no mercado de trabalho. Eu não gosto dessa idéia de jogar dinheiro nessa equação. Pra mim, parece sim suborno, pagar para crianças não faltarem às aulas, para lerem livros ou melhorarem as próprias notas. É como pagar para um filho tratar com educação e respeito as outras pessoas. Isso é o que se espera dele. Ou ainda fazer sua própria cama, recolher suas bagunças ou ajudar nos serviços domésticos. Se ele vive na casa e usufrui de seus confortos pode e deve contribuir com a manutenção, sem esperar recompensas.
Por outro lado, concordo parcialmente com os argumentos de Fryer e entendo o senso de urgência, de pânico mesmo de suas afirmações. Entretanto, penso que a premissa básica dessa estratégia que ele e outros defendem é que está errada.
Só recompensar financeiramente as crianças (ou seus pais, como no programa Bolsa Escola daí do Brasil) me parece que é como colocar compressas sobre ossos quebrados ou tentar conter uma hemorragia com esparadrapo: um arremedo de solução, um esforço tão inútil quanto enxugar um bloco de gelo. O problema é mais profundo, penso eu, e a solução também precisa ser. E foi isso que outro educador americano, Geoffrey Canada, também já se deu conta.
Canada abriu no Harlem - bairro pobre e negro de New York - a Academia Promessa (The Promise Academy) que paga para os estudantes frequentarem as aulas e se dedicarem aos estudos. Ele diz que prefere pagar para um estudante tirar boas notas e permanecer na escola do que anos mais tarde ter que gastar muito mais dinheiro público para sustentar o mesmo indivíduo em alguma penitenciária.
Só que Canada percebeu que só isso não mudaria o destino daquela comunidade e que simplesmente só frequentar a escola e tirar boas notas não garantem, necessariamente, um futuro melhor para ninguém. Então ele começou a prover serviços médicos e de assistência e promoção social para cerca de 10 mil crianças e seus pais, moradores numa área do Harlem que recebeu o nome de "Zona das Crianças". Ele percebeu que não conseguiria salvar as crianças sem antes salvar seus pais da própria ignorância.
Com um orçamento anual de 36 milhões de dólares -- um terço do dinheiro vem do governo e o restante de investidores e doações -- a Academia Promessa tem conseguido resultados animadores. Seus alunos apresentam desempenho similar ao de estudantes de bairros ricos em escolas particulares.
Dentre os projetos desenvolvidos pelo "Zona das Crianças" se destaca a "Universidade dos Bebês", um curso para adultos que ensina coisas elementares como bons hábitos de higiene e nutrição, assim como técnicas para disciplinar os filhos sem recorrer à violência. As famílias -- a grande maioria é de mães solteiras -- também são orientadas a prover estimulação que desenvolva o cérebro e o potencial de aprendizagem dos filhos e recebem a promessa de que, se permanecerem envolvidas no projeto, suas crianças frequentarão uma universidade no futuro.
O projeto de Canada não distribui apenas pagamento por boas notas e frequência, alimentação nutritiva, aulas de Karatê para instilar disciplina e perseverança além de serviços médicos e dentários. Isso são acessórios ao seu plano de reformular e desenvolver o Harlem. O foco principal do sonho de Geoffrey Canada é ensinar aos pais, e incutir neles e em suas crianças valores morais que reconheçam que está na Educação, e não no dinheiro, a verdadeira fonte de mudanças e de melhoramento de qualquer sociedade.