Somos lavadeira, frentista, padeiro

Somos lavadeira, frentista, padeiro

Atualizado em 03/10/2008 às 19:10, por Rodrigo Manzano.

No domingo, todos vamos às urnas. Desde pequeno, as eleições sempre provocaram uma espécie de fascínio transcendental em mim. Aos seis anos, participei de minha primeira votação, agregado à minha avó, naquelas antigas cabines eleitorais de madeira, com uma cortina azul marinho a proteger o sigilo do voto. Os mesários não se opuseram à minha participação precoce, fui eu mesmo quem anotou na ancestral cédula de papel as escolhas da Dona Carmem. Muitos anos se passaram e, eleição após eleição, ainda sinto o mesmo entusiasmo e a mesma ansiedade em me preparar, no dia da votação, para assumir o papel democrático. Pode ser um pouco ingênuo de minha parte - sou presa fácil das propagandas do Tribunal Superior Eleitoral, confesso - acreditar na ação individual do voto como processo de alta densidade política, mas nas democracias, o voto é a forma de expressão mais genuína. Desconfio que é eficiente porque silenciosa.

Essa paixão por eleições já me levou, inclusive, a trabalhar por anos a fio como mesário eleitoral, sem me queixar do domingo perdido e do despertador a gritar às seis horas da manhã. Naquelas ocasiões, percebia no rosto de alguns eleitores a solenidade do voto, um ritual intransferível de dignidade humana. As mulheres, muitas de condições sócio-econômicas precárias, vestiam-se com a melhor roupa, estavam maquiadas, as orelhas carregavam longos brincos de bijuteria, mas, no rosto, algo luminoso e verdadeiro transparecia. Muitos homens, especialmente os senhores de mais idade, iam com roupa de missa, vestidos em camisas que descansavam solenes no guarda-roupas à espera de um dia especial. Esses eleitores são a alma da democracia.

O que me intriga é, no entanto, a cobertura jornalística das eleições. Abundam os chavões "festa da democracia", "grande confraternização política", "dever cívico", "clima de tranqüilidade". Sobram as pautas repetidas: a urna eletrônica que viaja de barco, os políticos a votarem (em si mesmos), as pesquisas de boca de urna, os principais incidentes e os primeiros resultados. Imagino que deva ser difícil, de fato, encontrar novas abordagens para processos que se repetem sem muitas novidades, mas, por outro lado, ao se priorizarem essas pautas, o sentido democrático mais profundo das eleições é ignorado: não se trata apenas de ato - ir à urna e depositar o voto - mas de um processo de transformação da realidade a partir desse ato. A imprensa, de maneira geral, está longe de entender o caráter simbólico das eleições. É como disse certa vez o pintor Paul Klee, já citado nesse espaço: "pois bem, falta o povo". Sim, falta o povo. Não o povo na fila, a reclamar da demora; não o povo sem face. Falta o povo real, aquele que acredita profundamente no processo de transformação do mundo a partir de sua ação política.

Para nós, jornalistas, a eleição é um momento em que somos "apenas" mais um, quando nosso voto tem o mesmo valor do voto de nossos leitores. Na urna, nossa opinião não vale nada, as informações de coxia, o repertório partidário, nosso histórico político, nossos artigos inflamados, nossas conversas de bares e jantares, nossa argumentação: ali tudo se reduz a nós mesmos, a um grau de cidadania compartilhada. Ali, somos uma lavadeira, um frentista, um mendigo, um travesti, uma velha viúva, o dono da padaria. Na urna, somos ninguém e somos todos.