No domingo, todos vamos às urnas. Desde pequeno, as eleições sempre provocaram uma espécie de fascínio transcendental em mim. Aos seis anos, participei de minha primeira votação, agregado à minha avó, naquelas antigas cabines eleitorais de madeira, com uma cortina azul marinho a proteger o sigilo do voto. Os mesários não se opuseram à minha participação precoce, fui eu mesmo quem anotou na ancestral cédula de papel as escolhas da Dona Carmem. Muitos anos se passaram e, eleição após eleição, ainda sinto o mesmo entusiasmo e a mesma ansiedade em me preparar, no dia da votação, para assumir o papel democrático. Pode ser um pouco ingênuo de minha parte - sou presa fácil das propagandas do Tribunal Superior Eleitoral, confesso - acreditar na ação individual do voto como processo de alta densidade política, mas nas democracias, o voto é a forma de expressão mais genuína. Desconfio que é eficiente porque silenciosa.
Essa paixão por eleições já me levou, inclusive, a trabalhar por anos a fio como mesário eleitoral, sem me queixar do domingo perdido e do despertador a gritar às seis horas da manhã. Naquelas ocasiões, percebia no rosto de alguns eleitores a solenidade do voto, um ritual intransferível de dignidade humana. As mulheres, muitas de condições sócio-econômicas precárias, vestiam-se com a melhor roupa, estavam maquiadas, as orelhas carregavam longos brincos de bijuteria, mas, no rosto, algo luminoso e verdadeiro transparecia. Muitos homens, especialmente os senhores de mais idade, iam com roupa de missa, vestidos em camisas que descansavam solenes no guarda-roupas à espera de um dia especial. Esses eleitores são a alma da democracia.
O que me intriga é, no entanto, a cobertura jornalística das eleições. Abundam os chavões "festa da democracia", "grande confraternização política", "dever cívico", "clima de tranqüilidade". Sobram as pautas repetidas: a urna eletrônica que viaja de barco, os políticos a votarem (em si mesmos), as pesquisas de boca de urna, os principais incidentes e os primeiros resultados. Imagino que deva ser difícil, de fato, encontrar novas abordagens para processos que se repetem sem muitas novidades, mas, por outro lado, ao se priorizarem essas pautas, o sentido democrático mais profundo das eleições é ignorado: não se trata apenas de ato - ir à urna e depositar o voto - mas de um processo de transformação da realidade a partir desse ato. A imprensa, de maneira geral, está longe de entender o caráter simbólico das eleições. É como disse certa vez o pintor Paul Klee, já citado nesse espaço: "pois bem, falta o povo". Sim, falta o povo. Não o povo na fila, a reclamar da demora; não o povo sem face. Falta o povo real, aquele que acredita profundamente no processo de transformação do mundo a partir de sua ação política.
Para nós, jornalistas, a eleição é um momento em que somos "apenas" mais um, quando nosso voto tem o mesmo valor do voto de nossos leitores. Na urna, nossa opinião não vale nada, as informações de coxia, o repertório partidário, nosso histórico político, nossos artigos inflamados, nossas conversas de bares e jantares, nossa argumentação: ali tudo se reduz a nós mesmos, a um grau de cidadania compartilhada. Ali, somos uma lavadeira, um frentista, um mendigo, um travesti, uma velha viúva, o dono da padaria. Na urna, somos ninguém e somos todos.

Essa paixão por eleições já me levou, inclusive, a trabalhar por anos a fio como mesário eleitoral, sem me queixar do domingo perdido e do despertador a gritar às seis horas da manhã. Naquelas ocasiões, percebia no rosto de alguns eleitores a solenidade do voto, um ritual intransferível de dignidade humana. As mulheres, muitas de condições sócio-econômicas precárias, vestiam-se com a melhor roupa, estavam maquiadas, as orelhas carregavam longos brincos de bijuteria, mas, no rosto, algo luminoso e verdadeiro transparecia. Muitos homens, especialmente os senhores de mais idade, iam com roupa de missa, vestidos em camisas que descansavam solenes no guarda-roupas à espera de um dia especial. Esses eleitores são a alma da democracia.
O que me intriga é, no entanto, a cobertura jornalística das eleições. Abundam os chavões "festa da democracia", "grande confraternização política", "dever cívico", "clima de tranqüilidade". Sobram as pautas repetidas: a urna eletrônica que viaja de barco, os políticos a votarem (em si mesmos), as pesquisas de boca de urna, os principais incidentes e os primeiros resultados. Imagino que deva ser difícil, de fato, encontrar novas abordagens para processos que se repetem sem muitas novidades, mas, por outro lado, ao se priorizarem essas pautas, o sentido democrático mais profundo das eleições é ignorado: não se trata apenas de ato - ir à urna e depositar o voto - mas de um processo de transformação da realidade a partir desse ato. A imprensa, de maneira geral, está longe de entender o caráter simbólico das eleições. É como disse certa vez o pintor Paul Klee, já citado nesse espaço: "pois bem, falta o povo". Sim, falta o povo. Não o povo na fila, a reclamar da demora; não o povo sem face. Falta o povo real, aquele que acredita profundamente no processo de transformação do mundo a partir de sua ação política.
Para nós, jornalistas, a eleição é um momento em que somos "apenas" mais um, quando nosso voto tem o mesmo valor do voto de nossos leitores. Na urna, nossa opinião não vale nada, as informações de coxia, o repertório partidário, nosso histórico político, nossos artigos inflamados, nossas conversas de bares e jantares, nossa argumentação: ali tudo se reduz a nós mesmos, a um grau de cidadania compartilhada. Ali, somos uma lavadeira, um frentista, um mendigo, um travesti, uma velha viúva, o dono da padaria. Na urna, somos ninguém e somos todos.


