Sociedade deficiente / Por Lígia Bazotti - IMES (SP)

Sociedade deficiente / Por Lígia Bazotti - IMES (SP)

Atualizado em 06/10/2005 às 12:10, por Lígia Bazotti e  estudante de jornalismo da Universidade Imes - (São Caetano do Sul/SP).

Por As pessoas portadoras de deficiências têm direito à segurança econômica e social, e, especialmente, a um padrão condigno de vida. Conforme suas possibilidades, também têm direito de realizar trabalho produtivo e remuneração, bem como participar de organizações de classe. É isso que prevê o Artigo 7 da Declaração dos Direitos das Pessoas Portadoras de Deficiência - Resolução ONU No 2.542/75. Além do direito de realizar um trabalho, no dia 24 de julho de 1991, foi criada a Lei Federal no 8.213, art.93, que obriga as empresas com cem ou mais funcionários a preencher de dois a cinco por cento dos seus cargos com pessoas portadoras de deficiência. Inclusive, os portadores de deficiência têm direito a participar de concursos públicos. A Lei Federal no 8.112, de 11 de dezembro de 1990, art.5, reserva um percentual dos cargos e empregos públicos para as pessoas portadoras de deficiência e define os critérios para sua admissão.

Mas para muitas empresas isso deixa de ser uma obrigação, e passa a enxergar os deficientes como profissionais que podem ser competentes e muito talentosos. Todas empresas deveriam ter essa visão de que o deficiente pode ser muito eficiente.

A Febem (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor), possui 54 funcionários concursados portadores de deficiência física, auditiva e visual. O Programa de Qualidade de Vida, implantado na Fundação desde 2002, tem como objetivo promover a busca contínua do bem estar e da saúde do funcionário, de modo a estabelecer o equilíbrio entre a vida profissional e a realização pessoal. Dentro do programa existe uma atenção especial para os funcionários portadores de deficiência, e para isso foram realizados convênios e parcerias com escolas especiais.

Mozart Inocêncio Pereira, de 45 anos, trabalha na Febem desde 1981 e possui deficiência auditiva. Ele foi encaminhado para uma instituição especializada, onde faz aulas e possui acompanhamento médico adequado.

"Pretendemos trabalhar a saúde física, mental e social do funcionário. Conscientiza-lo a melhorar seu estilo de vida, procurando uma vida mais saudável", diz Leidiane Silva de Oliveira Chagas, do Departamento Pessoal da Febem.

Missão do RH
Renato Matos Petkevicius, de 27 anos, teve a oportunidade de ingressar em uma grande produtora. Porém, a empresa não possuía as adequações necessárias para manter um funcionário cadeirante, e sua experiência durou apenas uma semana. Atualmente, ele trabalha em casa como editor de vídeo e cursa o 3º ano do curso de Rádio e TV. Não basta querer contratar um funcionário portador de deficiência, a empresa precisa de adaptar às necessidades desse funcionário, facilitar o acesso aos objetos e instalações do local de trabalho, para que ele possa cumprir plenamente sua função.

"É muito importante verificar o espaço físico da empresa. Para um profissional cadeirante, por exemplo, é preciso ter um banheiro específico e rampas de acesso aos departamentos da empresa. Caso seja um portador de deficiência auditiva, é imprescindível que tenha uma pessoa especializada em linguagens de sinais. Todos os cuidados devem ser tomados para não prejudicar o funcionário", diz Lígia G. da Silva Cunha, selecionadora da Gelre.

A Gelre, uma das maiores agências de empregos do Brasil, há cinco anos seleciona portadores de deficiência física para as empresas cadastradas. No site há uma área destinada exclusivamente ao cadastro gratuito de currículos de deficientes. "Quando o cliente abre uma vaga para um profissional portador de deficiência, precisamos saber quais as atividades serão exercidas para podermos encaminhar o candidato ideal. Dependendo das funções selecionamos o deficiente físico, auditivo ou visual", completa Lígia.

O CIEE (Centro de Integração Empresa Escola) também seleciona estudantes universitários, do ensino médio e técnico. Em 1999 foi criado o Programa CIEE Portadores de Deficiência, que proporciona a colocação de jovens portadores de deficiência no mercado de trabalho como estagiários.

Responsabilidade Social
A Rede SACI (Solidariedade, Apoio, Comunicação e Informação) é um portal de comunicação entre entidades e pessoas portadoras de deficiência. Além disso, possui os CICs (Centro de Integração de Cidadania), locais de fácil acesso, abertos a portadores de deficiência, onde são ministrados cursos gratuitos de capacitação para o uso da internet e da informática. O portal de internet da Rede SACI disponibiliza links com notícias, artigos, boletins, agenda de eventos e cursos, sem falar no espaço para denuncias, lista de discussão e bate papo. E o mais importante, há um local no site reservado para a inclusão social dos portadores de deficienência no mercado de trabalho. Atualmente, existem aproximadamente 780 currículos cadastrados e 50 vagas em aberto.

Renato Laurenti é tetraplégico e colabora para a Rede SACI. Mais conhecido como repórter SACI, Renato relata as condições de acessibilidade física de locais públicos na cidade de São Paulo. E ainda, a Rede conta com a colaboração de voluntários que participam com depoimentos sobre os problemas enfrentados.

O trabalho de Renato Laurenti é importante para que a sociedade veja que muitas vezes o Ministério Público aplica leis que nem mesmo eles conseguem cumprir.