Sobre mortos e obituários

Sobre mortos e obituários

Atualizado em 27/01/2010 às 11:01, por Silvia Dutra.

Todos os dias, ao abrir minha conta de email, antes mesmo de ler as mensagens de parentes, amigos e aquelas relacionadas ao meu trabalho dou uma passada de olhos pelos spams capturados pelo antivírus e quase sempre encontro jóias no meio do lixo.

Hoje mesmo encontrei essa pérola: Legacy.com, uma empresa especializada em fornecer notas de falecimento para mais de 750 jornais nos Estados Unidos, Canadá, México, Austrália e vários países da Europa.

Os números são impressionantes: por mês o site é visitado por 14 milhões de usuários. Só nos Estados Unidos, a Legacy tem parceria com 124 dos 150 maiores e mais importantes jornais e produz obituários sobre dois terços de todos os que falecem no País. É um verdadeiro banco de dados sobre os mortos americanos, continuamente atualizado.

Fiquei curiosa. Resolvi pesquisar mais a fundo e descobri que o site ainda abriga Memorial, a primeira rede de "relacionamentos" digamos assim só sobre os mortos. Se você é um viciado em sites desse tipo pode morrer descansado, sabendo que sua estadia na eternidade será tão devassada pelo Memorial quanto sua privacidade foi em vida pelo Orkut, Facebook e similares.

Trata-se de um espaço online no qual familiares e amigos dos falecidos podem compartilhar fotos, vídeos e memórias, expressar condolências e sentimentos mútuos. Aqueles que visitam as páginas de Memorial sobre uma determinada pessoa podem assinar o Livro de Visitas e deixar mensagens e histórias sobre o finado. Se preferirem podem também seguir os links e deixar doações em dinheiro para entidades sociais nas quais o falecido tinha interesse, ou para hospitais e universidades engajadas em pesquisas sobre o câncer e outras doenças graves.

O site traz também artigos de psicólogos sobre as etapas do processo de luto, matérias de especialistas em etiqueta sobre como se comportar e o que dizer (e mais importante, não dizer) em velórios e enterros, especialmente daqueles cujos rituais funerários e religiosos não lhe são familiares.

Há ainda links para grupos que fornecem apoio emocional para viúvas, viúvos, pais que perdem filhos, filhos que perdem pais, familiares de suicidas ou pessoas mortas nas guerras do Iraque e do Afeganistão ou em grandes tragédias nacionais, como o furacão Katrina e os ataques terroristas de 11 de setembro. E evidentemente há propaganda sobre funerárias, crematórios, floriculturas, cestas de condolências -- com frutas e chocolates -- livros de auto-ajuda e outros tipos de itens e serviços que gravitam em torno da morte.

E como se não bastasse tanta exuberância criativa, o pessoal da Legacy.com ainda criou Obits, o primeiro serviço de informação de óbitos por email. Achei a idéia genial. Funciona assim: digamos que você more na Florida e tem um inimigo figadal vivendo no Alaska, ou em Sidney, na Austrália, algum lugar bem remoto e distante, como devem mesmo morar aqueles que não nos são caros.

Apesar de não ver seu inimigo há muitos anos de vez em quando você lembra do infeliz e, secretamente, espera que ele (ou ela) embarque para a viagem final antes que você. Ao se cadastrar no Obits da Legacy e apontar quem é seu alvo, pode retirar esse assunto da lista de preocupações, sabendo que receberá um email assim que o obituário sobre seu inimigo for publicado pelo jornal local lá do fim do mundo onde ele morava.

Para evitar falsas alegrias e comemorações precipitadas com a morte de homônimos você pode afunilar os instrumentos de busca, colocar não só o nome de seu inimigo, mas a profissão, nome da esposa, dos filhos, enfim, tudo aquilo que possibilite ao computador só lhe mandar informações comprovadas e confiáveis.

Durante minha pesquisa descobri coisas curiosas e um obituário engraçadíssimo que não resisto em compartilhar com vocês porque ele dá bem uma idéia da maneira pragmática com que os americanos lidam com todos os assuntos, incluindo a morte. Não tenho conhecimento de nada semelhante jamais ter sido publicado num jornal brasileiro. Posso estar enganada e se alguém já viu um obituário no Brasil que saia do lugar comum de listar só qualidades maravilhosas e feitos heróicos por favor fale agora, ou cale-se para sempre.

Publicado em agosto de 2008 no jornal Times Herald , que circula nas cidades de Napa e Sonoma, na California, o obituário é a respeito de uma senhora chamada Dolores Aguillar que foi uma praga durante 79 anos, a julgar pelo que foi escrito por um de seus filhos. Depois de listar todos os parentes que a precederam na morte e os que respiraram aliviados quando chegou a vez dela, o texto é um ensaio em concisão e brutal honestidade.

Reprodução
Obituário de Dolores Aguillar publicado

"Dolores não tinha hobbies, nunca contribuiu com a sociedade e raramente dava algo de bom aos outros, por palavras ou ações. Eu falo pela maioria da família, que a falta dela não será sentida, poucas lágrimas serão derramadas e poucos lamentarão sua morte. Lembraremos de Dolores mais pelas tristezas e problemas que ela nos trouxe ao longo dos anos. Eu realmente acredito que no final todos nós só sentiremos falta daquilo que nunca tivemos: uma mãe, avó e bisavó doce e gentil. Espero que agora finalmente ela tenha encontrado alguma paz. Pra aqueles que ficaram para trás vai finalmente começar um período de cicatrização das feridas e de aprendizagem do que realmente significa ser uma família de novo. Não haverá missa, nem preces e nem tampouco esqueceremos que ela viveu a vida dela tentando destruir toda a família. Então, em nome de todos, eu digo aqui: Adeus Mamãe".