Sobre a Veja: "Para o bem ou para o mal, é uma referência de jornalismo no país", diz professor

Nos últimos 50 anos, poucas revistas marcaram tanto a vida dos brasileiros como a semanal Veja, que em setembro de 2012, completa 44 anos da primeira edição.

Atualizado em 20/01/2012 às 17:01, por Jéssica Oliveira*.

revistas marcaram tanto a vida dos brasileiros como a semanal Veja , que em setembro de 2012, completa 44 anos da primeira edição. Abaixo, o Portal IMPRENSA traz, na íntegra, a entrevista com Renné Oliveira França, doutor em comunicação social pela UFMG e especialista na publicação. A entrevista fez parte do especial publicado na versão impressa, em comemoração aos 200 anos de revista no país.
IMPRENSA - Como surgiu a revista Veja ? Em linhas gerais, como era o projeto original e qual o contexto histórico?

França - A Veja surgiu como um projeto pessoal do Roberto Civita de montar uma revista “Time brasileira”, ou seja, uma revista semanal de informação nos moldes da revista americana em que o próprio Civita havia estagiado. O atual dono da Editora Abril quis fazer esta revista logo que retornou ao Brasil para trabalhar com o pai (Victor Civita), em 1958, mas a Veja só foi lançada dez anos depois. Apesar do sucesso da primeira edição em setembro de 1968, as vendas caíram vertiginosamente já na semana seguinte e a revista deu prejuízo atrás de prejuízo até 1974, quando finalmente começou a dar lucro graças à venda de assinaturas. Não era um período propício para o sucesso de uma revista de informação, já que o país passava por um governo militar que censurava fortemente o trabalho jornalístico: a revista foi lançada em setembro e em dezembro de 1968 foi decretado o AI-5.

IMPRENSA - Quais as maiores polêmicas da revista ao longo dos anos?

França - A Veja teve sempre uma postura liberal no sentido de se colocar a favor da liberdade de expressão e apresentando uma postura crítica ao governo, em uma espécie de constante estado de vigilância política. As polêmicas em que se envolveu estão ligadas a essa postura, especialmente em momentos de radicalização desta “liberdade de expressão”. Uma de suas primeiras polêmicas foi em 1969, quando lançou uma matéria de capa chamada “Torturas”, em que apresentava mais de 150 casos de tortura pelo regime militar no Brasil. A revista acabou sendo recolhida na banca pelos censores. Uma outra polêmica envolve a saída de Mino Carta da revista. Segundo Carta – um dos fundadores de Veja - a Abril precisava de um empréstimo da Caixa Econômica, que foi negado pelo presidente Geisel a não ser que a revista se livrasse do jornalista. Ainda hoje a saída de Carta é um assunto polêmico, com versões divergentes de cada um dos lados. A partir dos anos 90 a revista começou a polemizar utilizando uma linguagem jornalística mais ofensiva, que de “cutucadas” sarcásticas foi evoluindo para uma agressividade desmedida. Além disso, passou-se a cada vez mais a se definir as matérias antes dos fatos: de acordo com o Luís Nassif, na Veja há uma preparação prévia da reportagem (chamada de “pensata”) e cabe aos repórteres buscarem os fatos (ou depoimentos) que se encaixem naquilo que já estava pré-estabelecido. Isso deu origem às suas maiores polêmicas jornalísticas, especialmente aquelas envolvendo algumas denúncias contra lideranças políticas que muitas vezes se mostravam infundadas e também com relação a certos revisionismos históricos, como a reportagem de capa que propôs desmistificar a figura de Che Guevara.

IMPRENSA - Quais momentos mais marcantes da história da publicação?

França - Um dos momentos mais marcantes é sem dúvida a famosa entrevista de Pedro Collor que dá início a uma série de reportagens que culminaram com o fim do governo Collor. Uma outra edição marcante foi a capa com o cantor Cazuza, que trazia uma entrevista tratando assuntos que não eram tão falados na sociedade brasileira da época como Aids e homossexualidade.

IMPRENSA - Hoje, a revista é considerada como tendenciosa. Qual sua opinião sobre isso? Por que a revista assume este papel nos últimos 10, 15 anos?

França - A revista é claramente tendenciosa. O interessante que descobri na minha pesquisa de doutorado é que não se trata de algo recente: Veja sempre foi tendenciosa, desde sua criação. Nesse sentido, a revista mantém suas mesmas características. O que mudou foi a forma como ela apresenta suas tendências: hoje há um sensacionalismo maior, feito a partir de agressões muitas vezes gratuitas contra aqueles que são denunciados. Mas a revista sempre se colocou ao lado da classe média conservadora. O que acontece é que por ter lutado pela liberdade de expressão (que passava pela queda do regime militar) criou-se uma ideia de que a revista possuía uma postura esquerdista. Mas não, apesar do Mino Carta em seus primeiros anos, Veja sempre foi de direita. Liberal, mas de direita.

IMPRENSA - Na sua opinião, a Veja tenta mudar a opinião da sociedade?

França - A Veja tenta colocar seu olhar como um olhar próprio dos brasileiros. Em seus editoriais a revista se coloca como algo importante para os brasileiros e para a história do Brasil. Ela cria para si uma imagem de referência para os assuntos relativos ao Brasil e tenta deliberadamente mudar a opinião da sociedade. Mas apesar de querer isso e ser uma das revistas mais vendidas do mundo, a influência da Veja acaba sendo pequena (pensando na revista em si mesma, não levando em consideração a repercussão que uma reportagem sua pode ter em outros meios, como canais de televisão). Afinal, a revista tem uma media de 5 milhões de leitores (colocando-se uma média de 4 a 5 leitores para cada uma de suas mais de um milhão de edições vendidas semanalmente) , o que é muito em termos de impresso, mas pouco em termos de audiência televisiva, por exemplo.

IMPRENSA - Mesmo com tantas críticas, a revista ainda é campeã em vendas. A que se deve esse fato?

França - A Veja é uma instituição brasileira. Para o bem ou para o mal, é uma referência de jornalismo no país. Ler Veja ainda é sinônimo de se manter bem informado (apesar desse status estar caindo cada vez mais, graças tanto à internet quanto às críticas feitas ao estilo de jornalismo da revista). É importante lembrar também que esse sucesso de vendas se deve à assinatura. São leitores que assinam a revista há décadas, e permanecem fiéis a ela (muitas vezes até mesmo por costume, aquela revista já faz parte da vida cotidiana, já estão acostumados a folheá-la toda semana). Então você possui uma classe média antiga que já era leitora da revista e continua sendo somada a alguns membros de uma classe média emergente que vê a leitura de Veja como forma de status, se configurando como uma nova comunidade de leitores.

*Com supervisão de Pamela Forti .
Leia mais

-
-