"Só o meu marido pode me ver nua"

"Só o meu marido pode me ver nua"

Atualizado em 22/07/2010 às 16:07, por Silvia Dutra.

Essa é uma das mensagens disponíveis num novo produto que promete devolver aos americanos o direito à privacidade. Trata-se do Flying Pasties, inventado pela empresa do mesmo nome localizada em Las Vegas. Nada mais é que um conjunto de pedaços de borracha, nos formatos redondo e oval, com 2 milímetros de espessura, inventado para proteger a intimidade dos que viajam de avião. Apesar do nome não se trata de um adesivo, um tapa-sexo como os usados por carnavalescos, mas algo para ser colocado entre o corpo e as peças íntimas.

Reprodução
Anúncio Flying Pasties

Explico: até os ataques terroristas de 2001 a segurança nos aeroportos americanos era uma piada. Qualquer um tinha acesso aos portões de embarque. Eu mesma, muitas vezes, fui receber ou me despedir de amigos e familiares praticamente na porta do avião. Aconteceram casos de pessoas mal intencionadas cruzando o país de graça, aproveitando-se da segurança frouxa.

Tudo isso mudou depois do 11 de setembro, quando restringiram o acesso à área de embarque. Desde então, em qualquer tipo de voo, além de passarem a bagagem de mão pela esteira do raio X e os passageiros pelo detector de metais, ainda revistam bolsas, exigem a remoção de sapatos, checam saltos e solas, bengalas, muletas, cadeiras de rodas, é uma verdadeira obsessão. Com a qual eu concordo totalmente, apesar do desconforto e do tempo extra que é preciso reservar para passar por todos esses procedimentos de segurança.

Recentemente adicionaram ao arsenal scanners que verificam o corpo inteiro dos viajantes. O objetivo é prevenir que armas ou explosivos não metálicos -- ou escondidos no corpo -- possam provocar novas tragédias. Até o momento 32 aeroportos americanos utilizam essa tecnologia, que também é operada em Tóquio, Londres, Paris, Roma, Seoul, Amsterdan, Moscou e em algumas cidades do Canadá.

Embora as autoridades afirmem que o rosto da pessoa scanneada é desfocado e a atenção dos funcionários concentrada somente em descobrir armas, drogas ou ítens ilegais, críticos da tecnologia dizem que esses scanners mostram claramente detalhes da intimidade dos viajantes. E que isso é uma fonte de embaraço e stress para os passageiros, além de uma flagrante violação da privacidade.

Notícias recentes parecem confirmar essas críticas. Em maio deste ano um funcionário do Aeroporto Internacional de Miami, Rolando Negrin, atacou violentamente um companheiro de trabalho, Hugo Gorno, após aguentar durante meses provocações verbais e piadas sobre o tamanho de sua masculinidade. A nudez de Negrin tinha sido revelada aos outros funcionários durante uma sessão de treinamento para o uso do scanner de corpo inteiro. Suspenso do trabalho, preso e indiciado por agressão grave, Negrin espera o julgamento em liberdade porque pagou uma fiança de 7,5 mil dólares.

Grupos religiosos e entidades como a União Americana pelas Liberdades Civis - American Civil Liberties Union - condenam o uso desses scanners de corpo inteiro alegando que eles são uma intolerável invasão da privacidade dos cidadãos. Muitos também questionam se a quantidade de radiação emitida pode contribuir para o desenvolvimento de cânceres, apesar da poderosa FDA - Food and Drug Administration - garantir que o risco é insignificante.

Já comentei que a criatividade e o espírito empreendedor do povo americano é uma fonte inesgotável de surpresas para mim. Insone frequente, sou audiência cativa desses shows da madrugada, que vendem coisas pela televisão, e fico abismada com a quantidade de produtos que esse povo inventa para ganhar dinheiro. A maioria são bugigangas: meias de nylon que não desfiam, calcinhas que emagrecem, empinam o bumbum e ainda destroem as celulites, cremes e remédios milagrosos, extensores para cabides que prometem economizar espaço nos armários. Confesso que nesse último eu caí, e logo depois eles também caíram, não funcionam. Há ainda cortadores específicos para ovos cozidos ou tomates, panelas e forninhos maravilhosos que não se sujam e em minutos preparam salgados e sobremesas; produtos de limpeza e eletrodomésticos inteligentes, chinelos que aquecem os pés e ao mesmo tempo lustram o chão, cascas artificiais para não deixar a banana oxidar e outras maluquices e supérfluos do mesmo gênero.

Mas espere... agora descubro mais essa invenção interessante. Que não chega a ser uma bugiganga mas revela, além da criatividade e do mercantilismo, outros fortes traços da identidade americana, como o puritanismo, a obsessão pela privacidade e as liberdades civis. Isso num país que só perde para a África do Sul nas estatísticas sobre violências sexuais. E que consome e produz muita pornografia. Há um show desse tipo feito num ônibus que passeia a luz do dia pelas ruas de Miami. Nojento, degradante, uma agressão à dignidade humana, mas completamente dentro da lei. E, com certeza, pagador de impostos.

Mas espere... a empresa de Las Vegas produz modelos para os homens -- Só minha esposa pode me ver nu --, mulheres, heteros e homossexuais e aqueles aparentemente sem vida sexual, comprometidos somente com a causa pacifista. Os preços variam entre 17 e 30 dólares, mas pelo jeito o tamanho é único, one size fits all.

Mas espere... como não poderia deixar de ser a companhia ainda disponibiliza a personalização do produto. As possibilidades são infinitas. Interessados podem mandar imprimir nos Flying Pasties propaganda de suas empresas, blogs ou websites. Ou ainda suas preferências políticas, crenças religiosas, o rosto de suas celebridades favoritas, números de telefones, convites, e o que mais quiserem divulgar para o mundo. Ou no caso, os operadores de scanners. Sugestões de design criativos também são aceitas através do site . Pagamentos somente pelo sistema Paypal, sem trocadilhos. Satisfação garantida.

Mas espere... que semana que vem tem mais!