SJCE - Jornais querem tratar jornalistas a pão e água

SJCE - Jornais querem tratar jornalistas a pão e água

Atualizado em 20/09/2005 às 08:09, por Por: Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Ceará.

Tentativa de tratar jornalistas a pão e água, de pôr de lado o respeito à vida de profissionais. Miséria mental de parte do patronato. Proposta retrógrada, aviltante e repulsiva. Estrangulamento para a atividade jornalística. Essas são definições dadas por profissionais de comunicação, influentes no meio jornalístico, sobre o posicionamento das empresas de jornal e revista na campanha salarial 2005/2006.

Entre as manifestações de espanto, revolta e indignação diante das propostas e recusas patronais, eles conclamam a categoria a se mobilizar. Confira as reivindicações dos jornalistas e as contrapropostas das empresas e depois veja a repercussão com Adísia Sá, Gilmar de Carvalho, Ivonete Maia, Nilton Almeida, Agostinho Gósson, Blanchard Girão e Cid Carvalho.

Depois de seis rodadas de negociação da campanha salarial 2005/2006, as empresas oferecem 4,26% de reajuste salarial, o que aumenta o piso de R$ 1.000 para apenas R$ 1.042,60. A proposta inicial era de 2,43%, que depois foi elevada para 3,78%. Os jornalistas defendiam inicialmente 12% de reajuste, mas já ofereceram uma segunda proposta de 11,84%.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará (Sindjorce) reivindica ainda para a categoria vale-refeição, quinqüênio, participação nos lucros das empresas e adicional para repórteres no desempenho eventual da função de editor. Além de não aceitarem tais reivindicações, os representantes patronais tentam modificar ou anular cláusulas que beneficiam os jornalistas, algumas inclusive asseguradas há décadas na Convenção Coletiva de Trabalho.

Os patrões querem reduzir o valor do seguro para cobrir acidentes de trabalho que causem morte ou invalidez do jornalista, pretendem diminuir a complementação do benefício previdenciário para quem tem menos de um ano de empresa, insistem em mexer pelo segundo ano consecutivo nas diárias de viagem, além de tentarem alterar a estabilidade pré-aposentadoria e extinguir as cláusulas da matéria paga, da contratação de free lancers, da refeição no horário extraordinário e da estabilidade dos jornalistas durante a campanha salarial.

As empresas pretendem ainda deixar de remunerar os jornalistas nos dias em que estiverem participando de eventos ou ausentes da redação sob designação do sindicato, e também não querem mais pagar o salário dos dirigentes sindicais liberados para o exercício do mandato.

A REPERCUSSÃO
"Lendo a contraproposta dos jornalistas ao patronato, não posso deixar de louvar a ação incisiva de nosso Sindicato na luta pelos direitos - muitos deles históricos - da categoria. Esta é uma luta que não comporta frouxidão, contemporização. Peleja marcada por firmeza, sem intransigência; coragem, sem provocações; seriedade, sem caturrice. A prova do que digo está no texto que circula entre nós: há recuos estratégicos, ou seja, abre-se mão de itens em conquista de outros, infelizmente ainda não sancionados pelo empresariado. Esta intransigência do patronato é marca registrada dos que teimam em aceitar e reconhecer e respeitar o trabalhador e a sua face visível - o Sindicato. Custa-me crer que empresas que apregoam Responsabilidade Social ponham de lado o respeito à vida de seus profissionais, como é o caso da redução do seguro para cobrir acidentes de trabalho que resultem em morte ou invalidez do jornalista. Revolta-me a tentativa do patronato em diminuir as diárias de viagem... Cada jornalista leia o texto sobre a campanha salarial, medite sobre ele e veja quem está de seu lado, quem o representa e se expõe em sua defesa. Todo poder ao Sindicato", ADÍSIA SÁ, jornalista, professora aposentada do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará, ombudsman emérita do O POVO, militante sindical e ex-conselheira da Fenaj

"Os jornalistas merecem ganhar proporcionalmente à importância do papel que desempenham no contexto social. O aviltamento salarial se agrava por conta da capilaridade das empresas jornalísticas, que mantêm relações com o mercado anunciante, ligações perigosas e promíscuas (algumas vezes) com os governos e ainda promovem quermesses e festivais caça-níqueis. Por tudo isso, merecemos um salário digno e merecemos RESPEITO, como diz a palavra de ordem de nosso Sindicato", GILMAR DE CARVALHO, jornalista, advogado, escritor e professor do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará

"As empresas jornalísticas se consolidam a partir da credibilidade que conquistam junto ao público - aos anunciantes, aos assinantes, às pessoas que compram os jornais nas bancas... E quem edifica, constrói essa credibilidade são os jornalistas profissionais, que estão dando sua força de trabalho, exercitando seu talento nas Redações. Como podem as empresas, que têm como capital simbólico a credibilidade, querer retirar cláusulas já conquistadas na Convenção Coletiva de Trabalho, oferecer contrapropostas nada estimulantes? Em que patamar colocam essa credibilidade construída pelos jornalistas no dia-a-dia das Redações? O prestígio que as empresas usufruem no meio social é construído pelos jornalistas, mas elas querem tratar esses mesmos jornalistas a pão e água, querem dar o mínimo do mínimo",IVONETE MAIA, jornalista, professora aposentada do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará e ex-presidente do Sindjorce

"O resultado de uma negociação salarial traduz, de forma inevitável, a correlação de forças entre as partes que sentam à mesa. Isso parece elementar demais, mas o certo é que nem sempre os jornalistas, considerando-se representados por uma "diretoria eleita para resolver nossos problemas", estão atentos para esta realidade. Lembro aqui a lição que extraí dos textos de Nelson Traquina, um autor português hoje muito estudado nos cursos de Comunicação do País. Segundo ele, somente uma sociedade organizada é capaz de deter os abusos de uma imprensa que invade a privacidade do cidadão ou as extravagâncias de uma imprensa sensacionalista; somente uma sociedade organizada é capaz de cobrar as informações de uma imprensa omissa. Acrescento que uma imprensa responsável só é possível com ética e jornalistas bem pagos. Ora, do ponto de vista da corporação, o raciocínio deve ser o mesmo: sem organização, não há conquistas, na há avanços. Em suma, a responsabilidade recai em cada um. Portanto, a responsabilidade é de todos. Quando predomina a apatia, independentemente das razões, cria-se o cenário perfeito para um quadro injusto que elimina direitos já garantidos há décadas. Na atual conjuntura, à demonstração de força, de um lado, torna-se necessário romper com a indiferença", NILTON ALMEIDA, jornalista, ex-presidente do Sindjorce, ex-secretário da Cultura do Estado

"Assim como são históricas as reivindicações dos jornalistas, também é histórica a cegueira patronal quanto à necessidade de estabelecer políticas trabalhistas e salariais mais avançadas. A manutenção do piso salarial em níveis de miséria não tem outro significado que o de exprimir a miséria mental da maior parte do patronato. A tentativa de reverter cláusulas históricas, como as diárias de viagem, a liberação remunerada de diretores para o exercício da atividade sindical, impondo cada vez mais restrições a direitos adquiridos ao longo de negociações passadas, revela apenas a insensibilidade que, mais que retrógrada, é aviltante e repulsiva",AGOSTINHO GÓSSON, jornalista, diretor da Rádio Universitária, professor do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará, integrante da Comissão de Ética do Sindjorce e ex-presidente do Sindjorce

"Não se faz jornal só com maquinário moderno. Pode colocar o instrumental mais moderno do mundo. O jornal é feito por homens, talentos. Se remunerar mal, cai a qualidade e a credibilidade também. Do revisor ao editorialista, todos são peças fundamentais. À medida que o jornal melhorar as condições salariais, terá melhor produto e maior aceitação do público. Um jornal não é uma empresa comercial qualquer, que se preocupa só com compra e venda, é um produto da mais alta significância para todos os segmentos da sociedade". BLANCHARD GIRÃO, jornalista, assessor de Comunicação Social do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), articulista do O POVO e ex-presidente do Sindjorce

"Questão salarial é um estrangulamento para a atividade profissional. Assim, seria de bom alvitre que as empresas se sensibilizassem diante da verdadeira situação econômica do País, plenamente cruel para o assalariado",CID CARVALHO, jornalista, radialista, advogado e ex-senador.