Site destinado à disseminação da cultura indígena é lançado no Brasil

Site destinado à disseminação da cultura indígena é lançado no Brasil

Atualizado em 22/04/2008 às 12:04, por Ana Luiza Moulatlet/Redação Portal IMPRENSA.

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"500 anos do descobrimento do Brasil para nós são, de fato, 500 anos de invasão e de extermínio, não temos nada para comemorar". Antônio Carlos Ferreira Banavita ficou remoendo dentro de si o eco dessas palavras, ditas a ele por um jovem índio enquanto gravava um ritual da tribo boróro.

Antônio Carlos Banavita
Criança Boróro

Percebeu, com isso, o desconhecimento total das pessoas em relação aos povos indígenas: "A maioria não têm a menor idéia do que seja um índio. A gente vê o índio genérico; todo mundo acha que índio é uma coisa só, que fala a mesma língua, e isso se aprende na escola. A idéia que temos é do índigena folclorizado, americano".

Ficou encravada em Banavita a vontade e, mais do que isso, a necessidade de fazer algo para mudar essa percepção, compartilhada por grande parte da sociedade. "Eu tinha um sonho de fazer alguma coisa nesse sentido, fazer com que as pessoas pelo menos saibam quem são os índios. Essa é a coisa mais importante; se vão gostar ou não é outra coisa. Mas não posso conceber que alguém não goste do índio sem saber absolutamente nada sobre ele".

Antônio Carlos Banavita
Amamentação

Assim nasceu o site Olhar Indígena, "parcialíssimo, já que publicações com informações ruins sobre os povos indígenas os outros lugares já estão cheios", como conta Banavita em entrevista ao Portal IMPRENSA.

Portal IMPRENSA - Por que o senhor se interessou por isso? De onde vem essa paixão?
Antônio Carlos Ferreira Banavita -
Eu faço isso há muitos anos, venho gravando. Mas nunca fiz nada, sempre achei que um dia precisava fazer uma coisa com isso. E mais até com a responsabilidade sobre esses povos, que a gente vê o desconhecimento total das pessoas, não têm a menor idéia do que seja um índio.

Quando tinha sete anos fui uma vez em Rondonópolis, onde tinha o boróros, e eles andavam pela rua, discriminados como sempre. E uma vez chegaram uns americanos lá, e queriam ir na aldeia, e fui junto com meu pai. E aquilo me deixou sem entender direito, sempre tive curiosidade, mas nunca fiz nada tão próximo.

Em 88, mais ou menos, foi quando comecei a fazer algum trabalho, que fui gravar uma festa com o bacairis, uma festa que eles estavam há vinte anos em fazer, estavam retomando a cultura. E eu gosto de fotografia, faço foto por hobby, minha área é vídeo.

Antônio Carlos Banavita
Índios Paresi

Em 97 fiz um documentário sobre um projeto de educação indígena voltado para treinar professores índios para darem aula na aldeia. E depois fui criando uma relação com eles, sempre quem tem uma festa eles mandam me comunicar, querem que eu vá gravar. E depois que você começa a conviver, começa a perceber como eles têm sabedoria, inteligência, como é absurdo as coisas que falam sobre os índios. Uma coisa que acho empolgante na comunicação é a possibilidade de mudar as coisas. Eu tinha um sonho de fazer alguma coisa nesse sentido, mudar, fazer com que as pessoas pelo menos saibam. Porque a gente vê o índio genérico. Todo mundo acha que o índio é uma coisa só, fala a mesma língua, e isso a gente aprendeu na escola. A idéia que a gente tem do índio é do índio folclorizado americano. Mato Grosso, por exemplo, tem 38 nações diferentes, em áreas diferentes, línguas diferentes, inclusive estágios diferentes de evolução. Uns só colhem, outros já plantam, outros já têm cerâmica.

IMPRENSA - E de onde veio a idéia do site?
Banavita -
E eu tinha vontade de mudar isso, e resolvi fazer um site, chamado "Olhar Indígena" ( ). Estreou no último sábado, 19 de abril, Dia do Índio). E vou começar a colocar essas curiosidades. Mostrar que existem povos difrentes, mostrar a visão do índio. Esse site vai ser parcialíssimo, ali não tem nenhuma notícia ruim sobre o índio. Coisa ruim vai ser publicada em outros lugares, que já está cheio.

A minha idéia é mostrar um pouco o índio na sua forma original, que é para as pessoas entenderem como é o índio. Eu vou pesquisar também sobre isso, não tenho esse conhecimento. Tenho muito material, vou pegar pessoas comprometidas com essa causa, e começar a colocar pesquisas. Não vou falar nada ruim de índios, a idéia do site não é confrontar com nenhuma força contrária, não tem musculatura pra isso, a proposta é pequena, é mostrar pra quem se interessar. Depois vai ter uma função social, que é tanto pro lado do índio quanto pra nossa sociedade, porque as pessoas não têm idéia. Eu viajei pela América do Sul, e não é só no Brasil que tem índio, Bolívia, Peru, o que tem de índio por essa América do Sul.

Antônio Carlos Banavita

Eu viajei no ano passado por uma rota Pantanal-Pacífico. Quem sabe eu também consigo divulgar isso também, tenho muito material. E a IMPRENSA é importante porque o público dela, os veículos de comunicação podem ver essa coisa de uma forma diferente e começar a fazer matérias cobre isso, mudar essa história. Essa é a coisa mais importante; se vai gostar ou não é outra coisa. Mas não posso conceber que alguém não goste do índio sem saber absolutamente nada. Precisa conhecer.

IMPRENSA - Como o senhor pretende manter o site? Já buscou alguma parceria?
Banavita -
Não, e não quero nada que vá comprometer a proposta. Quero patrocínio de alguém com compromisso, que tenha identificação. Até hoje fiz tudo com recurso próprio. Tenho muitas imagens, muito material. Tenho, por exemplo, uma entrevista com o último falante da língua mutina, acabou, ninguém mais fala. Hoje, estão tentando resgatar a história, mas quando souberam do material, ficaram loucos. Precisamos ter o registro da cultura indígena até para estudo.

IMPRENSA - Qual foi a coisa mais marcante que o senhor já viu, que mais o emocionou?
Banavita -
Quando teve a comemoração dos 500 anos, e eu estava gravando material sobre um rito de passagem da adolescência para a vida adulta, de furação na orelha, e perguntei pra um menino da tribo xavante o que significava pra ele de fato os 500 anos de descobrimento. E ele falou: "500 anos para nós são de fato 500 anos de invasão e de extermínio, não temos nada para comemorar". E aí acabei abrindo o documentário com isso, eu coloquei uma bandeira do Brasil tremulando e falei: "neste século XXI o Brasil comemora festivamente os 500 anos do seu descobrimento". Aí entra o menino falando: "500 anos para nós não significa nada". Passa todo o documentário, e no final aparece a bandeira tremulando e de novo: "O Brasil comemora festivamente...", só pra fazer um contraponto com a história. E é isso que eu quero mostrar, curiosidades. Funeral boróro, por exemplo, demora de 45 a 65 dias. É a cultura mais complexa e emocionante.

Antônio Carlos Banavita
Luta de raiz Oió

Tem uma coisa interessante, a gente tem um conceito de democracia, que é o respeito à maioria. Na aldeia, os velhos se reúnem, discutem, vão para casa e contam para a família. Quem ouvir aquilo vai assimilar na medida que cabe pra ele. É uma maneira que eles encontram de ensinar de uma forma indireta. Outra coisa: lá chique é ser velho, o que uma pessoa mais velha fala, ninguém discute. Lá, se a maioria decide que uma cosia é certa, mesmo assim se você quiser, pode fazer o que quer. Porque eles acreditam que existe a possibilidade de só o que você acredita estar certo e todo o resto estar errado. Eu te ajudo, te dou opinião, e você faz se quiser. É isso que quero mostrar, as peculiaridades.

Para acessar o site, .