Síndrome de Klark Kent / Por Carolina Lopes - Universidade Mackenzie

Síndrome de Klark Kent / Por Carolina Lopes - Universidade Mackenzie

Atualizado em 03/06/2005 às 12:06, por Carolina Lopes e  estudante de jornalismo da Universidade Mackenzie.

Por Primeira dica: ele observa tudo. Persegue celebridades e autoridades. Esconde sua identidade. Tem modernos aparelhos de espionagem e desvenda casos dificílimos. Não. Ele não é Sherlock Holmes, o detetive mais conhecido do ocidente, tampouco é detetive; mas tem faro. Segunda dica: ele é mais conhecido morto do que vivo. Não de novo. Ele não é nem o grande Van Gogh, nem artista algum; mas adoraria ser. Terceira dica: o cinema desdobrou sua profissão na identidade secreta do super herói mais conhecido do mundo. Agora ficou fácil. Quem é ele? Parafraseando Fabiana Amaral, do site Canal da Imprensa, ele é o Jor, jornalista! Mais especificamente, investigativo.

A brincadeira não é à toa. Jornalismo de profundidade requer sim um toque de criatividade e muito de faro. Na maioria das vezes mexe com "peixe grande". As pessoas tendem a ver como ato de super herói. A profissão torna-se glamourizada. O profissional, se não se cuidar, torna-se, arriscadamente (para sua própria profissão), um exemplo clássico de Narciso. Mas a realidade é outra. No Brasil da corrupção, da bandidagem e do submundo do tráfico, assunto é o que não falta para o curioso jornalista, que não chega ao âmago de obscuras realidades sem um bom repertório de fontes, muito jogo de cintura e alguns artifícios (propina e trocas de favores). Nas palavras de Cláudio Tognolli, repórter investigativo de vasta bagagem, a prática é "falta de ética, falta de ética, falta de ética e falta de ética", fazendo mais uma explanação da prática do que uma defesa das ilegalidades.

É uma busca frenética, quando não cega, pelo "furo". O profissional não quer, o veículo que o suporta não pode, perder o "furo". Como disseram em uma comunidade de jornalismo investigativo do Orkut: é a síndrome de Clark Kent. Ganha o "prêmio" quem chegar com a notícia mais bombástica ou de "primeira mão". Pode se referir à grandes personalidades, corporações, chefes de estado, voluptuosas quantias de dinheiro ou ilegalidades de quaisquer espécies. Mas o próprio Tognolli, que se diz insatisfeito se deixar de colocar periodicamente um furo na mídia avalia: "por melhor e maior que seja, não dura mais que três semanas na mídia". Ou seja, a carne fresca do jornalismo, além de bombástica, é volátil. Outra face dessa realidade é a relação a que fica submetido o repórter. Ao mesmo tempo amado e odiado, torna-se muitas vezes alvo de sua própria investigação, se esta for uma ameaça a qualquer facção de peso. E, para os que extrapolarem os limites da profissão (que são sempre muito tênues), paga com a própria vida.

Há três anos aconteceu com um profissional da Rede Globo. O caso do jornalista Tim Lopes, pego numa investigação sobre abuso de menores e tráfico de drogas num baile Funk do Rio e assassinado de forma brutal tornou-se emblemático. A morte de profissionais não é tão comum, mas existe. Tanto que há levantamentos para os casos. Em um deles, feito pela ONG internacional Repórter Sem Fronteira, em 2004 foram registrados 53 jornalistas mortos no exercício da profissão. Embora a reportagem de investigação seja altamente valorizada culturalmente, não há reflexo financeiro na área. Dificilmente o jornalista tem as condições necessárias, como por exemplo ser mantido como repórter especial. Ou seja, não ter pautas fixas e ter a liberdade de buscar as próprias pautas. Para os que não estão dentro dessa ínfima minoria, na tentativa de sair da rotina da pauta, os profissionais, que já tem extensas jornadas de trabalho, acabam trabalhando por fora, o que dificulta muito a execução de trabalhos de qualidade.

Por questões de ordem econômica, o jornalismo investigativo exercido no Brasil ainda tem um caráter artesanal. Quando não há uma desvirtuação da modalidade em si, como acontece com programas como o Aqui Agora, o Brasil Urgente e o Cidade Alerta, que fazem apoteose do espetáculo e dizem estar fazendo reportagem de investigação. Ou mesmo a maioria do material veiculado nos veículos impressos acostumados a somente reproduzir documentos, sem um mínimo de pesquisa e contextualização. "Documento é ponto de partida, não de chegada" defende o experiente Tognolli, que exemplifica o caso do livro Rota 66, de Caco Barcelos. O também repórter da Globo partiu de documentos da Polícia Federal para fazer um densa relato do "esquadrão da morte oficial".

Um país que talvez possa ser tomado como referência da prática pelas condições que encontra é os EUA. O resultado da combinação de uma avançada legislação de direito de acesso à informação pública e investimentos no setor, são repórteres e reportagens que altíssima qualidade. No Brasil, além da conhecida dificuldade de acesso à documentação pública, há uma constante preocupação com os processos movidos contra os profissionais, que giram um montante de nada menos que 80 milhões anuais, pagos pelos meios de comunicação.

Outra particularidade do país norte-americano é a criação de um jornalismo mais solto, mais ousado, conhecido como New Jornalism, ou, o jornalismo Gonzo. A prática busca tirar a máscara do frio jornalismo burocrático e adepto do discurso da imparcialidade ao colocar o repórter como sujeito, que presencia o fato ao cobri-lo e portanto passível de emoções. Uma iniciativa que nasceu há três anos na contramão da tendência reducionista a que o jornalismo brasileiro tem sido submetido é a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI). A Associação, criada e mantida por um grupo de jornalistas brasileiros interessados em trocar experiências, informações e dicas sobre reportagem, segue a linha do norte-americano IRE (Investigative Reporters & Editors) e do mexicano Centro de Periodismo de Investigación. Buscando difundir o jornalismo de profundidade, a Associação organiza congressos, seminários, oficinas especializadas, promove livros sobre o assunto e é um espaço de trocas de experiências.