Serginho Groisman contemporiza: "Ainda existem resquícios de censura no Brasil"

Serginho Groisman contemporiza: "Ainda existem resquícios de censura no Brasil"

Atualizado em 18/05/2005 às 12:05, por Thaís Naldoni - thaisnaldoni@portalimprensa.com.br.

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Fotos: TV Globo - Zé Paulo Cardeal

Ele poderia ter sido advogado, cineasta, mas acabou cursando jornalismo. De tão fraco o curso, depois de formado voltou à faculdade como professor, com uma proposta diferenciada. "Em princípio todos passavam. A responsabilidade de estudar ou não deve ser do aluno", argumenta Serginho Groisman, apresentador dos programas "Altas Horas" e "Ação", na TV Globo e "Tempo de Escola", no Futura.

Na TV Globo desde 1999, Serginho amargou por algum tempo a geladeira, por falta de espaço na grade da emissora. A proposta de um horário alternativo acabou motivando a direção da TV, mas inviabilizando o projeto do programa ao vivo. O "Altas Horas" é gravado às quintas e exibido aos sábados.

Com passagens pela TV Gazeta, TV Cultura e SBT, Serginho recebeu a reportagem de IMPRENSA em sua sala na TV Globo e falou, entre outros assuntos, sobre a imprensa e a juventude brasileira, a censura no Brasil, a proliferação das revistas de fofoca e a importância da educação. Acompanhe.

IMPRENSA - No mês passado duas decisões da Justiça de Goiânia agitaram a imprensa brasileira: a prisão de Jorge Kajuru e a apreensão do livro do Fernando Morais. Como você avalia estes casos?
Serginho -
Eu acho que nós temos uma real liberdade de imprensa relativamente nova, se a gente pensar que nos anos 70, há trinta anos, nós tínhamos uma censura absolutamente controlada. Eu acho, em princípio, que nós temos uma imprensa livre. Mas existem particularidades, especificidades que emperram esse processo.
Eu acho que, assim como a imprensa é livre, ela também precisa ser responsável, as duas coisas. Se qualquer leitor, espectador ou até o próprio Estado se sentir ferido através da imprensa, ele tem os meios a recorrer. Mas existe um limite muito fino entre essa questão das pessoas se sentirem atingidas e essa liberdade de imprensa. Creio que existam resquícios de censura, de má interpretação do que seja a liberdade de imprensa e, às vezes, isso menos, de irresponsabilidade jornalística.

IMPRENSA - Como você avalia a imprensa brasileira? Acredita que seja clara, informativa, imparcial...
Serginho -
A imprensa brasileira é um reflexo um pouco do resto das nossas atividades ou de nossos comportamentos. Nós temos uma TV que deve muito, eu acho, mas também tem coisas boas. Acho que nós temos um avanço político que é um pouco melhor do que já foi, mas que ainda deve muito.
Com relação à imprensa, acho muito difícil a gente caracterizar a imprensa brasileira. Fazendo uma analogia, quando eu escuto a questão do adolescente, por exemplo, de pessoas que querem saber como vai o jovem hoje. Eu pergunto: como você pode querer de uma maneira geral o jovem brasileiro, se dois caras de 15 anos, que vivem, na mesma cidade, como São Paulo, por exemplo, um estuda em escola particular o outro está na Febem? Como a gente pode falar a juventude brasileira com tantas diferenças? Existem alguns pontos comuns, mas existem diferenças que são fundamentais.
A mesma coisa eu acho da imprensa. Existe imprensa responsável, existe aquela que informa e existe aquela que não tem o sentido ético, que tem apenas uma função de gerar vendas de jornais e revistas a qualquer preço.
A imprensa televisiva, até em função do próprio tempo, ela é superficial. Eu acho a televisão, talvez junto com a rádio FM, as mídias mais superficiais no sentido da própria informação. Ninguém pode ser considerar bem informado apenas vendo televisão e ouvindo rádio.
Eu acho que nos veículos de comunicação impressos que a gente vai conseguir um aprofundamento maior. Mas, de qualquer maneira, mesmo nos impressos há os interesses. E esses interesses descaracterizam uma possível isenção, que eu acho que é quase impossível de existir mesmo, a isenção jornalística.

IMPRENSA - Nas bancas há uma proliferação de mídias de fofoca. Você conseguiu se manter distante disso. O que você fez?
Serginho -
Eu não fiz nada e é por não fazer nada que eu consigo me manter distante. Eu já não tenho nenhuma dúvida de que exista uma certa cumplicidade entre certas personagens do mundo artístico e estas revistas. É assim: tem uma estréia de um show. A imprensa vai estar lá porque é uma estréia. Eu tenho duas opções: ou vou na estréia, ou vou em um outro dia, que não tem imprensa. Mas se eu vou num dia que tem imprensa, eu sei que qualquer coisa fora do comum que eu fizer, será registrado. Contrariamente, as pessoas que querem esse tipo de holofote, elas se beijam, namoram, fazem escândalos, batem, entram com dez seguranças, anunciam todos os matrimônios, gravidez...
Agora, eu não faço isso porque quero continuar a poder fazer as coisas normais. Não chego a ser invisível, mas eu quero que meu trabalho é que apareça na imprensa, não minha vida pessoal. Eu devo satisfação às pessoas pelo que eu faço.


IMPRENSA - Você acha que a notícia pode ser um entretenimento?
Serginho -
Não necessariamente. Eu acho que em alguns veículos, as notícias se tornam um entretenimento. A televisão tem muito essa característica, de misturar o entretenimento com a informação.

IMPRENSA - Você acredita que seja importante o diploma de jornalista para atuar na profissão?
Serginho -
Eu comecei a fazer jornalismo quando era obrigatório. Mas comecei a ver as coisas assim: um cara que entendia de música melhor do que eu, que era um músico e que sabia escrever, ele não podia escrever no jornal. Hoje, o jornalismo de rádio e de televisão usa muito os ex-jogadores de futebol, porque têm uma clareza interessante. Eu acho que deve haver um espaço para quem não é formado, mas deve haver a valorização daquela pessoa que optou em estudar especificamente o jornalismo, e que possa ter seu espaço garantido nas redações.
Tem uma outra questão: o colunista, que não é jornalista. Não pagam nada para ele, e ele terá o maior prazer em escrever, vai escrever bem, mas vai continuar sua vida de pianista.

IMPRENSA - O jornalista deve ou não deve fazer propaganda?
Serginho -
Vai depender. Eu não vejo que haja um problema em princípio, como dogma. Acho que deva haver critérios e não dogmas. Quando você faz um comercial, você empresta sua credibilidade, mas eu não vejo motivo para um jornalista ter um olhar diferente de um apresentador ou um ator. Um ator pode interpretar alguma coisa, mas você sabe quem é que está falando aquilo no comercial e a empresa contrata a pessoa por ela ter uma certa credibilidade. Eu não vejo isso como um dogma, como disse, mas com critério. Um jornalista fazendo um comercial de um veículo de comunicação seria estranho.

IMPRENSA - Como é feito o programa "Altas Horas"? De onde vêm as idéias de pauta e como são decididos os convidados, por exemplo?
Serginho -
Eu dirijo o programa. Pela primeira vez, aqui na Globo, eu co-dirijo, com o Maurício Arruda, mas antes, eu dirigia e apresentava sempre. Hoje, eu co-dirijo e apresento, então eu faço a Direção Geral do programa. Venho todos os dias aqui na emissora. Temos uma equipe de, mais ou menos, quinze pessoas. A questão da pauta, gente conversa diariamente e vai criando os programas da semana. A gente grava na quinta e exibe no sábado. O programa era para ser ao vivo, mas por causa do horário, não tem jeito.

IMPRENSA - A proposta do horário foi sua... Ele bom ou ruim no final das contas?
Serginho -
A proposta de ter um programa no início da madrugada foi minha, mas às vezes o horário me deixa irritado, porque entra às vezes duas da manhã. Mas não existe uma guerra. Por exemplo: o Papa morreu, daí o "Jornal Nacional" cresce, o filme é longo, daí começa mais tarde. O horário que eu gostaria que fosse exibido o programa seria entre meia-noite e meia e uma da manhã.

IMPRENSA - Seu programa é dirigido ao jovem. Você se preocupa com o conteúdo das coisas que você diz?
Serginho -
No programa eu procuro não emitir opinião mesmo. Não que eu não tenha opinião. Quando temos um assunto mais contundente, mesmo tendo a minha opinião, eu prefiro que as pessoas tirem as suas conclusões, porque eu não sei se a minha opinião vai valer de alguma coisa para o espectador. Também não sei se a minha opinião é a mais correta. Para mim, é. Mas eu não quero usar a televisão como um veículo das minhas idéias. Eu prefiro colocar os temas em debate e, com as argumentações, as pessoas possam se fortalecer ou mudar de opinião.

IMPRENSA - Você estudou no colégio Equipe, que tinha uma proposta alternativa na época, carregada de cultura e que foi berço de pessoas que se destacam como o Arnaldo Antunes, por exemplo. Qual foi a importância de uma educação diferenciada?
Serginho -
Eu tenho um novo programa no Futura chamado "Tempos de Escola". É um programa que pegamos pessoas para falarem da época de escola, que importância tem. Lógico que a escola é muito importante pela idade que a gente tem, estou falando do colégio, cursinho...que é uma idade de muita sede de informação, de conhecimento, de descobertas e a escola fica um ponto de referência das amizades e possível conhecimento.
Eu acho a educação fundamental. Mas no Brasil a gente ainda foge de muitos temas na escola. A escola deveria fazer um pouco do que eu faço no programa, até com mais profundidade, que é ter uma matéria que reunisse as pessoas e falasse: "hoje a gente vai conversar sobre o Iraque". Falta um pouco da atualidade sendo discutida.
Falta também um pouco da realidade mais difícil do adolescente e do jovem, que são questões batidas, como gravidez na adolescência, drogas e relação familiar serem debatidos mais profundamente.



IMPRENSA - Os temas podem ser batidos, mas a gravidez na adolescência é uma constante...
Serginho -
Exatamente. A gente recebeu a atriz Graziella Moretto, que lançou um livro sobre mãe e ela falou: "mas hoje em dia, imagina, com tanta informação". Daí eu falei: "quem conhece aqui alguém que engravidou?". 90% levantou a mão.

IMPRENSA - Qual faculdade você fez?
Serginho -
Fiz três faculdades. Fiz Direito na PUC e larguei depois de um ano. Fiz um ano e meio de História da USP e larguei e fiz Jornalismo seis anos, porque era horrível a faculdade. Depois eu voltei lá para dar aula e me vingar, não dos alunos, mas da faculdade, para ser professor.

IMPRENSA - Qual faculdade foi essa?
Serginho -
FAAP. Eu cheguei com critérios muito diferentes para dar aulas. Os alunos é que avaliavam o professor; em princípio todo mundo ia passar, porque eu acho que a responsabilidade é do aluno, que paga a faculdade, então se quiser estudar, estuda; senão quiser, não estuda, mas não sou eu quem vai controlar a vida dele. Eu posso dar uma orientação e uma avaliação do que ele faz, mas falar para ele: "você vai ficar mais um ano pagando aqui", o problema é dele depois no mercado de trabalho.

IMPRENSA - Você acha que existe diferença do aluno que sai de uma faculdade pública, para um aluno que sai da faculdade particular?
Serginho -
De faculdade? Eu acho que existe mais no colégio. Acho que a questão mais grave está no ginásio, no colégio público e privado do que na faculdade. Um cara que faz um bom colégio privado, ele vai fazer uma boa faculdade, mesmo a faculdade ruim. Mesmo sendo a faculdade ruim, o cara de escola particular vai fazer uma boa faculdade e pode se tornar um bom profissional. Ele é mais interessado e vem com base mais solidificada.


IMPRENSA - A realidade da convergência de mídia está chegando. Umas das novidades no Brasil é a transmissão de conteúdo de TV via celular. Você se imagina pegando o celular e assistindo seu programa pela telinha do aparelho?
Serginho -
Hoje em dia eu aceito tudo. Fui para o Japão em outubro do ano passado. Imagina a tecnologia lá, né? Eu acho que não existe país igual, dificilmente. A tecnologia que existe lá, talvez exista nos Estados Unidos; o povo que existe lá, talvez exista na Índia, mas não vai ter um povo que tenha uma tecnologia tão forte com uma característica milenar arraigada como no Japão, principalmente em Tókio.
E lá, por exemplo, tem um trânsito caótico, mas ninguém buzina por respeito, mas, ao mesmo tempo, eles andam com o celular na mão, não no bolso, porque lá, o celular funciona para tudo. Uma das coisas que mais me impressionou, foi um cara que passou por um lado de uma máquina de refrigerantes e ele passou o celular e, pelo celular, caiu o refrigerante. Na conta do celular, vem o refrigerante. E eles usam o celular lá para tudo: previsão do tempo, internet...
O celular, daqui a pouco, ele tem esse nome, mas já existe um palm que tem celular, que tem internet. Eu uso meu celular como telefone e eu tenho uma máquina de tirar fotos. Mas, ao mesmo tempo, eu tenho um palm , que tem resolvido um pouco a minha desorganização, porque eu sou muito desorganizado, e ele tira fotos também. Então, as coisas estão se integrando mesmo, em aparelhos e objetos. Só que tem o seguinte: você compra um celular, depois de dois anos, ele é obsoleto. Ou você fica com aquilo que tem - eu tenho um celular e uma máquina fotográfica - hoje tem um celular que também tira foto e você fica meio tentado com isso. Então, essa tecnologia, ao mesmo que tempo que avança e se interliga, ela também vai fazendo você consumir mais. Mas acho que inevitável isso, essa interligação.

IMPRENSA - Você apresentou um "Alta Horas" especial, direto da casa do "Big Brother Brasil". Você acredita este tenha sido realmente um BBB diferenciado?
Serginho -
Eu acho que dessa vez deram sorte. Este Big Brother levantou algumas questões além da eliminação e eu acho que isso foi positivo. O primeiro BB que eu acho que foi mais interessante, dividiu a opinião das pessoas... o fato de um gay ter sido um vencedor... no Brasil, isso tem alguma importância.
O Jean veio aqui, a gente fez uma entrevista com ele, todo mundo gostou. Ele é um cara muito articulado, mas perguntaram para ele assim: "você já teve alguma coisa com mulher?". E ele respondeu: "Já!". Aí todo mundo aplaudiu...ou seja, ainda tem recuperação.