Será que Jornalismo "dá futuro"?

Será que Jornalismo "dá futuro"?

Atualizado em 17/06/2009 às 11:06, por Thaís Naldoni.

Todos os dias, recebo diversos e-mails de estudantes de Jornalismo com inúmeras dúvidas sobre a profissão que escolheram. Perguntas que variam desde "essa profissão dá futuro?" até "como você percebeu que queria ser jornalista?".

Sempre respondo a essas perguntas rememorando não a minha história (ainda em plena construção), mas a de pessoas que, embora ainda estejam construindo suas histórias, como fazemos todos os dias, têm um livro rico, repleto de páginas interessantes e intrigantes. Começo quase sempre invocando a paixão: não existe jornalista bem sucedido que não seja apaixonado pelo que faz... ainda que haja períodos em que o cansaço parece tomar toda a coragem do bendito.

Mas, acredito, de fato, que jornalista nasce jornalista. Não que tenham todos as mesmas características, mas em comum existe sempre a tal da paixão, a curiosidade, o olho que faísca por novidades, por possibilidades.

Divulgação
José Hamilton Ribeiro
Ilustro meu pensamento com uma passagem que o lendário José Hamilton Ribeiro, um dos mais célebres repórteres do Brasil, me contou em uma entrevista. Quando ele tinha dez anos de idade, na década de 40, período da Segunda Guerra Mundial, caiu um avião perto da cidade em que ele morava, no interior de São Paulo.

Óbvio que todos os garotos da cidade ficaram amalucados para ver o tal avião. Para chegar ao local, era necessário uma boa caminhada, em meio à terra, lama, mato... qual o problema disso para os meninos? Nenhum, claro. Mas José Hamilton tinha um ligeiro entrave: estava com a perna imobilizada... curiosamente, a mesma perna que ele perderia no fatídico acidente com a mina terrestre no Vietnã, em 1968.

Mesmo enfrentando os protestos dos meninos mais velhos, lá foi José Hamilton, passando pelos obstáculos em nome da curiosidade de ver de perto um avião... pode parecer bobagem, mas fiquei arrepiada quando ouvi esse relato. Anos mais tarde, ele precisou da mesma determinação e da coragem de menino para continuar firme e forte em sua profissão, depois de perder a perna.

Reprodução
José Hamilton após acidente
Segundo ele, após pisar na mina - e ser fotografado para a capa da revista Realidade - ao tomar consciência do que havia acontecido, dois foram os medos que o rondaram: o primeiro, o de morrer. O segundo, o de não conseguir mais "ser repórter".

Para mim, a história da infância mostra uma vocação. A da vida adulta, a paixão, que aliadas ajudaram a galgar uma carreira de mais de 50 anos, que se mantém em plena atividade.

Se o Jornalismo "dá futuro", não sei responder. Mas continuo a acreditar piamente que, em qualquer profissão, o "futuro" está intimamente atrelado à satisfação de quem a exerce. O que você me diz?