"Ser é tornar-se" / Fernanda Assef - Universidade Metodista
"Ser é tornar-se" / Fernanda Assef - Universidade Metodista
Atualizado em 02/06/2005 às 13:06, por
Fernanda Assef - Universidade Metodista.
Correndo descalço num bairro simples de Belo Horizonte uma criança. Levado e de sorriso "daqueles que dá até vontade de rir junto sem nem saber porque, sabe?". Vida simples. Comida simples, mas boa de mais. Infância sem luxos, mas sem reclamações. Muitos caminhos errantes se oferecendo diariamente aos seus pés infantis. E uma sorte. A família. Unida e sem medo do esforço. Capaz de dar muito além do sustento, um amor sem limites ao caçula e suas duas irmãs.
O menino cresce. Desiste de uma carreira como goleiro de futebol. Depois de ter passado pelo Cruzeiro e pelo América-MG, ele decide pelo vôlei. Já brincava de vôlei desde pequeno na escola, mas foi aos 18 anos quando prestava serviço militar que o menino muito baixo para as estatísticas soube de uma "peneira" para um time da PM e abandonou as chuteiras e luvas pelo esporte que o consagraria.
Começa então o nascimento de uma grande carreira. Batalhando para ajudar a família, o menino Anderson de Oliveira Rodrigues cresce também no vôlei. Começou como jogador profissional jogando no Minas por três temporadas (cada temporada dura um ano, de Maio a Abril). Mas como se diz, nem tudo são flores. E os obstáculos surgem de onde menos se espera. Anderson começa a jogar e se destacar no Clube Náutico de Araraquara. Agora, nem sempre um jogador de destaque é bem vindo. "O caminho do Anderson foi desviado por pessoas mesquinhas que quiseram impedir seu crescimento. Ele claramente chegaria muito mais longe do que eles jamais ousaram sonhar, e para muitos é difícil enxergar isso no outro sem a maldade." 1 De nada serve divulgar o nome daqueles que tentaram inutilmente apagar o brilho do jogador, eles não merecem. E certamente todos nós enfrentamos ou enfrentaremos obstáculos semelhantes. Ainda que tenhamos a capacidade e o talento sempre haverá aqueles que não desejam ver nosso sucesso por egoísmo ou, por que não dizer, inveja.
Anderson foi expulso do Náutico. Ainda que levasse uma vida social muito ativa, ele sempre cumpriu com suas obrigações e se destacou em todos os jogos. Mas "o pagode com os amigos" do jogador custou caro, ele foi estigmatizado de má influência ao time. Seu próximo time seria o Palmeiras. Onde novamente enquanto se destacava muito nos jogos, enfrentou a antipatia do técnico nos bastidores. A fama de "laranja podre" começou a atrapalhar sua entrada em um novo time. "O Anderson precisava apreender a se impor, se acostumar a acreditar no seu potencial evidente e não se deixar abater pela antipatia dos outros. E isto não é fácil para quem teve sempre uma vida simples e passou dificuldade." 1 Mas ele aprendeu.
Conseguiu entrar na ULBRA-RS em uma negociação que o atrelava a entrada de outro jogador, Levy, atualmente pouco conhecido. Então sua carreira começou a decolar. Foi o maior pontuador da Super Liga Masculina até os dias de hoje. E então foi contratado pelo time japonês NEC, onde permaneceu por três temporadas ganhando o melhor salário do voleibol na época. Foi assim que o garoto de Minas foi até o Japão, conheceu "locais belíssimos como o Museu de Hiroshima, a ilha de Okinawa, além de lagos e parques" 2 e se impressionou com a organização do povo oriental. A saudades do Brasil era amenizada quando encontrava com os jogadores brasileiros Gilson, Max e Kalé que disputavam a Liga Japonesa. O choque de culturas foi sentido principalmente no contato com os torcedores japoneses que o chamavam carinhosamente de Andy, "Aqui eles tocam em você. Começam a tremer na sua frente. É muito engraçado" 2, afirmou o oposto (posição do jogador) em entrevista ao site da CBV.
No mesmo ano em que entra no time japonês, Anderson começa a jogar pela seleção brasileira. E junto a ela ganha todos os campeonatos de que participa. Três Ligas Mundiais, em 2001 na Polônia, em 2003 na Espanha e em 2004 na Itália, na qual foi o melhor atacante com 71,15% de aproveitamento. Uma Copa do Mundo em 2003 no Japão. Campeão mundial em 2002 na Argentina. E em 2004 foi o primeiro a ser convocado pelo técnico Bernardinho a fazer parte do "grupo fantástico", como este mesmo definiu, que nos presenteou com o ouro olímpico.
Agora depois de terminada sua terceira temporada no Japão, Anderson está no Piacenza junto ao amigo e parceiro de seleção Escadinha (Sérgio Santos)da Itália. País em que está morando junto à sua mãe Nair de Oliveira Leonardo e onde se prepara para casar-se com Kátia Maria Rodrigues. Dona Nair é quem estranha desta vez o período no exterior e não consegue se acostumar com o frio do inverno italiano (que chega a -10oC). Ela diz não ver a hora de voltar ao Brasil e promete que chegando aqui vai preparar um quiabo bem feitinho e nada "babento" e uma boa couve para alegrar o seu Negritinho, de que tanto se orgulha. Quanto a carreira no vôlei, não podia estar melhor. O sucesso é tamanho que seu time propôs a devolução do custo do ingresso aos torcedores se perdesse no jogo de 17 de abril contra o time Trentino, do também companheiro de seleção André Heller. A audácia foi justificada pela vitória do time de Anderson por três sets a um, com atuação exemplar dos dois brasileiros, que abriu caminhos para que o time batalhasse um lugar na semifinal da Liga Italiana.
O homem que aos 12 anos sabia que "levava jeito" pro vôlei, agora aos 30 anos continua o mesmo garoto simples que gosta de uma boa comida mineira, um bom samba, bons amigos e o convívio com a família. "Ele mudou de vida, mas a vida não mudou o menino Anderson" 1 . E fica desta história real uma lição real: não são os outros que definem quais são os seus limites, mas você e suas atitudes diante do mundo. Dizia o filósofo alemão Hegel "ser é tornar-se" e diz nosso jogador brasileiro Anderson com a conquista olímpica reluzindo no peito "Esta medalha é uma resposta aos críticos"






