"Sem Rumo na Copa" apresenta bastidores da cobertura do Mundial da África do Sul
“Sem Rumo na Copa” traz curiosidades e situações inusitadas vividas por três jornalistas, que mostram um novo olhar da cobertura do Mundial.
Atualizado em 12/11/2014 às 16:11, por
Christh Lopes*.
Crédito:Divulgação Jornalista contam como cobrir uma Copa sem credencial
Assim surgiu o livro “Sem Rumo na Copa – 45 dias de uma aventura na África do Sul”. A troca de Florianópolis por um continente com mosquitos, conexão de internet a carvão e ônibus que só partem de acordo com a vontade do motorista resultou numa publicação cheia de curiosidades que despertam a atenção do mais desavisado leitor.
Quando viajaram à nação africana, a ideia dos jornalistas era justamente focar os refletores nas mais variadas situações fora das quatro linhas. Misturando-se com pessoas desconhecidas em ônibus, albergues e lan houses os autores se depararam com histórias que precisavam ser relatadas, como a vez que um funcionário oficial bateu a porta na cara de incontáveis comunicadores que queriam apenas exercer seu trabalho. A única coisa em comum a todos que estavam ali para acompanhar a Copa do Mundo era o futebol e, em alguns casos, acompanhar de perto o paz de um local que sofreu com o apartheid.
À IMPRENSA, Koerich conta que fez um diário de bordo e nos dias da excursão escrevia e guardava tudo o que se apresentava à sua frente, tentando obter riqueza nos detalhes de seu texto. Diante do material produzido, sentiu uma necessidade de moldar coisas tão abrangentes.
No retorno ao Brasil, cada um dos repórteres decidiu escrever uma parte da história. Assim, se separaram e começaram a relatar partes da experiência vivenciada em 2010. Como apenas Rockenbach era formado, as conversas e reuniões sobre a obra foram estendidas e adiadas por conta de trabalhos e da faculdade.
Segundo Madruga, da conversa ao manuscrito o processo foi rápido. Porém, a maior dificuldade foi encontrar uma editora que topasse publicar o projeto. Foram muitas as desculpas, mas com a proximidade da Copa no Brasil, os autores sabiam que a hora ideal de publicar era em 2014, quando o Brasil seria sede pela segunda vez do torneio.
“Não desistimos de eternizar a nossa história. Afinal, neste livro há relatos sobre jornalismo, amizade, perseverança e luta por sonhos. Não somente nosso, em cobrir um Mundial, mas de pessoas que tiveram a vida interferida pela Copa. Este livro trata de pessoas e histórias reais, nada mais que isso”, diz Koerich.
Quem acompanhou o trabalho deles no blog perceberá que 70% da obra é constituída de materiais inéditos e poderá visualizar os bastidores do cotidiano de um jornalista, da rotina de um repórter que faz a cobertura de um evento dessa magnitude.
Para passar ao leitor essa sensação de olhar a cobertura por trás das câmaras, o trio de escritores se transforma em um personagem que procura contar o passo a passo daquilo que foi feito da pauta até o produto final.
No lado jornalístico, vale à pena acompanhar como é a rotina de um enviado especial. “Em um continente estranho e novo para nós três, era preciso saber coletar e refinar o que seria interessante para o público, fosse ele de internet, papel ou som”, relata Renan Koerich.
“Nos preocupamos não em apenas reproduzir o conteúdo do blog, mas em mostrar bastidores, histórias interessantes. Era necessário fugir apenas do texto da página na internet, tanto que o estilo da escrita é diferente”, declara Diego Madruga.
Um novo olhar sobre a Copa
Na publicação, o leitor encontrará um novo olhar sobre o Mundial. Há no livro, por exemplo, a história dos meninos de Coffe Bay, uma praia paradisíaca, distante de qualquer ligação com o futebol, mas que vendiam drogas para os turistas na tentativa de uma vida melhor.
Como não podia deixar de ser, os autores também trazem relatos sobre o apartheid, bem como a necessidade do povo sul-africano exibir para o mundo sua capacidade de receber, acolher e também realizar um evento deste porte. “É um novo olhar para a África do Sul”, declarou Koerich.
Crédito:Divulgação Obra traz um retrato diferente do Mundial
No campo da comunicação, é possível constatar como é fazer jornalismo esportivo em condições adversas, sem as facilidades e comodismos que uma cobertura oficial. De acordo com Madruga, a visão paralela do futebol foi o que deu norte ao projeto. “Diante de tudo que fizemos, os 45 dias de total dedicação ao projeto foi satisfatório”, diz.
Dificuldades e entraves
Os três jornalistas tiveram de contar com apoio de familiares, do veículo onde trabalhavam ( Diário Catarinense ) e também das próprias economistas para arcar com os custos da iniciativa. Na época, deixaram Florianópolis no período de férias e foram com a promessa de que teriam espaço nos veículos do Grupo RBS caso o material estivesse com qualidade compatível.
Koerich tinha entrado no jornal em 2009, Pedro em 2007, quando ainda era estudante de jornalismo. Já Madruga ingressara na faculdade e estagiava em outro local. Nenhum dos três era repórter ainda, trabalhavam como assistente de conteúdos. Por isso, não ganharam credencial, mas isso, nem os interessava. A ideia era ter uma oportunidade de apresentar o trabalho e a capacidade de cada um. Renan conta que, às vezes, é preciso criar a sua própria chance e assim foi no projeto.
“Depois da viagem, hoje percebo de uma forma melhor e mais clara que existiu irritação e incômodo por parte dos repórteres e editores mais experientes da época. Afinal, é correto você pagar para cobrir um evento? É correto a empresa aceitar este tipo de contribuição? ”, acrescenta.
Os perrengues, de fato, contribuíram para o recheio da história. “Por diversas vezes acordávamos sem saber em que lugar parar, qual cidade ir, aonde dormir. Tudo isso foi motivo de dificuldade e ao mesmo tempo da necessidade de adaptação do grupo”, conta Madruga.
Imprensa e projetos futuros
Ao longo do caminho, foram poucos os que pararam para conversar com a trupe que estava sem rumo. “A maioria que conversamos foram brasileiros – Juca Kfouri, Chico Maia, Cesar Tralli, Renata Falzoni, Daniel Piza, Tostão e também Fábio Zanini”, diz Koerich.
“Contar o que todo mundo conta, naquele momento, não era interessante”, acrescenta. A fuga do lugar comum resultou num leque de histórias, que fizeram com que um momento marcante fosse todos os instantes ali vivenciados. “O que mais era relevante, e nos pareceu um sentimento único, era mostrar a capacidade da África de receber tantos povos diferentes na ‘sua casa’”, completa.
Neste ano, a saga poderia ter ganhado um novo episódio, mas cada um seguiu o seu caminho. Com projetos individuais, os autores tinham outras prioridades. Apesar de trabalharem no mesmo prédio, Koerich e Madruga não se movimentaram e trabalharam na redação do GloboEsporte.com. Ali, também estava Pedro Rockenbach, só que na RBS-TV (filiada da Rede Globo no Sul do Brasil).
“Ao menos de minha parte, o desejo de realizar algo semelhante diariamente e ter na viagem para outros países a essência do jornalismo é algo frequente e sedutor. Contar histórias é o que há de fundamental na nossa profissão”, conclui Koerich.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves





