Sem papel, sem palavras
Sem papel, sem palavras
Atualizado em 17/07/2010 às 00:07, por
Rodrigo Manzano.
Quando criança, adorava os dias de falar sobre nossos pais na escola. Inusitadas, as profissões de meu pai e minha mãe não encontravam concorrentes em meio às atividades comuns dos pais de meus amigos de colégio, igualmente comuns. Minha mãe se ocupava em ser diretora de museu e meu pai, encadernador e restaurador de livros.
Isso faz quase trinta anos. Hoje pela manhã, quando chego a minha velha casa para ver meu velho pai, ouço dele a confissão de que pensa em parar com as encadernações. "As pessoas não precisam mais disso", lamenta. "Às vezes ligam, eu digo que custa R$ 18 para encadernar um livro e elas não retornam mais. Há muita concorrência". Acho estranho, não havia concorrência quando eu era pequeno e quem se interessaria em ser encadernador como ele hoje, pergunto-me. Decerto ele falava das encadernações em espiral, feitas em cinco minutos, as três dezenas de furos, pouca habilidade, pouca inteligência. Custo: R$ 2,50.
Meu pai é um homem simples, de hábitos modestos e pequenas alegrias. Aprendeu o ofício em São Paulo, há quatro décadas, ia uma vez por mês à capital comprar seu material de trabalho - grandes rolos de papel, folhas multicoloridas, lâminas de papelão e papel cartão, cola, facas novas para os estiletes. O destino era a Encadernadora Kristina, na Rua José Bonifácio, no centro da cidade, onde hoje ainda funciona. Eu ia com ele à cidade grande.
Gostava do cheiro de papel e tinta daquele lugar; para carregar todo material, pegávamos um taxi com destino ao terminal rodoviário. Ninguém ousava imaginar, olhando para nós dois à espera do ônibus, que aquilo tudo viraria livro. Virava.
Meu pai arrumou dois alunos. Uma senhora e seu filho querem aprender o oficio para restaurar os livros da própria biblioteca. Aos 82 anos, José fala com orgulho de seus aprendizes. Andam faltando às aulas, me disse, de modo que penso estar ele mais orgulhoso de si mesmo, quem diria, um homem ignorante e agora professor. Tentei aprender com ele o ofício, aos 12 anos. Na teoria, sei tudo sobre encadernações manuais e restauração de livros carcomidos pelo tempo, pelo uso, pelo desleixo. Sei fazer diagnósticos. Mas a seara era sagrada demais para um desajeitado adolescente. Desisti.
Em cima da sua mesa de trabalho, há dois grandes volumes dos jornais de abril a junho de 2010. Meu pai faz as encadernações do arquivo do jornal da cidade desde antes do antes. Me lembro, ainda menino, de ver todo aquele jornal se transformar em volumes prontos para o arquivo. A letra cambaleante na lombada, em tinta branca, anunciando o período. Talvez esses sejam os dois últimos. Meu pai está cansado da concorrência.
Ouço com os ouvidos que tenho. Não argumento. Mal sabe ele que as coisas tendem a piorar. Não tenho coragem de lhe dizer que sua profissão é um ofício de poucos e de pouco tempo. Um mundo sem papel não precisa de encadernadores e sua concorrência não são as encadernações em espiral, mas o futuro, que não reservou lugar para profissões como a dele. Dezoito reais para dois ou três dias trabalho, costura à mão, capa revestiva de percalux, lombada quadrada, guarda em cartolina. "Não querem pagar", diz. Meu pai não sofre com seu lamento, enquanto corta com a tesoura algo invisível no ar, as mãos já velhas como os velhos livros que antes provisoriamente freqüentavam a nossa casa, uma pensão das palavras dos outros, para alegria de uma mente curiosa e vouyer como a minha, a fuçar os livros alheios, muitos dos quais eu sabia, tinha apenas dois ou três dias para ler.
Meu pai não tinha preconceitos. Os livros eram, em sua mão, todos iguais. Das Bíblias dos crentes da Assembléia de Deus, a balanços de empresas, diários adolescentes, obras obscenas de Adelaide Carraro, relatórios oficiais da prefeitura, atas de clubes e associações, aos jornais que seriam postos em uma sala para nunca mais serem lidos. Tudo se tornava ou voltava a ser livro. Esse tempo, eu sei, não voltará. Não tenho coragem de dizê-lo. Os profetas do século XXI já anunciaram: não há lugar para o papel no futuro.
Iluminada por uma claraboia, sua guilhotina parece um altar de deuses já mortos. No pesado instrumento, por onde já passaram e foram cortadas milhões de páginas, José colou um pequeno adesivo. "Fé em Deus. Dias melhores virão". Quem ousa dizer o contrário a meu pai?
*** Essa crônica, homenagem a José Manzano, é também uma ode ao papel, nos dias em que se anuncia: o velho Jornal do Brasil deixará de ser impresso.
| Arquivo pessoal | |
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Meu pai é um homem simples, de hábitos modestos e pequenas alegrias. Aprendeu o ofício em São Paulo, há quatro décadas, ia uma vez por mês à capital comprar seu material de trabalho - grandes rolos de papel, folhas multicoloridas, lâminas de papelão e papel cartão, cola, facas novas para os estiletes. O destino era a Encadernadora Kristina, na Rua José Bonifácio, no centro da cidade, onde hoje ainda funciona. Eu ia com ele à cidade grande.
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Meu pai arrumou dois alunos. Uma senhora e seu filho querem aprender o oficio para restaurar os livros da própria biblioteca. Aos 82 anos, José fala com orgulho de seus aprendizes. Andam faltando às aulas, me disse, de modo que penso estar ele mais orgulhoso de si mesmo, quem diria, um homem ignorante e agora professor. Tentei aprender com ele o ofício, aos 12 anos. Na teoria, sei tudo sobre encadernações manuais e restauração de livros carcomidos pelo tempo, pelo uso, pelo desleixo. Sei fazer diagnósticos. Mas a seara era sagrada demais para um desajeitado adolescente. Desisti.
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Ouço com os ouvidos que tenho. Não argumento. Mal sabe ele que as coisas tendem a piorar. Não tenho coragem de lhe dizer que sua profissão é um ofício de poucos e de pouco tempo. Um mundo sem papel não precisa de encadernadores e sua concorrência não são as encadernações em espiral, mas o futuro, que não reservou lugar para profissões como a dele. Dezoito reais para dois ou três dias trabalho, costura à mão, capa revestiva de percalux, lombada quadrada, guarda em cartolina. "Não querem pagar", diz. Meu pai não sofre com seu lamento, enquanto corta com a tesoura algo invisível no ar, as mãos já velhas como os velhos livros que antes provisoriamente freqüentavam a nossa casa, uma pensão das palavras dos outros, para alegria de uma mente curiosa e vouyer como a minha, a fuçar os livros alheios, muitos dos quais eu sabia, tinha apenas dois ou três dias para ler.
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Iluminada por uma claraboia, sua guilhotina parece um altar de deuses já mortos. No pesado instrumento, por onde já passaram e foram cortadas milhões de páginas, José colou um pequeno adesivo. "Fé em Deus. Dias melhores virão". Quem ousa dizer o contrário a meu pai?
*** Essa crônica, homenagem a José Manzano, é também uma ode ao papel, nos dias em que se anuncia: o velho Jornal do Brasil deixará de ser impresso.






