"Sem jornalistas, a desinformação corre solta", diz Rodrigo Lopes, que está lançando livro sobre guerra na Ucrânia

Jornalista com mais de 30 coberturas internacionais no currículo, incluindo de conflitos armados e catástrofes naturais, Rodrigo Lopes mora em Porto Alegre (RS), é colunista de assuntos internacionais do Grupo RBS e está lançando pela editora BesouroBox o livro Trem para a Ucrânia (152 páginas, R$54,90).

Atualizado em 27/10/2022 às 15:10, por Redação Portal IMPRENSA.


Com prefácio de Guga Chacra, comentarista da GloboNews, a obra explora o contexto geopolítico envolvido na invasão da Ucrânia pelas tropas de Vladimir Putin, além de reunir histórias de vítimas do conflito que Rodrigo apurou diretamente da zona de guerra.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Portal IMPRENSA, o jornalista dá mais detalhes de sua carreira, comenta a pretensão de fornecer ao leitor um entendimento histórico dessa complexa crise, além de analisar o papel da desinformação e dos ataques à liberdade de imprensa no conflito.
Antes de ler a entrevista, veja abaixo o booktrailer de Trem para a Ucrânia.

Portal IMPRENSA - Você chegou a cobrir o conflito localmente? Como foi a viagem? Quantos dias ficou na Ucrânia? Rodrigo Lopes - No total, foram 11 dias de cobertura entre Alemanha, Polônia, Eslováquia, Hungria e Ucrânia. Viajei no primeiro dia do conflito, em 24 de fevereiro de 2022. A partir de Varsóvia, capital polonesa, percorri de carro as regiões de fronteira com a Ucrânia, onde tive o primeiro contato com o drama da guerra: a rota dos desesperados que tentavam fugir do conflito. Vi cenas dramáticas, de muitas crianças sem pais (homens entre 18 e 60 anos foram obrigados a ficar no país para lutar), mulheres que deixavam o país com os filhos, sem comida e sem roupas. A temperatura à noite caia abaixo do zero grau. E, do outro lado, as pessoas se acotovelavam em uma massa disforme na tentativa de cruzar a fronteira. Muitas, sem conseguir, adormeciam ao relento ou iniciavam o retorno à Lviv, a pé, a cerca de 80 quilômetros dali. Tentei ingressar a pé, pela fronteira de Medyka, mas não havia garantias de conseguir sair ou de me deslocar pelo país com segurança. Depois, tentei ingressar de carro, pela fronteira da Hungria, mas também não consegui, porque meu carro alugado não poderia sair da União Europeia. Foi então que descobri que era possível ingressar de trem, a partir da Polônia. Em minha terceira tentativa, ingressei na Ucrânia. Fiquei em Lviv, cidade do oeste ucraniano, por dois dias. Na cidade, testemunhei uma população em armas - havia barricadas em todos os acessos à cidade e em frente a prédios públicos. Estátuas do centro de Lviv estavam sendo cobertas para proteção, no caso de explosões menores. Havia muitos militares pelas ruas. Comércio fechado. Uma população desconfiada em relação aos estrangeiros - com medo de que fossem espiões russos. E várias vezes ao dia era necessário buscar proteção em abrigos antiaéreos, quando as sirenes tocavam. Permaneci dois dos 11 dias de cobertura dentro da Ucrânia. Crédito:Reprodução literaturars.com.br Portal IMPRENSA - Qual o momento mais tenso dessa cobertura? Rodrigo Lopes - Foram três: o primeiro, no trem, quando, durante o trajeto, já dentro da Ucrânia, as luzes se apagaram. A composição percorreu longos trechos no país em guerra às escuras. Meu celular falou e a fonte que eu havia acertado de me buscar na estação em Lviv me informou que não poderia fazê-lo naquela noite porque a cidade já estava sob toque de recolher. O apagar as luzes era uma medida de segurança para evitar que o trem fosse avistado pelos russos. Ao chegar a Lviv, como a fonte não foi me buscar, precisei passar a madrugada na estação de trem, junto com milhares de refugiados que tentavam sair. Não havia trem para todo mundo. As pessoas passavam dias na estação, enquanto, lá fora, as sirenes antiaéreas tocavam a todo momento. Havia muito medo de bombardeios ao local - naqueles dias, outras estações de trem foram atingidas no leste do país. Outro momento de tensão era quando as sirenes tocavam. Como jornalista, eu precisava correr para o abrigo antiáreo, mas, ao mesmo tempo, registrar imagens. Então, por vezes, ficava de um a dois minutos sem entrar nos bunkers em função do trabalho - o que gerava uma tensão uma vez que não se sabia se um míssil ou bomba cairia sobre a cidade. Portal IMPRENSA - Como foi o processo de produção do livro? Quais os maiores desafios de transformar o material colhido na região do conflito em uma obra literária jornalística? Eu já vinha planejando escrever um segundo livro. O meu primeiro, Guerras e Tormentas, também pela BesouroBox, foi lançado em 2011, e conta os bastidores de 14 coberturas internacionais, da eleição na Argentina, em 2003, que encerrou a era Carlos Menem, até a Primavera Árabe, passando pela morte do papa João Paulo II, o terremoto no Haiti e a eleição de 2008 nos Estados Unidos, em que Barack Obama saiu vencedor. Minha ideia era fazer um novo livro que contasse o trabalho de outras coberturas desde 2011, como os atentados em Paris, de 2015, a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, em 2016, e minhas viagens ao Iraque e Antártica. Mas a guerra na Ucrânia é um fato jornalístico e histórico que, na minha avaliação, merece uma reflexão profunda por si só e que tem e terá impacto por muito tempo em nossas vidas, na História e na geopolítica. Ao mesmo tempo, eu sentia necessidade de dar concretude a uma cobertura que foi muito ao vivo - no rádio e nas redes sociais, especialmente. O livro ajuda a dar contexto, explicar, aprofundar, refletir, reviver memórias. Não tinha a pretensão de ser uma obra acabada, até porque, infelizmente, a guerra continua em andamento. Mas queria fazer o retrato de um momento - os primeiros dias do conflito. Esse foi um grande desafio porque, enquanto escrevia, fatos novos e relevantes ocorriam - como a ameaça nuclear que agora se impõe e o recrutamento de 300 mil pessoas pelo Putin. Mas tentei buscar três pilares: a história da jornada do repórter e as pessoas que encontrei no caminho, as origens das divergências entre Rússia e Ucrânia e alguma análise geopolítica. É um livro para quem deseja compreender o que está ocorrendo. Voltei a entrevistar fontes que conheci lá e revivi muitas das memórias, revisitando textos da época da viagem, vídeos e fotos. Também fiquei muito satisfeito com o fato de o colega Guga Chacra, a quem admiro muito e que foi meu parceiro de cobertura no terremoto do Haiti, ter aceitado escrever o prefácio da obra. Portal IMPRENSA - Você já cobriu outros conflitos internacionais? Rodrigo Lopes - Sim, meu primeiro conflito foi entre Israel e o Hezbollah, em 2006, ocasião em que estive dos dois lados da guerra - em Israel e no Líbano. Depois, estive na Líbia, em 2011. Em 2016, viajei ao Iraque, ocasião em que estive em Bagdá e Ramadi (esta a primeira cidade desocupada pelo grupo terrorista Estado Islâmico). Portal IMPRENSA - Há quanto tempo está na RBS? Poderia resumir sua trajetória profissional? Já escreveu outros livros? Rodrigo Lopes - Estou na RBS há 26 anos. Iniciei como office boy da Redação, em 1996, no primeiro semestre da faculdade de Jornalismo. Me graduei na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e fui promovido a redator da editoria de Mundo do jornal Zero Hora. Foi minha grande escola, onde comecei a fazer não apenas textos a partir de agências de notícias, mas, principalmente, as primeiras entrevistas e reportagens. A eleição argentina, de 2003, foi minha primeira cobertura internacional, com a qual ganhei o Prêmio Rey de España de Periodismo. Depois, acabei me especializando em coberturas em zonas de guerras e catástrofes naturais - tendo coberto o furacão Katrina, nos Estados Unidos, o terremoto no Peru (além do Haiti), e as guerras no Líbano, Líbia e Iraque. Também cobri algumas crises na América Latina, como em Honduras, quando fiquei dentro da embaixada brasileira ocupada pelos seguidores do ex-presidente Manuel Zelaya. Em 2019, fui detido pelo regime de Nicolás Maduro na Venezuela. Busco equilibrar o jornalismo diário com a academia. Sou mestre em Comunicação, lecionei Jornalismo em duas faculdades de Porto Alegre, e atualmente faço doutorado em Estudos Estratégicos Internacionais e Relações Internacionais na UFRGS. Comecei em jornal papel, mas também passei a trabalhar na Rádio Gaúcha e na RBS TV. Também fui editor de Mundo, de Geral, de Capa e repórter especial. Atualmente, sou comentarista de assuntos internacionais da Rádio Gaúcha e colunista de Mundo de ZH. Trem para Ucrânia é meu segundo livro. Portal IMPRENSA - Como se fosse um filme, o livro tem trailer. Como foi o processo de produção dessas imagens? Você viajou acompanhado de cinegrafista? Rodrigo Lopes - Viajei sozinho. Como me habituei a trabalhar para as diferentes mídias, acabo viajando sozinho. As imagens do trailer para o livro foram captadas por mim durante os dias em que fiquei no Leste Europeu. Elas foram utilizadas em GZH (portal do Grupo RBS), na RBS TV e em redes sociais. Resolvi fazer o trailer para mostrar um pouco do conteúdo do livro. Portal IMPRENSA - Especialistas em direito à informação têm sustentado que se houvesse imprensa livre na Rússia a situação seria bem diferente e o mundo não estaria às voltas com uma nova ameaça nuclear. Como você analisa o papel da desinformação e dos ataques à liberdade de imprensa nessa guerra? Rodrigo Lopes - Aprecio muito a frase famosa de José Hamilton Ribeiro: "Guerra é ruim, mas sem a presença de jornalistas, é muito pior". Porque aí o ser humano se revela por inteiro em toda a sua bestialidade. É isso que ocorre. Está muito difícil o acesso às informações não apenas na Rússia, mas na própria Ucrânia. Eu mesmo não consegui ir a Kiev (ou Kyiv, como chamam os ucranianos) porque não havia condições de segurança naqueles primeiros dias. E, na ausência de jornalistas para verificar os fatos in loco, a desinformação corre solta - de ambos os lados. Também é famosa a frase segundo a qual "na guerra, a primeira vítima é a verdade", do senador americano Hiram Johnson eternizada no livro A Primeira Vítima, do Phillip Knightley. Nessa cobertura especialmente, as redes sociais têm alto impacto - e, ao mesmo tempo em que ajudam a localizarmos fontes a recebermos informações e imagens de locais onde não estamos, também distribuem mentiras. No caso russo, é bem verificável o impacto que as notícias do conflito, ainda que censuradas, têm na opinião pública. Não à toa no momento em que se sabe que o governo está recrutando combatentes em todo o país (ou seja, a guerra chega às elites de Moscou e São Petersburgo), uma multidão inicia uma fuga pelas fronteiras. Mesmo com nossas limitações, continuo achando que guerra é ruim, mas sem jornalistas é muito pior.