Sejam bem-vindas, por Bruno Lara de Castro Manso*

Sejam bem-vindas, por Bruno Lara de Castro Manso*

Atualizado em 11/09/2007 às 18:09, por Bruno Lara de Castro Manso* e  estudante da Universidade Estácio de Sá (RJ).

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Há uma idéia de que a reforma ortográfica da língua portuguesa, que já pode fazer parte dos livros escolares brasileiros em 2008, é benéfica ao Brasil e aos outros sete países que falam português. Um dos principais argumentos é de que a simplificação e a padronização da língua contribuiriam para: a aproximação dos países lusófonos e para o aprendizado da sociedade (que encontraria menor dificuldade em se expressar da forma correta).

Por outro lado, não se pensa (ou se pensa) que a língua é um patrimônio do pensamento (que é um patrimônio do ser humano). À medida que as regras são facilitadas para se expressar através da fala e da escrita, mais se limita a capacidade do ser humano de questionar, concordar ou descordar; mais se limita o poder crítico.

O aprendizado de uma língua desenvolve o cérebro, tornando-nos mais inteligentes, ricos em conhecimento, além de estimular a memória. Se a língua (seja ela qual for) pouco incitar o desenvolvimento, seremos humanos passivos, o que não é característico da nossa espécie.

Na língua constam, ainda, estilos de vida, características de um povo, a identidade deste. Não apenas falamos português, mas vivemos, pensamos e respiramos português. Por tudo isso, alterar a ortografia implica em alterações no âmbito social. Pequenas mudanças ortográficas não significam mudanças radicais na maneira de pensar, mas pode ser um início. Em 1971 houve outra reforma para facilitar a utilização da ortografia.

Em 1984, de George Orwell, o objetivo do Partido é aperfeiçoar a novilíngua até esta ser reduzida ao mínimo possível. "Estamos reduzindo a língua à expressão mais simples", afirma um personagem integrante do comitê responsável por "desenvolver" o idioma. Com isso, entre outras medidas, o Partido buscava limitar a articulação e a flexibilização das pessoas que vivem naquela sociedade. "O objetivo da novilíngua é estreitar a gama do pensamento", conclui o personagem. O Partido queria eliminar qualquer poder de ação consciente do cidadão.

Para aproximar os países de língua portuguesa é preciso promover o intercâmbio cultural, os estudos sobre as outras nações em escolas e universidades, facilitar a compra de pacotes turísticos... enfim, uma série de outras medidas que obteriam resultados concretos e transparentes.

Que tipo de aproximação a extinção do trema promoverá entre Brasil e Guiné-Bissau?; O que mudará na relação entre Angola e Cabo Verde pelo fato de "assembléia" não ser mais acentuada e o acento circunflexo não ser mais utilizado em palavras tais como "crêem" e "lêem"?

Se por um lado a língua portuguesa ganha um ar mais popularesco, se adequando ao modo como a sociedade a utiliza (ao invés de ocorrer o contrário), por outro, recebe uma sofisticação cosmopolita através da importação de três letras: "k", "w" e "y". Nosso time está próximo de contar com 26 integrantes. Sejam bem vindas!

*Bruno Lara de Castro Manso é estudante de jornalismo da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro (RJ)