Secretarias Municipais encontram novo jeito de aproveitar lixo reciclável / Por Maria Thereza Cesar - UMESP

Secretarias Municipais encontram novo jeito de aproveitar lixo reciclável / Por Maria Thereza Cesar - UMESP

Atualizado em 24/06/2005 às 13:06, por Por Maria Thereza Cesar e  estudante de jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo.

Por As cooperativas de catadores de lixo, como COORPEL e Sanfran reaproveitam lixos provenientes das muitas secretarias que funcionam no centro da cidade de São Paulo. A central de triagem funciona no pátio da Subprefeitura da Sé que enviam um relatório mensal com a porcentagem de lixo utilizado pelos cooperados. A cada 50 toneladas enviadas de lixo por mês, apenas 6% chegam a ser reutilizados.

Isso se deve ao fato da maior parte do lixo ser papel sujo ou impuro por alguma mancha de café ou por estar muito picado, fatores que prejudicam a reutilização desses materiais.

O centro da capital paulista cedia, entre as várias empresas privadas, 15 secretarias municipais e outras seis empresas e autarquias públicas. É na rua Líbero Badaró que estão instaladas as secretarias ligadas à habitação, subprefeitura, assistência e desenvolvimento e a própria sede da Prefeitura do Município de São Paulo.

As secretarias municipais como a SEHAB (Secretaria de Habitação) e as autarquias como a Cohab (Companhia Metropolitana de Habitação) e EMURB (Empresa Municipal de Urbanização) estão localizadas no Edifício Martilinelli. Desde de 2002 o síndico, assim como funcionários da prefeitura notaram a importância de se ter um sistema de separação do lixo que ali é produzido. Pelos 26 andares foram instaladas lixeiras dos quatro elementos (plástico, lata, orgânico e vidro), para o elemento papel foram comprados pequenas caixas de plástico onde todos os funcionários podem depositar folhas de papel sulfite que não serão mais utilizados.

No fim do expediente, funcionários da limpeza das secretarias recolhem os lixos os deixando separados por sacos de lixos que identifica que tipo de lixo é. Depois, os outros funcionários da limpeza do Martinelli recolhem todos os sacos de todos os andares e encaminha para a cooperativa que funciona na sede da subprefeitura da Sé. "Os funcionários são instruídos a não misturarem os lixos para que os catadores da cooperativa possam aproveitar ao máximo o reciclável", explica o administrador do Edifício Martinelli, Valter Camargo.

Para ensinar e conscientizar da importância da utilização dos 50 recipientes das quatro cores e das 250 pequenas lixeiras azuis para papel, a administração do prédio com o apoio da CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) organizou e distribuiu diversos panfletos explicativos. "Quando eu entrei para trabalhar na SEHAB, ainda não tinha este sistema de coleta de materiais. Algum tempo depois foi implantado e vários panfletos foram distribuídos entre os funcionários para mostrar como devia ser feita a separação", diz a consultoria jurídica, Lígia Cássia de Souza.

Para a dar início a este projeto, foi necessário um acordo entre o condomínio e as secretarias, onde o condomínio arca com a infraestrutura e gastos, enquanto que as secretarias fazem a parte da campanha de mobilização os funcionários públicos. "Há várias alternativas, mas para todas precisam ser bem estruturadas e dar condições para que os usuários também participem", finaliza Valter.

A secretaria Municipal de Coordenação das Subprefeituras pensou em outro método para reaproveitar o lixo que é desperdiçado. Os funcionários da empresa que presta serviço de limpeza à Secretaria são orientados a separar os papéis dos jornais e dos outros tipos de lixo.

Depois é levado para um único local onde se junta o maior número possível de papeis para ser revendido. Com o dinheiro da revenda são compradas itens que estão em falta na Secretaria por conta da falta de dinheiro que a atual gestão está passando. "Quando vendi nosso primeiro lixo, pedi uma nota fiscal. Quando fui comprar alguns dos materiais que estávamos precisando, também pedi uma nota porque utilizei o dinheiro da venda do lixo nessa compra. Porém, antes consultei o departamento jurídico que disse estar tudo certo", explica Rosali D´ Eça Rodrigues encarregada de sub-unidade.

Para as próximas vendas, estão planejadas as compras das lixeiras oficiais de reciclagem que estarão espalhadas pelos cinco andares que a Secretaria ocupa no edifício Grande São Paulo. "A partir dessa etapa, faremos uma campanha interna junto aos funcionários para que respeitem e participem separando os lixos, na hora de jogar fora", explica Rosali.

Mas, nem sempre houve projetos ligados à reciclagem na Secretaria das Subprefeituras. "Os jornais e papeis eram jogados diretamente no lixo comum, sem ao menos separar e doar. Um tempo depois, esse lixo passou a ser encaminhado à subprefeitura de Pirituba que cuidava de vender ou doar", comenta Cícero Apolinário da Silva, agente de apoio.

Preocupada com o gasto excessivo de folhas de sulfite em seu departamento, a funcionária pública, Martha Maria Schmidt criou um hábito que consiste em juntar o maior número de folhas de papel que normalmente iria direto para o lixo e fazer vários blocos de anotação para a equipe com quem trabalha. "Senti que havia uma necessidade de blocos para anotar os recados. Ao invés de produz mais papel, resolvi reaproveitar os que iriam para o lixo", explica Martha.

Além da questão ambiental, o interesse por lixo reciclável se tornou uma espécie de profissão no qual muitas pessoas, que pressionados pelo desemprego, viram como oportunidade de vida a venda de papeis, papelões e latas de alumínio.

Em palestra a alunos de jornalismo, a organização Viva o Centro mencionou que um dos projetos para a requalificação do centro da cidade está da melhor organização de entidades e cooperativas que, organizadamente, possam auxiliar o catador. "Transformar pessoas de baixa renda em lixeiros contemporâneos de recicláveis é o ideal para dar uma visão melhor. Mas será que viver do lixo é uma coisa boa?", indaga Ana Maria, Assessoria de Imprensa da Associação.

Algumas das Cooperativas que vivem do lixo do Centro
No Centro funcionam pelo menos dois projetos de coleta seletiva de recicláveis que são: o Núcleo Seletivo do Glicério (grupo organizado pela Ação Local Pátio do Colégio/Boa Vista) e o Recifran (ligado à Província Franciscana e Ação Local São Francisco).

O Núcleo do Glicério foi criado em 1998 e tem cadastrado 80 catadores que, por mês, reciclam a média de 300 toneladas, de acordo com os dados da Viva o Centro.

Criado em 2002, o Recifran tem 95 catadores que trabalham em dois espaços também no Glicério, fazendo a triagem e encaminhando a média mensal de 110 toneladas às indústrias de reciclagem.

A posição da ONG Viva o Centro em relação a esse trabalho é que para que as experiências das cooperativas no centro dêem certo, é necessário que os recicláveis sejam recolhidos por veículos diretamente nos prédios e levados aos núcleos onde os catadores possam fazer a separação e comercialização, sem precisar percorrer todo o Centro puxando as carroças.