"Se não houvesse autonomia não seria TV pública", declara Orlando Senna, diretor-geral da EBC

"Se não houvesse autonomia não seria TV pública", declara Orlando Senna, diretor-geral da EBC

Atualizado em 12/05/2008 às 18:05, por Marina Dias/Redação Portal IMPRENSA.

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Cineasta e jornalista, Orlando Senna é diretor-geral da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), responsável pelo desenvolvimento e implantação da TV pública, um dos mais comentados projetos do governo Lula.

Inaugurada em 2007, a TV Brasil foi alvo de inúmeras críticas que diziam respeito à sua independência e funcionalidade, além de ter sido foco de dúvidas sobre o quanto seria efetiva uma nova programação televisiva no País.

Depois de morar dez anos em Cuba e, segundo ele, ter melhorado sua condição humanitária e, "por extensão", dele mesmo, o diretor da EBC afirma que as críticas são, algumas vezes, propositivas, mas que outras são de oposição partidária e que "metem a TV pública e qualquer outra coisa no saco anti-Lula".

Mesmo assim, Senna acredita que o projeto da TV Brasil tem "o apoio da atividade audiovisual, o respaldo da presidência da República e uma equipe de alto nível, criativa, ousada e corajosa" que, junto com ele, pretende "praticar o jornalismo em sua mais pura e legítima definição".

Orlando Senna falou ao Portal IMPRENSA sobre sua trajetória até a EBC e sobre os desafios de implatar uma nova televisão no Brasil.

Portal IMPRENSA: Como foi sua trajetória entre Jornalismo e Cinema? O que lhe fez mudar o rumo da carreira, já que trabalhou em alguns jornais, mas se dedicou mesmo ao universo cinematográfico?

Orlando Senna: Não houve uma trajetória. Por volta dos 18 anos de idade comecei a me dedicar a essas duas atividades ao mesmo tempo. E ainda arranjava tempo para o teatro, dirigi uns 30 espetáculos. No início, o jornalismo tinha peso maior, inclusive pelo ganha-pão de cada dia. Depois, a partir de meados dos anos 1970, o cinema, a televisão e as instituições audiovisuais passaram a ter maior peso na minha vida. Estou emocionalmente ligado às duas carreiras, para usar sua expressão.

IMPRENSA: Morando dez anos em Cuba, o que o senhor aprendeu sobre o Cinema ou sobre o Jornalismo que ainda não tinha aprendido no Brasil?

OS: A melhor pergunta seria o que aprendi sobre a vida morando dez anos em Cuba. Aprendi muito, os cubanos são um povo especial, com profunda identidade, uma exuberante alegria de viver e uma História pra lá de dramática. Só para se ter uma idéia dessa força cultural, basta lembrar que Cuba, aquela ilhazinha sem nenhuma importância econômica, apenas com uma importância estratégica limitada (por estar a poucos quilômetros dos Estados Unidos), está nas manchetes dos jornais e dos telejornais de todo o mundo há um século. Não sai da primeira página e do imaginário da humanidade desde o fim do século dezenove, incidindo e interferindo nas grandes decisões do poder planetário. Durante esse meio século de regime revolucionário, Cuba surpreendeu o mundo a cada cinco ou seis anos, ininterruptamente. Às vezes surpreendia aos politicos, às vezes aos comunistas, às vezes aos economistas. Agora está todo mundo surpreendido com as aberturas promovidas por Raúl Castro. Convivendo com um povo tão surpreendente, melhorei a minha compreensão da humanidade e, por extensão, de mim mesmo.

IMPRENSA: Como o senhor chegou à EBC, depois da passagem pelo Ministério da Cultura?

OS: Por decisão do presidente Lula e indicação dos ministros Gilberto Gil e Franklin Martins. Isso tem a ver com minha gestão na Secretaria do Audiovisual, durante a qual a televisão, e particularmente a televisão pública, era foco prioritário. Foram criadas políticas públicas para o setor e modelos de negócio aplicáveis aos condicionamentos de uma TV pública, de uma TV não comercial. Foram criados programas em co-produção envolvendo emissoras de todos os estados e uma rede de emissoras públicas para a transmissão do DOCTV, um estágio experimental, um teste para a rede que está sendo organizada, neste momento, no Comitê de Formação de Rede, que conta com emissoras de 24 estados. Essa preparação institucional para a implantação de uma TV pública moderna, isenta, independente, democrática, interativa está por trás, creio, da minha indicação para a direção geral da Empresa Brasil de Comunicação, a operadora da TV Brasil.

IMPRENSA: Na sua opinião, qual foi a maior dificuldade para a criação da TV Pública? E por que se faz tantas críticas a ela?

OS: Uma cascata de dificuldades, desde a confusão que setores da sociedade e do próprio governo faziam entre TV pública e TV estatal, até a oposição das forças políticas conservadoras ao projeto, passando pela complicada operação juridica, legislativa e operacional de montar a Empresa Brasil de Comunicação, com rede de TV, sistema de rádio, agência de notícias e serviços web. E sob constante pressão, já que muita gente acha que uma nova TV pode ser criada em poucos meses, o que é um ledo engano. Quanto às críticas, existem as propositivas, cujos autores estão pensando conosco e com muita gente a construção de uma plataforma de comunicação social inédita, nova, e que são muito bem vindas. E existem dois focos de oposição: setores da mídia privada que não vêem com bons olhos a concorrência de uma televisão pública de qualidade, naturalmente disputando audiência; e a oposição política ao governo, oposição partidária, que mete a TV pública e qualquer outra coisa no saco anti-Lula, e que nada tem a ver com uma discussão séria sobre o assunto. Do nosso lado, temos o grande apoio da atividade audiovisual, o respaldo da presidência da República e uma equipe de alto nível, criativa, ousada e corajosa.

IMPRENSA : Qual é o maior diferencial da TV Brasil?

OS: É ser a primeira TV pública de abrangência nacional com princípios condizentes com essa natureza e com condições para implementar tais princípios. Estamos falando de independência com relação aos poderes político e econômico, participação da sociedade na gestão e na programação, fiscalização de um Conselho Curador, democratização do conteúdo e da distribuição, formação crítica da pessoa para a cidadania, socialização do conhecimento. E também estamos falando de novas tecnologias da comunicação, especialmente da interatividade, do diálogo constante do espectador com a televisão.

IMPRENSA: Há autonomia em relação ao governo federal na hora de produzir conteúdo? Como evitar o chamado jornalismo "chapa-branca"?

OS: Se não houvesse autonomia não seria TV pública. Uma das características essenciais de uma TV pública não é apenas não ser "chapa-branca". É não ser nem "chapa-branca" nem "chapa-preta". Ou seja, praticar o jornalismo em sua mais pura e legítima definição, que é a informação com isenção. Na TV pública tem de ficar bem claro para o espectador o que é informação (isenta, objetiva, com todos os lados da questão) e o que é opinião. Ou seja, objetividade e subjetividade não estão mesclados como acontece na mídia privada da atualidade, aqui e em todo o mundo.

IMPRENSA: O que falta para a TV Brasil virar um canal assistido por uma parcela significativa da população do País?

OS: Falta o lançamento de um novo conteúdo, de novos programas, que estão em pré-produção e que serão em grande número após o lançamento de nossos editais para produtoras independentes e regionais. Falta a organização da rede, que avança a passos largos. Falta a montagem da programação e da grade, que dependem da formação da rede. Falta uma plataforma tecnológica de última geração, cujo projeto estratégico está sendo minuciosamente trabalhado. Todas as frentes estão sendo tocadas, com planejamento e definição de metas.

IMPRENSA: O senhor acredita que o lançamento da TV Brasil tenha sido precipitado, já que é necessário um investimento prévio em antenas e formas de transmissão para permitir que o alcance seja mais eficaz?

OS: O lançamento aconteceu em 2007 porque o projeto estava maduro, resultado de cinco anos de trabalho do Ministério da Cultura e de outros setores do governo em sintonia com a atividade televisiva e audiovisual. Resultado de dois anos, 2006 e 2007, de aceleração desse processo com a instituição de grupos de trabalho e a realização do Fórum Nacional das TVs Públicas. Essa massa crítica foi construída na cooperação do governo com todos os segmentos da TV não-comercial e da TV comercial, com o setor audiovisual, com a universidade, com fornecedores de tecnologia. Era o momento em que devia acontecer, uma fruta quando amadurece demais corre o risco de estragar. Agora estamos com a fruta colhida e em cima da mesa e o que interessa é o que vamos fazer com ela. Quando digo "vamos" não me refiro apenas à equipe da TV Brasil, mas sim à sociedade brasileira.