“Se falta espaço, o texto dança. Nossa prioridade é a foto”, diz editor da National Geographic
O historiador e jornalista americano Matthew Shirts não escolheu o Brasil, foi escolhido pelo país. Em 1976, ao ganhar uma bolsa para estudar no exterior, o máximo que Shirts sabia sobre seu país de destino é que estava localizado no hemisfério sul.
Atualizado em 07/02/2012 às 16:02, por
Luiz Gustavo Pacete.
Ao chegar por aqui, estudou na cidade de Dourados, atual estado do Mato Grosso do Sul. “Foi muito difícil para mim, sobretudo por que eu não falava português”.
Matthew Shirts Mas não foi exatamente a história do Brasil que pesou em sua decisão de virar “brasileiro”. Shirts conta que um dia quando passava pela Rio – Santos, a beleza do mar chamou sua atenção. Como era surfista fanático não demorou a decidir que ficaria no Brasil. Voltou aos Estados Unidos, formou-se em História com especialização em América Latina e retornou, dessa vez para estudar na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Sociais da USP. Foi ali que virou um brasilianista. Decidido a ficar no Brasil, Shirts percebeu que como professor de história não conseguiria dar conta de manter a família. Veio então o desafio de mudar de ofício. Atuou como editor da revista Speak Up , trabalhou na Folha de São Paulo , fundou revistas de vídeo-game foi para o Estadão e passou 17 anos escrevendo crônicas no jornal. Em 2000, surgiu o convite que Shirts não pensou duas vezes para aceitar: fundar a revista National Geographic Brasil.
Shirts em Dourados, terceiro no sentido anti-horário Atualmente é redator-chefe da revista e também assina uma coluna na Veja São Paulo. Da redação da NG Brasil, em São Paulo, o bem humorado Shirts contou à IMPRENSA sua trajetória no Brasil e falou sobre a dinâmica de editar a versão brasileira de uma das revistas mais admiradas no mundo, Shirts também destacou a importância que a NG Brasil conquistou entre as edições internacionais.
IMPRENSA - Qual a relação da NG Brasil com a National mundial? Matthew Shirts - Nós recebemos um cardápio de reportagens do que vai sair com alguns meses de antecedência. A National americana costuma trabalhar com até 2 anos de planejamento. Nós ficamos com grande parte desse material, cerca de 70%. Geralmente, fazemos reportagens no Brasil para criar proximidade com o leitor. O grande desafio em todo esse processo é não destoar da qualidade americana. Além disso, temos um cuidado muito grande com a tradução, já que uma revista que tem a maior parte de seu conteúdo traduzido não pode apresentar imperfeições. O conteúdo brasileiro é submetido ao escritório nos Estados Unidos? Tudo que nós fazemos tem que passar por Washington [sede da National ]. Desde a matéria até a diagramação. Precisamos traduzir nossos textos para o inglês e mandamos para eles. Tudo isso é lido e aprovado. No início a relação era tensa, mas agora já nos alinhamos a eles. Em alguns casos fomos até citados como exemplos em convenções da NG pelo mundo.
Existe crivo político editorial por parte da Abril? Sim, passa pelo crivo editorial da Abril, representado na minha pessoa. Eu sou a última palavra nesse assunto. O crivo editorial é o bom senso.
O que norteia a escolha de pautas para a revista? A NG se pauta pela fotografia. É muito diferente de qualquer outra publicação. Se não tiver boa imagem, não tem matéria. Quem nos pauta é o fotógrafo. Temos um grupo de 10 aqui no Brasil que são ótimos e já pegaram o jeito da revista. Muitos deles estão viajando, fazendo livros e acabam colaborando conosco com o que encontram por aí. O repórter nunca viaja com o fotógrafo. Cada um conta sua história e editorialmente nós ligamos texto e foto com a legenda.
Foto da garota afegã tirada por Steve McCurry em 1984 A fotografia digital mudou a dinâmica de produção da revista? Anualmente eu participo de uma convenção promovida pela National Geographic Foundation e a questão da fotografia digital está na pauta. No começo, existia uma reação dos fotógrafos de resistência às maquinas digitais, isso acontecia por que eles tinham quantos filmes quisessem. À época, a National era a maior cliente da Kodak. Eu mesmo já cheguei a despachar profissionais com quatro malas cheias de rolo. Eles fizeram de tudo para não mudar, mas rapidamente perceberam que o digital era aliado da boa fotografia. Foi algo interessante porque muitas vezes eu ouvi que qualquer fotógrafo seria tão bom quanto os da National se eles tivessem o mesmo número de filmes. Com as máquinas digitais isso se provou falso. Os mesmos caras bons de filmes continuam bons no digital.
Qual o principal segredo para editar uma das principais revistas do mundo? A NG tem uma cultura editorial riquíssima, fotógrafos no mundo inteiro, por isso é complexo aprender a editar a revista, já que ela se propõe a contar uma história em imagens. Ela não busca imagens apenas, mas uma narrativa imagética. Sempre usando aquele método que envolve separadamente o fotógrafo e o repórter, depois juntamos isso tudo na revista conectados por meio da legenda. Quando traduzimos a revista, as matérias crescem 20% e se precisarmos cortar algo, o texto sempre dança, a foto sempre será prioridade.
Qual espaço editorial o Brasil ocupa comparado a outras nações que editam a revista? Os temas mundiais estão cada vez mais próximos. É verdade que muitas matérias são bem americanizadas, essas nós tiramos para dar espaço ao conteúdo brasileiro. Agora, o mundo está discutindo cada vez mais os mesmos temas. E eles ouvem bastante a gente nas reuniões, querem nossa opinião sobre diversos assuntos.
Cientificamente falando o Brasil desfruta de prestigio? Onde o Brasil se encaixa muito bem com a NG é na área de biologia e biodiversidade. Dentro deste tema, o assunto do momento é a Amazônia, já que nós somos donos da maior parte dela. Além disso, o Brasil pode ser o primeiro país a se desenvolver sem acabar com a natureza. Isso só fez aumentar a atenção do mundo para nós. Posso dizer que o Brasil está na “crista da onda” no mundo inteiro e com a National não é diferente.
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Matthew Shirts Mas não foi exatamente a história do Brasil que pesou em sua decisão de virar “brasileiro”. Shirts conta que um dia quando passava pela Rio – Santos, a beleza do mar chamou sua atenção. Como era surfista fanático não demorou a decidir que ficaria no Brasil. Voltou aos Estados Unidos, formou-se em História com especialização em América Latina e retornou, dessa vez para estudar na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Sociais da USP. Foi ali que virou um brasilianista. Decidido a ficar no Brasil, Shirts percebeu que como professor de história não conseguiria dar conta de manter a família. Veio então o desafio de mudar de ofício. Atuou como editor da revista Speak Up , trabalhou na Folha de São Paulo , fundou revistas de vídeo-game foi para o Estadão e passou 17 anos escrevendo crônicas no jornal. Em 2000, surgiu o convite que Shirts não pensou duas vezes para aceitar: fundar a revista National Geographic Brasil.
Shirts em Dourados, terceiro no sentido anti-horário Atualmente é redator-chefe da revista e também assina uma coluna na Veja São Paulo. Da redação da NG Brasil, em São Paulo, o bem humorado Shirts contou à IMPRENSA sua trajetória no Brasil e falou sobre a dinâmica de editar a versão brasileira de uma das revistas mais admiradas no mundo, Shirts também destacou a importância que a NG Brasil conquistou entre as edições internacionais.
IMPRENSA - Qual a relação da NG Brasil com a National mundial? Matthew Shirts - Nós recebemos um cardápio de reportagens do que vai sair com alguns meses de antecedência. A National americana costuma trabalhar com até 2 anos de planejamento. Nós ficamos com grande parte desse material, cerca de 70%. Geralmente, fazemos reportagens no Brasil para criar proximidade com o leitor. O grande desafio em todo esse processo é não destoar da qualidade americana. Além disso, temos um cuidado muito grande com a tradução, já que uma revista que tem a maior parte de seu conteúdo traduzido não pode apresentar imperfeições. O conteúdo brasileiro é submetido ao escritório nos Estados Unidos? Tudo que nós fazemos tem que passar por Washington [sede da National ]. Desde a matéria até a diagramação. Precisamos traduzir nossos textos para o inglês e mandamos para eles. Tudo isso é lido e aprovado. No início a relação era tensa, mas agora já nos alinhamos a eles. Em alguns casos fomos até citados como exemplos em convenções da NG pelo mundo.
Existe crivo político editorial por parte da Abril? Sim, passa pelo crivo editorial da Abril, representado na minha pessoa. Eu sou a última palavra nesse assunto. O crivo editorial é o bom senso.
O que norteia a escolha de pautas para a revista? A NG se pauta pela fotografia. É muito diferente de qualquer outra publicação. Se não tiver boa imagem, não tem matéria. Quem nos pauta é o fotógrafo. Temos um grupo de 10 aqui no Brasil que são ótimos e já pegaram o jeito da revista. Muitos deles estão viajando, fazendo livros e acabam colaborando conosco com o que encontram por aí. O repórter nunca viaja com o fotógrafo. Cada um conta sua história e editorialmente nós ligamos texto e foto com a legenda.
"No começo, existia uma reação dos fotógrafos de resistência às maquinas digitais, isso acontecia por que eles tinham quantos filmes quisessem. À época, a National era a maior cliente da Kodak"
Foto da garota afegã tirada por Steve McCurry em 1984 A fotografia digital mudou a dinâmica de produção da revista? Anualmente eu participo de uma convenção promovida pela National Geographic Foundation e a questão da fotografia digital está na pauta. No começo, existia uma reação dos fotógrafos de resistência às maquinas digitais, isso acontecia por que eles tinham quantos filmes quisessem. À época, a National era a maior cliente da Kodak. Eu mesmo já cheguei a despachar profissionais com quatro malas cheias de rolo. Eles fizeram de tudo para não mudar, mas rapidamente perceberam que o digital era aliado da boa fotografia. Foi algo interessante porque muitas vezes eu ouvi que qualquer fotógrafo seria tão bom quanto os da National se eles tivessem o mesmo número de filmes. Com as máquinas digitais isso se provou falso. Os mesmos caras bons de filmes continuam bons no digital. Qual o principal segredo para editar uma das principais revistas do mundo? A NG tem uma cultura editorial riquíssima, fotógrafos no mundo inteiro, por isso é complexo aprender a editar a revista, já que ela se propõe a contar uma história em imagens. Ela não busca imagens apenas, mas uma narrativa imagética. Sempre usando aquele método que envolve separadamente o fotógrafo e o repórter, depois juntamos isso tudo na revista conectados por meio da legenda. Quando traduzimos a revista, as matérias crescem 20% e se precisarmos cortar algo, o texto sempre dança, a foto sempre será prioridade.
"Posso dizer que o Brasil está na “crista da onda” no mundo inteiro e com a National não é diferente"
Qual espaço editorial o Brasil ocupa comparado a outras nações que editam a revista? Os temas mundiais estão cada vez mais próximos. É verdade que muitas matérias são bem americanizadas, essas nós tiramos para dar espaço ao conteúdo brasileiro. Agora, o mundo está discutindo cada vez mais os mesmos temas. E eles ouvem bastante a gente nas reuniões, querem nossa opinião sobre diversos assuntos.
Cientificamente falando o Brasil desfruta de prestigio? Onde o Brasil se encaixa muito bem com a NG é na área de biologia e biodiversidade. Dentro deste tema, o assunto do momento é a Amazônia, já que nós somos donos da maior parte dela. Além disso, o Brasil pode ser o primeiro país a se desenvolver sem acabar com a natureza. Isso só fez aumentar a atenção do mundo para nós. Posso dizer que o Brasil está na “crista da onda” no mundo inteiro e com a National não é diferente.
"Nosso desafio é inspirar as pessoas a cuidar do planeta", diz Matthew Shirts
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