"Se eu fosse correspondente em Brasília, cobriria os conflitos nas favelas do Rio", diz Carlos Fino, por Fernanda Campagnucci

"Se eu fosse correspondente em Brasília, cobriria os conflitos nas favelas do Rio", diz Carlos Fino, por Fernanda Campagnucci

Atualizado em 24/10/2007 às 12:10, por Fernanda Campagnucci e  estudante de jornalismo*.

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Ele foi testemunha de grandes transformações do mundo nos últimos 30 anos, como correspondente da Rádio e Televisão Portuguesa (RTP). Acompanhou os últimos anos do regime soviético em Moscou e a queda do comunismo no Leste Europeu. Foi enviado especial a várias guerras - como a Chechênia, o Afeganistão - e o primeiro repórter do mundo a noticiar o início dos bombardeios americanos ao Iraque. "Sendo correspondente em Moscou, eu me senti obrigado a cobrir esses conflitos que aconteciam no Leste Europeu.
Era um imperativo categórico profissional", explica Carlos Fino, português nascido no Alentejo.

Desde 2004, Carlos Fino entregou a carteira de jornalista para tornar-se assessor de imprensa na embaixada portuguesa em Brasília. Com 58 anos, ele se considera velho para a profissão de repórter, mas mostra, a uma platéia de 20 estudantes de jornalismo, que ainda não perdeu a forma: "Eu não poderia ser jornalista em Brasília e não ir às favelas do Rio de Janeiro ou São Paulo!", diz, ao explicar como surgiu seu interesse pela reportagem
em situações de conflito armado.

Perguntado sobre o que pensa da cobertura dos jornalistas brasileiros dos conflitos entre policiais e traficantes nas favelas - que chegam a chamar de guerra - Fino diz sentir falta de uma cobertura contextualizada, que dê conta da complexidade da situação e não se restrinja apenas ao factual: "Vejo reportagens dos incidentes, mas não a abordagem sistemática. Como se a polícia fosse resolver o problema de forma expedita".

Mas o aprofundamento dos assuntos de que tratava veio à medida que ganhou experiência. Fino conta que foi um prático da informação. "Só fui refletir sobre a profissão à medida que os anos iam passando". E hoje, se fosse começar de novo, faria diferente. "Estava completamente despreparado para isso. Não tinha preparação militar, não conhecia o Direito Internacional. Lancei-me de cabeça nesse mar", reconhece.

Os estudantes de jornalismo em torno dele, livro "A guerra ao vivo" à mão - um relato do jornalista sobre o Afeganistão, o conflito israelo-palestino e o Iraque - escutam com atenção o que o veterano tem a dizer. Fazem parte da sexta turma do curso de Jornalismo em situações de conflito armado realizado pela ONG Oboré, em parceria com a Cruz Vermelha,
e anotam as recomendações de alguém que já sobreviveu a tudo o que eles pensam viver um dia: "O repórter deveria conhecer as convenções internacionais, o direito humanitário, noções de auto-defesa e primeiros socorros antes de ir a campo", expõe Fino.

Jornalismo humanitário

Em uma guerra, o jornalista que segue a cobertura de forma independente - sem se vincular a nenhum dos lados do conflito - está extremamente vulnerável. Fino explica que, no Iraque, aqueles que tentaram fazer isso foram "rapidamente eliminados". No caso dessa guerra, ele tinha um compromisso com o regime iraquiano, porque deveria renovar o visto constantemente. Mas entende aqueles que estiveram "embutidos" ( embedded ) no exército americano: "Não se pode reportar sem estar. E essa foi a forma que eles conseguiram para estar lá".

A solução, para ele, estaria na criação de um estatuto especial para os jornalistas, a exemplo do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, que oferece ajuda humanitária de forma neutra. "Não somos neutros. Devemos tentar ser objetivos, ater-se aos fatos, mas somos mediados por nossa subjetividade". Ele acredita, porém, que há uma tarefa comum entre os
jornalistas, que deveriam ser protegidos para tanto. "Somos uma espécie de porta-bandeira dos valores consensuais da humanidade: a favor da democracia e contra as ditaduras, contra a tortura, contra a violação dos direitos humanos".

A idéia é difícil - se não impossível, diz - de ser aplicada. A informação, explica Fino, foi agregada aos elementos tradicionais de uma guerra e ela pode mesmo desencadear ações e ataques: "Na guerra, a informação serve até para desinformar". Ele lembra que as imagens que abriram vários telejornais ocidentais com uma manifestação a favor dos americanos eram falsas: "as pessoas estavam ali para manifestar solidariedade a Saddam e isso somente o canal árabe Al Jazeera mostrou", afirma.

* Fernando Campagnucci é estudante de jornalismo. Para entrar em contato, envie um e-mail para .