“Se atacam até jornalistas de renome nacional, imagina risco que correm profissionais locais”, por Wagner de Alcântara Aragão

É preciso jogar luz em cada uma das denúncias e casos que surgirem, bem como acompanhar e cobrar providências judiciais cabíveis, sejam envo

Atualizado em 26/09/2022 às 12:09, por Wagner de Alcântara Aragão.

Opinião

O ataque, que beirou a agressão física, sofrido pela jornalista Vera Magalhães, promovido pelo deputado estadual de São Paulo Douglas Garcia (Republicanos), é mais uma evidência de degeneração da nossa democracia. Virou rotina, e isso não pode ser aceitável, nem naturalizado. Afinal, se esses grupos atacam até profissionais de renome nacional, imagine-se só o risco a que jornalistas de atuação local não estão sujeitos.


Aliás, aqui mesmo no Portal IMPRENSA há notícia recente nesse sentido. Vem de Londrina, onde, conforme denúncia do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná, uma repórter, Carol Romanini, foi demitida da RIC TV, afiliada da Record TV, por pressão política. Esta, segundo informe do Sindicato, exercida pelo deputado federal Felipe Barros (PL-SP). Caso que não pode ter repercussão limitada à região.


lvendo veículos da grande mídia, sejam envolvendo profissionais de imprensa local. Estes, por não contarem com os holofotes, ficam ainda mais suscetíveis a coações de todo tipo – de rompantes que se encerram em si mesmos, até atentados, ameaças e ataques concretos realizados.


Crédito:Redes Sociais Vera Magalhães e Douglas Garcia após o debate na TV Cultura



É um risco à integridade física de cada um, cada uma dos profissionais. Risco à suas vidas.


E risco à democracia; mais ainda, ao processo civilizatório. Se num espaço monitorado, cercado de câmeras e pessoas, um deputado se sente encorajado a partir para cima de uma mulher no exercício de sua profissão, imagina se o encontro fosse em um ambiente menos vigiado! Imagine: o que não pode passar o repórter de uma rádio comunitária, o profissional de um jornal de uma cidadezinha que não compactua com as ideologias desses grupos minoritários, mas raivosos e se sentido representados por altos escalões do poder?


Perde a sociedade como um todo, e não só os profissionais e seus veículos de mídia. Porque, nessa atmosfera de coação, os reais e graves problemas, dos mais locais aos nacionais, tendem a gradativamente a sumirem dos veículos, não serem questionados, nem seus responsáveis interpelados. Como um site de uma cidade vai estar seguro em noticiar desvios e desmandos, se na esquina o jornalista pode ser vítima de uma arapuca? Como um profissional vai fazer a pergunta que deve ser feita, intimidado pelo risco de ser ele ou ela própria, ou sua família, ameaçados das mais cruéis violências?


Basta! Está na hora não só de as associações de classe, movimentos e organizações sociais, mas sobretudo na hora de as instituições da República constituírem para já um grupo de trabalho, uma força tarefa de combate e prevenção a ataques à liberdade de comunicação.


Crédito:Arquivo Pessoal

* é doutorando em Comunicação (UFPR), jornalista e professor da rede estadual de educação profissional do Paraná. Mantém um veículo de mídia alternativa (www.redemacuco.com.br), ministra cursos e oficinas nas áreas de Comunicação e realiza projetos culturais.