Saudades de quem foi embora antes da hora
Saudades de quem foi embora antes da hora
Acordei no começo da semana e um pensamento estranho passou pela minha cabeça. Em todo o tempo da agência, sete anos e meio, um único cliente morreu. Lúcia Fachga, uma grande empreendedora, proprietária da Fachga Chocolatier. "Quem será o próximo?", pensei. À tarde, o telefone toca e a notícia da passagem do publicitário Luiz Celso Piratininga, da ADAG e presidente da ESPM, que eu sequer sabia estar hospitalizado. Não tenho nenhum dom premonitório, podem ficar tranquilos, foi apenas um insight.
Lúcia nunca saiu do meu pensamento, guardo boas lembranças de uma empreendedora que soube me ouvir e ensinar. Indicada por uma amiga, fui um dia até sua pequena fábrica de chocolate na Vila Sonia, em São Paulo. O cheiro inebriante do chocolate deixa qualquer reunião mais gostosa. Com seu jeitão simpático, não foi nada difícil o entrosamento. O problema é que enquanto ela contava a respeito do trabalho, eu me questionava como poderia ajudá-la. Afinal, era uma fábrica pequena, comandada por uma mulher sozinha e com uma lojinha própria no bairro. Como colocá-la na mídia, era o pensamento que mais passava na minha cabeça, quase querendo dizer "não".
Perguntei o que pretendia lançar numa feira de alimentação que aconteceria dentro de alguns dias. Meio perdida, ela me disse, sem certeza, que talvez uns chocolates recheados de tomate, rosas ou pimenta. Isso em 2002. Imediatamente meus olhos brilharam e a papila degustativa saltitou inebriada (seria isso possível?). Era o que eu precisava: uma empreendedora de verdade.
Meses depois, na coletiva de imprensa da entidade do setor, ela apresentou o Ovo de Páscoa com Pimenta. Um sucesso na mídia. Saiu em vários lugares, inclusive nos telejornais. Na metade do ano, saiu o anúncio de que Walcyr Carrasco escrevia a novela Chocolate com Pimenta. Lúcia ficou eufórica e queria de todo jeito falar com a Rede Globo. Apresentei-a para uma amiga da Globo Marcas e aquela pequena indústria da Vila Sonia passou a fabricar o chocolate com a logomarca da novela da maior emissora do País. Não ganhou dinheiro, talvez por inexperiência, mas abriu portas importantes e pulou alguns degraus.
Depois desses episódios sempre ficava aflita para desenvolver um produto diferenciado, algo que ninguém ainda tivesse feito. Entendeu que isso gerava notícia. Gastava horas atendendo as equipes de TV em sua fábrica mesmo sabendo que o nome da empresa não seria veiculado. Nosso press-kit para coletiva de imprensa da Abicab nunca poderia ser simples, igual aos outros. Era o charme do artesanal, do cuidado especial sobre cada detalhe. Seu estande ficava localizado entre os gigantes do setor e não estava nem aí. Agigantava-se também com sua simpatia e carisma.
Das férias - que nunca tirava e que tanto incentivei a ir - não mais voltou. Os telefonemas recebidos dos jornalistas e as mensagens enviadas de colegas da imprensa demonstraram que ela, realmente, fazia diferente. Deu saudades.






