Salão do Jornalista Escritor reúne 2,1 mil na capital paulista

Salão do Jornalista Escritor reúne 2,1 mil na capital paulista

Atualizado em 16/11/2007 às 11:11, por Cristiane Prizibisczki/Redação Portal IMPRENSA.

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São Paulo sedia, desde a última quinta-feira (15), o 1º Salão Nacional do Jornalista Escritor. Mais do que um espaço de debates, o Salão é um local de encontro entre velhos amigos, conhecidos, colegas de profissão e, é claro, entre fãs e seus ídolos. O primeiro dia do evento reuniu cerca de 2,1 mil pessoas.

As atividades são sempre divididas em dois formatos: entrevistas, na qual a platéia faz a vez do jornalista e sabatina o convidado, e as palestras, com dois ou mais expositores e sobre temas ligados não somente às experiências dos profissionais da comunicação que se enveredaram pelo mundo da literatura, mas também sobre a profissão e a dificuldade e os prazeres em exercê-la.

Quem abriu as atividades foi Luis Fernando Veríssimo, com sua fala pausada e trato delicado. A conversa, conduzida pelas perguntas da platéia, foi muito além do divã do "Analista de Bagé" ou da inocência da "Velhinha de Taubaté. Nela, o escritor pôde contar sobre a primeira vez que se viu em uma redação, a influência de seu pai - Érico Veríssimo - em sua obra, seus livros, entre outros. "Cometi cinco romances, mas sou, principalmente, jornalista. Já fiz de tudo na redação, até horóscopo. O engraçado é que eu fazia as previsões e, no dia seguinte, ia ler para ver o que tinha para libra [o autor é libriano], o que o destino me reservava", brincou Veríssimo.

O segundo sabatinado do dia foi Ruy Castro, que não poupou argumentos para defender a biografia - gênero que o consagrou como escritor - e o rigor jornalístico na apuração. Prova disso é o numero de entrevistas que faz para produzir seus livros: são cerca de 1 mil, para cada um deles. "Tive pelo menos 30 encontros com Elza Soares. Mas começar pela pessoa mais próxima do biografado é um erro. Só fui conversar com ela depois de um ano, mais ou menos, porque a gente tem que se preparar violentamente para a entrevista, para não perder tempo com perguntas banais, que todo mundo já sabe ou que alguma outra pessoa ligada ao entrevistado possa saber", disse, referindo-se ao "Estrela Solitária", biografia do jogador Garrincha.

Durante a sabatina, o escritor também não deixou de dar sua opinião -já bastante conhecida - sobre o gênero livro-reportagem, que, para ele, é produto do "oportunismo" de alguns jornalistas. "Não acho que reportagem caiba em livro. Para se fazer uma coisa boa, é necessário muito tempo de apuração. O livro dura 100 anos e não é justo que uma coisa ruim [referindo-se ao livro-reportagem] sobreviva por todo esse tempo", defendeu.

Convidado a comentar a frase do autor de "Estrela Solitária", Ricardo Kotscho, que também esteve presente, disse: "Hoje há muitos rótulos: jornalismo literário, jornalismo investigativo, livro-reportagem...Eu não gosto de rótulos. Eu acho que tem histórias bem contadas e histórias mal contadas. Muitas reportagens minhas viraram livros, mas não foram feitas para livros-reportagem. É que eram textos muito grandes e os editores achavam que deveria permanecer em forma de livro. A gente vive é de escrever. Onde vai sair não faz diferença", disse, com exclusividade, ao Portal IMPRENSA.

Kotscho, que dividiu o palco com Heródoto Barbeiro, em sua fala, contou as histórias do "Repórter do Pipoqueiro" - como ficou conhecido - e ensinou como fazer uma boa reportagem, independentemente da plataforma usada."O jeito de escrever é o mesmo, seja para jornal, revista ou livro. A gente tem que conversar com o leitor como se fosse com um velho amigo", disse.

Heródoto Barbeiro, com seu estilo mais objetivo - talvez por influência da formação primeira como historiador -, também contou suas histórias, os caminhos que traçou até chegar em uma redação e como concilia a profissão de jornalista com a de escritor. "Já tinha livros publicados antes de ser jornalista, mas acho que escrevia pior, porque, quanto mais você é pedante e pseudo-intelectual na academia é melhor. Quando virei repórter, entendi que precisava escrever simples. Imagine que eu só escrevia com verbos no passado. Quando escrevi, pela primeira vez, um verbo no presente, para mim foi um abalo", brincou o jornalista.

O último encontro da noite foi com o diretor do Le Monde Diplomatic, Ignácio Ramonet. Importante pensador, sociólogo e teórico da comunicação, o diretor falou da "crise de credibilidade" pela qual passam os meios de comunicação. "Não creio em uma idade de ouro do jornalismo. Ele sempre foi difícil, mas hoje existe uma característica muito particular, que é o sentimento de 'insegurança informativa'. Hoje há menos garantias d que a informação seja verídica", avaliou.

Entrevistas, debates, palestras, exposições, lançamento de livros e atrações infanto-juvenis foram a 'desculpa' para o grande bate-papo realizado entre escritores, estudantes, profissionais da mídia - ou não-, durante o 1º dia do Salão Nacional do Jornalista Escritor. Para os que perderam, ainda há tempo: o encontro será realizado por mais três dias.

Nesta sexta-feira (16), Jaguar, Carlos Heitor Cony, Fernando Portela e Audálio Dantas estão entre os convidados. No sábado (17), é a vez de Eric Nepomuceno, Ziraldo, Ignácio de Loyola Brandão e Mylton Severiano contarem suas histórias. No domingo (18), sobem ao palco - para sabatinas ou palestras - Caco Barcellos, Eliane Brum, Florestan Fernandes Jr, entre outros. Todas as atividades têm entrada gratuita, basta chegar um pouco antes para retirar a senha.

Realizado como parte das comemorações dos 100 anos da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), o 1º Salão Nacional do Jornalista Escritor ocorre sempre no Auditório Simon Bolívar, no Memorial da América Latina, em São Paulo. Para conferir a programação completa do evento, .