“Rússia e Irã: aliados até na censura à imprensa”, por Sergio Bialski
Rússia e Irã caminham na mesma direção do ostracismo, na medida em que adotam leis punitivas para silenciar a população.
Opinião
No dia 15 de setembro de 2022 um dos raros meios de comunicação independentes da Rússia, o “Novaya Gazeta”, teve a licença do seu site jornalístico revogada apenas dez dias após a versão impressa ser vítima da mesma decisão. Foi o tiro de misericórdia dado pelo governo de Vladimir Putin à imprensa livre que teimava em criticar a “operação militar especial” da Rússia, chamando-a de guerra e de agressão não provocada a uma nação pacífica – no caso, a Ucrânia. A justificativa usada foi acusar o veículo de comunicação de ser um agente estrangeiro e desestabilizador da ordem, pois não cumpria as leis impostas pelo Kremlin, desde o início do conflito, que impedem a publicação de notícias contrárias aos interesses militares de Moscou. A decisão de censura foi tomada pela agência federal que controla a mídia russa, a “Roskomnadzor” - Serviço Federal de Supervisão de Comunicações, Tecnologia da Informação e Comunicação de Massa.
Nunca é demais lembrar que, além da censura, seis jornalistas do “Novaya Gazeta” foram assassinados, desde a fundação do jornal, em 1993. Anna Politkovskaya é um dos mais pródigos casos de assassinato, em 2006, após ter denunciado o regime de Putin por corrupção, violações de direitos humanos e abusos cometidos por autoridades durante a guerra na Chechênia. O próprio Dmitry Muratov, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz de 2021 e é um dos fundadores do “Novaya Gazeta” sofreu um ataque com tinta vermelha misturada com acetona dentro de um trem.
No Irã, um dos raros países aliados da Rússia na guerra contra a Ucrânia, a situação não é diferente. Lá é o “Conselho Supremo de Segurança Nacional" que desempenha o papel de censura e perseguição à imprensa. O caso mais recente é do jornal econômico Jahan-é Sanat, que foi recém fechado, em 21/11/2022, por publicar matérias que acusavam as forças de segurança do país pela violenta repressão aos protestos iniciados pela morte de Mahsa Amini. A jovem morreu em 16/09/2022 após ser presa pela polícia da moralidade, supostamente por estar usando de forma incorreta o véu islâmico que compõe o código feminino de vestimenta. Vale lembrar que, no final de outubro, mais de vinte jornalistas permaneciam detidos por conta de tornarem público o que o mundo já sabe: violações sistemáticas dos direitos humanos, repressão à liberdade de imprensa, corrupção entre a elite política iraniana, pobreza crescente com inflação de mais de 50% e a falta de esperança generalizada, especialmente entre a população mais jovem.
Especialistas independentes, nomeados pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, afirmam que ambos os governos alegam que o objetivo é sempre “proteger a verdade”, quando na realidade colocam esses países em um apagão de informações, impedindo a investigação e responsabilização por violações e abusos ao direito à informação e liberdade de expressão. Infelizmente, 2 de novembro, conhecido como “Dia Internacional de Combate à Impunidade de Crimes Contra Jornalistas”, reporta dados nada animadores. De acordo com o alto comissário da ONU para direitos humanos, Volker Türk, na última década 958 jornalistas foram assassinados no mundo, mais de mil foram presos e 64 estão desaparecidos. Desde 2006, apenas 13% dos assassinos de jornalistas foram julgados adequadamente. Para ele, o ideal seria reforçar os sistemas nacionais de justiça criminal, equipando-os com unidades especiais de investigação ou estruturas de investigação independentes e garantir que eles tenham a experiência e os recursos necessários para lidar com esses crimes, mesmo quando cometidos por quem está no poder.
É bem sabido que o jornalismo trabalha com fatos, tem absoluto compromisso com a verdade e sempre apresenta a melhor versão possível de algo que ocorreu, após a apuração com diversas fontes. Narrativas, contudo, são construções de fatos e é aí que mora o perigo, afinal, a imprensa estatal em países autocráticos legitima as políticas estatais e reproduz histórias inverossímeis. Isso mostra a situação perigosa em que vivemos, afinal, onde o Estado se impõe como força operante calando e denegrindo as vozes dissonantes, fica difícil existir a expansão da liberdade de pensamento. Tal como afirmou certa vez o jornalista birmanês, Win Tin, “a liberdade da informação é aquela que permite verificar a existência de todas as outras”. Sem ela, ruímos como sociedade.
*Sobre o Professor : Graduado e Pós-Graduado em Comunicação pela USP. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP. Possui mais de 20 anos de experiência no mundo corporativo, atuando como Gerente de Comunicação em empresas multinacionais. Coautor de 6 livros, palestrante e professor universitário, há mais de 10 anos, nos cursos de Publicidade, Relações Públicas e Jornalismo. É ganhador do Prêmio "Professor Imprensa 2018", promovido pelo Portal Imprensa, tendo sido eleito “o mais inspirador professor de Comunicação da Região Sudeste do Brasil”, em votação pública. Para obter mais informações, acesse: www.sergiobialski.com.br





