Rússia condena jornalista por traição e fecha principal veículo investigativo do país

Considerado símbolo mundial de liberdade de imprensa, o jornal russo Novaya Gazeta teve destituída sua licença de mídia nesta segunda-feira

Atualizado em 05/09/2022 às 15:09, por Redação Portal IMPRENSA.

(5) após o Rozkomnadzor, órgão de vigilância de mídia do país, acusar o veículo de não fornecer documentos relacionados a uma mudança de propriedade ocorrida em 2006.
Em março último, o veículo havia sido obrigado a suspender suas operações na Rússia depois de violar novas leis que impõem censura à cobertura da guerra na Ucrânia. Desde então, a equipe criou um canal de notícias online na Europa, mas suas publicações também foram bloqueadas na Rússia.
Ganhador do Prêmio Nobel da Paz do ano passado por sua defesa da liberdade de imprensa, Dmitry Muratov, editor-chefe do Novaya Gazeta, disse que a decisão, tomada pela Corte Distrital de Basmanny, em Moscou, não tem base legal e que o veículo irá recorrer. Crédito: Reprodução Dmitry Muratov, editor-chefe do jornal Novaya Gazeta e ganhador do Prêmio Nobel da Paz: "vamos recorrer" Em um comunicado, o Novaya Gazeta acrescentou que a decisão “matou o jornal, roubou 30 anos de vida de seus funcionários e privou os leitores do direito à informação”. Por sua vez, o escritório de Direitos Humanos das Nações Unidas classificou o julgamento como “mais um golpe para a independência da mídia russa”.
Fundado em 1993 com dinheiro do Prêmio Nobel da Paz recebido por Mikhail Gorbachev, o jornal é considerado o principal veículo de notícias investigativas da Rússia.
Caso Safronov

Também nesta segunda-feira, o jornalista russo Ivan Safronov, que estava sendo julgado por traição, foi condenado a 22 anos de prisão. Antes de se tornar assessor do chefe da agência espacial russa, em maio de 2020, Safronov trabalhou para os jornais Vedomosti e Kommersant. Durante esse período, ele é acusado de ter passado segredos militares sobre vendas de armas russas no Oriente Médio e na África para a República Tcheca, país membro da Otan.
Safronov está preso dese julho de 2020 e nega as acusações. Segundo os promotores, ele cometeu o crime depois que colaborou com um site de notícias tcheco. O juiz do caso ignorou como álibi um artigo do site investigativo russo Proekt, que mostra que a informação que Safronov foi acusado de divulgar estava disponível online.
Fortemente acentuada com a guerra na Ucrânia, a censura russa sobre o jornalismo produzido e veiculado no país levou ao colapso de todo um ecossistema de veículos de notícias independentes, isolando cada vez mais o público local do resto do mundo.
A repressão estatal recrudesceu com uma mudança no Código Penal aprovada oito dias após a invasão da Ucrânia. Com ela, tornou-se crime a divulgação de quaisquer “informações falsas” envolvendo o exército russo e a guerra com o país vizinho. De acordo com a lei, os jornalistas não podem descrever o conflito como uma “guerra”, e sim como “operação militar especial”.
Quem for considerado culpado tem que pagar multas cujos valores equivalentes em reais ultrapassam os R$100 mil. Caso as "falsidades" sejam sobre os militares russos, os jornalistas podem ser condenados a penas de até 15 anos de prisão.
Desde que a lei foi aprovada, mais de 30 meios de comunicação russos foram forçados a fechar, incluindo Meduza, The Moscow Times, TV Rain, Znack e The Bell.