RSF acusa China de manipular cobertura dos Jogos Olímpicos
RSF acusa China de manipular cobertura dos Jogos Olímpicos
Nesta terça-feira (26), a organização não-governamental Repórteres Sem Fronteiras (RSF) emitiu um comunicado no qual acusa o governo chinês de ter estabelecido uma diretiva "politizando" e manipulando a cobertura dos Jogos de Pequim, segundo informações da BBC.
As autoridades chinesas obrigaram a imprensa local a seguir uma lista de diretrizes que continha 21 pontos durante a cobertura das Olimpíadas, sob pena de ser notificada pelo Departamento de Propaganda do governo.
Somente agora a RSF conseguiu ter acesso ao documento das diretrizes, que foi postado na internet por um blogueiro chinês, mas que já havia sido mencionado pelo jornal de Hong Kong South China Morning Post , em uma reportagem publicada há cerca de duas semanas.
"Nós pedimos que o Comitê Olímpico Internacional, COI, investigue essa diretiva de censura, que é uma violação das garantias dadas em 2001 e um desrespeito ao livre fluxo de notícias na China", afirma o comunicado da RSF.
De acordo com a organização, o documento revela que "o Partido Comunista, organizador dos Jogos, estava claramente com medo de que o evento fosse atrapalhado por notícias sobre esporte, política e internacional".
A lista com 21 pontos detalha tópicos que a imprensa chinesa teve de evitar mencionar durante a cobertura do evento, sendo que alguns assuntos são claramente delicados, mas outros não apresentam razão para polêmica à primeira vista.
"Não é surpresa que o departamento de censura do Partido Comunista tenha banido a cobertura sobre demonstrações de grupos pró-Tibete ou a existência de áreas para protesto em Pequim, mas as instruções relativas à segurança alimentar e aos resultados da equipe chinesa são espantosas", afirmou a ONG.
Entre as restrições aos jornalistas estava o ponto 21, que proíbe os profissionais da imprensa de questionar o desempenho dos atletas e o processo de seleção para o time olímpico chinês. Na prática, vários talentos são recrutados muito jovens e vão para campos de treinamento quando ainda são crianças.
No item 17, o documento estabelece que a imprensa deve se ater à versão oficial dos fatos publicada pela agência estatal Xinhua, ao reportar incidentes envolvendo estrangeiros. Um exemplo disso foi o caso do turista americano esfaqueado no segundo dia da competição olímpica na Torre do Tambor em Pequim. Jornalistas chineses chegaram a apurar informações independentemente, mas tiveram seus blocos de notas apreendidos por agentes do governo.
Já o ponto 19 repete, claramente, que os jornalistas devem reportar de maneira "positiva" as questões de segurança. No ponto 13, a ordem é não noticiar informações sobre Mianmar, Darfur e Coréia do Norte, tópicos da política externa chinesa que são visto com reprovação pelo ocidente.
Além disso, a diretriz também proíbe qualquer menção à existência de alimentos cancerígenos na capital (ponto 8), o desbloqueio de sites censurados na internet, incluindo o da RSF (ponto 2), e críticas à cerimônia de abertura (ponto 10).
Com relação à cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos, a polêmica ficou por conta da revelação que a artista mirim que cantou na abertura estava apenas fingindo, já que a canção era na verdade uma gravação com a voz de outra menina. Depois de ter sido amplamente debatido pela imprensa ocidental, o assunto chegou a ser noticiado pela imprensa estatal, mas foi vetado de ser veiculado pelo governo assim que internautas começaram a expressar em fóruns da rede revolta com o ocorrido.
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