Rodrigo Manzano decreta: Jean ganhou. E o debate perdeu

Rodrigo Manzano decreta: Jean ganhou. E o debate perdeu

Atualizado em 30/03/2005 às 11:03, por Rodrigo Manzano.

Ontem, o jornalista e professor universitário Jean Willys saiu vitorioso da quinta edição do Big Brother Brasil. Levou para casa nada menos que um milhão de reais e a rápida ascensão à categoria de celebridade, para usar uma palavra que entrou na moda nestes dias de tantos candidatos a um concorrido lugar no cume do Olimpo construído pelos meios de comunicação de massa, em especial a televisão.

A trajetória de Jean foi acompanhada por um insistente discurso em torno da tolerância aos homossexuais e a um provável avanço da sociedade brasileira em relação à comunidade gay. Os cinco paredões a que foi submetido - e em que saiu vitorioso, um a um - trataram de levantar um frágil monumento que simbolizaria o amadurecimento das relações entre os gêneros. As imagens televisivas transformaram, ilusoriamente, o campo das guerrilhas diárias em território de paz. A vitória de Jean tem um efeito placebo na luta dos homossexuais. Ela é tão insignificante quanto a participação da cearense Natalia. O fato da candidata a BBB e sósia de Iracema - "a virgem dos lábios de mel" - ter sido um dos destaques do reality show e ter posado para a Playboy não vai reduzir os problemas que cercam a vida dos indígenas brasileiros.

Ao levar a fortuna e a efêmera fama, Jean nos deixa como legado a ilusão de que sua vitória provoque um debate efetivo sobre a tolerância em relação aos homossexuais. Até mesmo o discurso de que "mesmo gay, o professor provou que é igual a todos" acaba por esconder as diferenças e anular o papel da tolerância. Afinal, só se é tolerante àquilo que é diferente.

Se os 55% dos votos que garantiram a vitória de Jean fossem, de fato, representativos e apontassem para uma equivalência entre as relações de gênero na sociedade, fenômenos como aqueles que são constantemente denunciados pelos grupos de militância gay teriam impacto de muito maior amplitude na mídia. Se ainda morrem homens e mulheres no Brasil simplesmente porque amam pessoas de mesmo sexo, o resultado do BBB é uma esquizofrenia, está descolado daquilo que de fato acontece nas ruas. Severino Cavalcanti - aquele que perguntou a um militante se ele era ativo ou passivo na respeitável Câmara dos Deputados - não seria sequer síndico de condomínio. E as noites de sábado na Globo não teriam sido recheadas das obviedades preconceituosas e do jargão do pai que pergunta, diante do filho supostamente gay, "onde foi que eu errei?".

Para reduzir uma causa - qualquer que seja ela - não há nada melhor que adotá-la. Foi assim com o feminismo, com a contra-cultura de 68, com as esquerdas e com os movimentos raciais. No interior dos meios de comunicação de massa, todos perderam a força. Ser mulher reduziu-se à garantia do trabalho fora de casa. Ser revolucionário, a praticar o sexo livre. Ser comunista, a ter uma camiseta com a imagem do Che. E ser negro, a assumir os cabelos. Ou alisá-los.

Se a miss Graziella tivesse ganhado o prêmio, ao menos estaríamos discutindo a possibilidade de que entre uma loira e um gay, a sociedade preferiu a loira porque o preconceito venceu os avanços. Talvez estaríamos pautados a perguntar se o professor teria perdido porque é gay. Ganhando Jean, perde o debate.

Legitimado por um milhão de reais, Jean deixa de ser gay. Não importa com quem ele dorme. Esse é um dado irrelevante. A bem-sucedida trajetória de Jean no BBB não significa o triunfo da diferença. Porque ele pode até ser capa da Caras junto com o namorado. Mas isso não garante que ele possa andar de mãos dadas com seu parceiro nas ruas.

é colaborador da revista IMPRENSA, professor universitário e pesquisador em Comunicação e Semiótica da PUC/SP