Roberto Romano decreta: "Chico esqueceu que não é um Buarque de Hollanda qualquer. Porém, a coluna da Mônica Bergamo deveria ter o mínimo de respeito com ele"

Roberto Romano decreta: "Chico esqueceu que não é um Buarque de Hollanda qualquer. Porém, a coluna da Mônica Bergamo deveria ter o mínimo de respeito com ele"

Atualizado em 11/03/2005 às 17:03, por Renata Toledo Piza - renatapiza@portalimprensa.com.br.

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Fotos: João Kopke

Em entrevista à edição de abril da revista IMPRENSA, o professor de ética e filosofia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) analisa a repercussão do affair de Chico Buarque com uma mulher casada e o tratamento que a mídia deu ao caso: "A responsabilidade ética está dos dois lados".

IMPRENSA: Há cerca de uma semana, Chico Buarque foi fotografado tomando um banho de mar com uma moça casada. O affair foi capa de revistas e assunto de programas de TV. Neste caso, especificamente, onde está o limite entre o ético e o anti-ético, entre a intimidade e a liberdade de imprensa?
Romano:
A questão da intimidade das pessoas célebres é um problema sério. Esse valor da intimidade começou a ser esgarçado na sociedade do espetáculo, da comunicação de massas. Hollywood foi uma grande indústria para devassar a intimidade, a sociedade passou a consumi-la. A televisão se transformou num espetáculo de exibicionismo. A dimensão do voyeurismo foi estendida em escala cósmica. Você pode se perguntar hoje se existe de fato intimidade, se uma pessoa pública pode colocar a intimidade como direito seu. Se fôssemos fazer um julgamento ético de imprudência por parte do Chico, o primeiro passo é que ele esqueceu que é o Chico, não é um Buarque de Hollanda qualquer...Sabendo que a mulher é casada, a imprudência aumentou. Por outro lado o jornalista que flagrou a cena poderia ter um pouco de prudência. Há algumas regras de respeito humano. A responsabilidade ética está dos dois lados. Agora, o mais grave nisso tudo é a entrevista do marido da moça: dizer que o Chico deveria ir para uma clínica geriátrica? Aí está a classe média vagabunda brasileira funcionando. Na cabeça da classe média, quem passa dos 40 anos é um velho que não tem direito à sexualidade, ao ciúme. Que não tem direito a nada. Por outro lado, a [coluna da] Mônica Bergamo, embora seja uma coluna de voyeurismo, deveria ter o mínimo de respeito para com o Chico neste caso. Poderia ter dito ao marido da moça ‘olha, eu vou colocar a entrevista até esse ponto em que você está achando ruim o assédio da imprensa’. Isso é legítimo, apesar de que não sei até que ponto esse assédio é indesejado. Acho muito difícil encontrar – salvo, talvez, o hipócrita – um sujeito que não goste de falar com jornalista. Há um condicionante narcísico, militante, há uma série de coisas que faz com que as pessoas falem com a imprensa. O padrão ético de todos os envolvidos está em questão. Mas o interessante é que até hoje eu não vi uma declaração dele condenando a imprensa ou alguém. O Chico manteve uma prudente reserva, isso é importante.

Leia entrevista completa na edição de abril da revista IMPRENSA