Ricardo Noblat repercute com jornalistas conteúdo postado em blog da Petrobras

Ricardo Noblat repercute com jornalistas conteúdo postado em blog da Petrobras

Atualizado em 09/06/2009 às 16:06, por Redação Portal IMPRENSA.

A pedido do jornalista Ricardo Noblat, autor do , nomes de peso do Jornalismo, como Euripedes Alcântara, diretor de redação da revista Veja , Sergio Lirio, redator-chefe da CartaCapital, e Luiz Antonio Novaes, editor-executivo do jornal O Globo , fizeram comentários sobre o blog da Petrobras - que tem divulgado perguntas enviadas por jornalistas à sua assessoria de imprensa antes da publicação das reportagens.

A primeira crítica, de autoria de Euripedes Alcântara, foi publicado no Blog do Noblat às 14h01. Intitulado "Censura criativa, mas censura", o texto explica que a decisão da estatal pode ter amparo jurídico, mas "é claramente uma posição de força sem precedentes no convívio entre empresas privadas de mesmo porte e, ainda, mais violenta quando tomada por uma empresa que pertence ao povo brasileiro, seu controlador".

Para o diretor de redação de Veja , um posicionamento deste tipo "só faria sentido se fosse iniciativa de uma nação estrangeira contra jornalistas brasileiros em uma situação de guerra externa". Na sua opinião, uma medida sadia seria "gravar as entrevistas concedidas à imprensa (...) e, uma vez constatada que a edição desfigurou a mensagem original ou colocou as informações fora de contexto, dar publicidade à íntegra da conversa com a ênfase nos trechos suprimidos ou desfigurados".

"Atropelar a apuração jornalística é uma forma de censura, muito criativa, sem dúvida, mas censura", conclui Alcântara.

Sergio Lirio, redator-chefe da CartaCapital

O segundo texto, "Deselegância e intimidação", foi escrito por Sergio Lirio e publicado no blog às 15h03. Nele, o redator-chefe da CartaCapital diz que "publicar as perguntas dos jornalistas antes de o material ser publicado nos respectivos veículos é mais do que um ato de deselegância. Cheira um pouco a intimidação, incompatível com uma empresa que afirma não temer as investigações".

Segundo ele, a iniciativa é inútil, "pois acaba por gerar um noticiário negativo à empresa, justamente o que os estrategistas de comunicação da Petrobrás almejam evitar". Lirio acredita que seria perfeitamente normal se a companhia utilizasse o blog "para publicar a íntegra das perguntas e respostas após o material sair publicado ou prestar esclarecimentos adicionais a respeito de uma determinada notícia. Principalmente se a edição sonegar ou distorcer informações prestadas".

"Sabemos que durante CPIs a imprensa costuma fazer o contrário do que deveria: torna-se menos e não mais criteriosa e vigilante na seleção e divulgaçao dos fatos, sob a desculpa das pressões da competição pelo furo, além de frequentemente se deixar usar por interesses particulares ou eleitorais travestidos de interesse público", comenta.

Ele ainda afirmou no texto que "outro comportamento bastante comum da mídia nesses momentos é ignorar com mais frequência seus erros e não conceder a um indivíduo ou empresa atingidos o devido espaço de retratação". Ao analisar o comportamento da Petrobras, Lirio entende que "quem já foi injustamente alvejado por CPIs sabe bem o que isso representa. No caso de uma companhia com ações nas Bolsas de Valores, milhões de dólares em contratos e sentada sobre reservas espetaculares de gás e petróleo, os prejuízos podem ser incalculáveis e irreversíveis".

Luiz Antonio Novaes, editor-executivo de O Globo

Às 16h03, Noblat postou o comentário de Luiz Antonio Novaes sobre o assunto. Em " Um erro, um abuso, um disparate", o editor-executivo do Globo afirma que o risco de vazamento é inerente à atividade jornalística. "O que é surpreendente e sui generis, nunca antes visto na história desse país, é que uma instituição do porte da Petrobras anuncie que o vazamento será a praxe do seu relacionamento com a imprensa".

"É fácil entender que, em épocas de CPI, os furos jornalísticos incomodem mais do que as investigações parlamentares, sempre sujeitas ao jogo político. Mas não é possível que a Petrobras, desconhecendo regras elementares do jornalismo e do trabalho de assessorias de imprensa, seja tão ingênua a ponto de achar que vai acabar com o furo por decreto", diz Novaes.

Para ele, "a lógica que agora move a direção da empresa parece não ser mais a da comunicação, mas a do marketing político. Nele, como vimos à exaustão nas últimas campanhas eleitorais, a imprensa precisa ser desqualificada e demonizada como inimiga política. O que podem estar querendo, atropelando a ética dessa forma, é tumultuar e impedir a reportagem, para supostamente provar que, no jornalismo, tudo é opinião. É um erro, um abuso e um disparate - que merece o repúdio de todos", conclui.

Otavio Frias Filho, diretor de Redação da Folha de S.Paulo

Otavio Frias Filho, diretor de Redação da Folha de S.Paulo , afirmou às 16h35, no texto "O que é inadequado", que o jornal "considera que o teor do blog 'Fatos e Dados' está na esfera de autonomia empresarial da Petrobras. Não considera adequado, porém, que questionamentos jornalísticos endereçados à empresa sejam tornados públicos por meio daquele blog antes que as respostas possam ser avaliadas e utilizadas pelos veículos que enviaram as interpelações".

Ali Kamel, diretor-executivo de jornalismo da Central Globo de Jornalismo

"Um mal entendido a ser corrigido", texto de Ali Kamel, diretor-executivo de jornalismo da Central Globo de Jornalismo, foi publicado às 16h45. Para ele, a informação exclusiva é "um atributo da qualidade do trabalho jornalístico, que o público reconhece e valoriza" em qualquer veículo.

"No trabalho cotidiano, no contato com as fontes, procura-se deixar isso bem claro, especialmente para aqueles que não conhecem a dinâmica do trabalho da imprensa, geralmente cidadãos comuns ou pequenas e médias empresas sem departamentos de comunicação estruturados. Nestes casos, explica-se também que as entrevistas fazem parte de um processo de apuração, que pode ou não levar à publicação de uma reportagem", explica Kamel.

Ele continua afirmando que "quando são grandes empresas, de reputação sólida, a explicação costuma se absolutamente desnecessária: elas conhecem a seriedade dos órgãos de imprensa, sabem que o propósito deles é informar bem e não vêem problemas em guardar sigilo. Mesmo quando o assunto não é agradável, mesmo quando se trata da investigação de alguma denúncia. As grandes empresas sabem que, não havendo culpa, dolo, má-fé, basta dar as explicações".

O diretor-executivo atribui a determinação da Petrobras a um mal-entendido, pois é uma empresa que, por deter "informações estratégicas, que, por força de regulamentos, devem ser mantidas em sigilo para não privilegiar ou prejudicar investidores, sabe, como poucas, como lidar com a imprensa".

Segundo Kamel, "antes da publicação [da reportagem], íntegras serão sempre uma atitude de desrespeito, não a veículos específicos, mas à imprensa, uma instituição que, numa democracia, deve ser sempre prestigiada. Mal entendidos acontecem, e são corrigidos. Não tenho dúvidas de que a Petrobrás, após refletir sobre a questão, porá fim à prática".

Leia mais