Ricardo Boechat: "Nenhuma notícia vale sequer um ferimento leve"

Ricardo Boechat: "Nenhuma notícia vale sequer um ferimento leve"

Atualizado em 02/09/2005 às 15:09, por Pedro Venceslau e Thaís Naldoni.

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Diretor de jornalismo da Band/Rio e colunista do Jornal do Brasil , o jornalista Ricardo Boechat comenta o incidente envolvendo a repórter Nadja Haddad - que levou um tiro de fuzil, durante troca de tiros entre policiais e traficantes, numa favela do Rio de Janeiro e teve seu pulmão perfurado.

Do incidente, surgiram questões sobre a segurança dos jornalistas em coberturas de risco. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro (SJPMRJ), divulgou comunicado, que foi taxado de oportunista por Boechat. Abaixo, entenda um pouco mais da polêmica e das medidas de segurança utilizadas pela Band, na tentativa de garantir a integridade de seus jornalistas. Acompanhe.



IMPRENSA - Existe na Band normas padrão de segurança em relação aos seus jornalistas?

Boechat - Há rigorosas instruções minhas no sentido de não se ousar em coberturas policiais. Há o princípio, sistematicamente repetido, de que nenhuma notícia vale sequer um ferimento leve. Há incontáveis pautas derrubadas por oferecerem risco, mesmo hipotético. Há imutável recusa ao eventual desejo de repórteres e cinegrafistas de ultrapassarem, nesta ou naquela ocasião, a fronteira da segurança. Não há normas técnicas escritas - que, sem compromisso ético das chefias, de nada valeriam.

IMPRENSA - Que tipo de providência a emissora toma para garantir a integridade de seus repórteres? Há, por exemplo, seguros de vida para os jornalistas que cobrem a favela?

Boechat - Todos os jornalistas e estagiários da TV Bandeirantes contam com seguro de vida fornecido pela empresa. Não há apólice específica para determinadas equipes, já que todas podem ser designadas para coberturas policiais. Desde ontem a direção-geral da emissora negocia a contratação de um seguro suplementar, de acidentes pessoais, para ampliar a cobertura. Todos os profissionais têm Amil. E a conduta da empresa é dispensar total apoio em situações que assim o exijam. Sob integral responsabilidade da Band, por exemplo, Nadja Haddad está internada em hospital e aos cuidados de médicos que o nível de seu plano de saúde não cobre. É constrangedor ter que expor detalhes da relação privada entre a empresa e um funcionário para desmascarar sindicalistas "bacaninhas".

IMPRENSA - É verdade que a Band/Rio comprou coletes à prova de balas para sua equipe de jornalismo?

Boechat - Sim. Há cerca de um ano e meio. Uso obrigatório por todas as equipes em coberturas policiais.



IMPRENSA - Como o senhor avalia a nota divulgada pelo Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro, que comenta o caso de Nadja Haddad?

Boechat - Enviei resposta ao presidente do Sindicato, repudiando a hipocrisia da nota. Foi ato de deplorável oportunismo tentar usar o grave ferimento sofrido por Nadja Haddad como gancho para criticar empresas de comunicação que negligenciam segurança de seus profissionais. A Band não age assim. E o que aconteceu à jornalista poderia acontecer a qualquer um dos milhares de cariocas que passam por aquela movimentada via da Zona Sul.

IMPRENSA - Depois deste incidente, houve alguma mudança na política de segurança aos jornalistas da emissora?

Boechat - A população do Rio vive um cotidiano apavorante, onde balas perdidas, tiroteios constantes, armas de variados calibres e ampla indigência social produzem vítimas em todos os lugares e horários. Estatisticamente, os jornalistas sofrem as feridas dessa realidade muito mais como cidadãos comuns do que em conseqüência da atividade profissional.

Ainda assim, quando a fatalidade nos atinge diretamente, como aconteceu agora, com nossa companheira Nadja Haddad, assustamo-nos com nossa enorme fragilidade. Ela não é fruto de omissões, negligência ou insensibilidade. Resulta do risco coletivo de viver onde vivemos, nesta cidade que amamos. O susto que sofremos, o medo que sentimos, o pavor de que Nadja pudesse não se recuperar plenamente, nos levará a medidas ainda mais rigorosas - como qualquer pessoa que aumenta as defesas da casa ao descobrir que as existentes foram atropeladas pela realidade.

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Abaixo, leia, na íntegra, comunicado que o jornalista Ricardo Boechat enviou ao presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro (SJPMRJ).

Aziz,

Não lhe dirigi "agressões pessoais" mais graves do que as feitas a mim na nota que seu sindicato divulgou, anteontem, a pretexto de solidarizar-se com a repórter Nadja Haddad.

Solidariedade, diga-se de passagem, apenas panfletária.

Não vi representantes de seu sindicato no Miguel Couto, na 10ª DP, na UTI do Samaritano, no 2º BPM. Tampouco na coletiva em que o comandante do Batalhão de Botafogo (com repúdio imediato de todos os jornalistas presentes) considerou "imprudente" o cinegrafista Moabe Ferreira, pelo fato de ter tentado estacionar o carro da emissora na Praça Corumbá, na Rua São Clemente, uma das mais movimentadas da Zona Sul (o oficial se retrataria no dia seguinte, quarta-feira, ao acompanhar a reconstituição do episódio).

Associando a crítica ao fato, nota de seu sindicato induziu que a TV Bandeirantes, por meio da redação que chefio, expõe seus profissionais "ao risco diário, sem treinamento e sem equipamento de proteção", depois de recusar-se a criar "comissões de segurança nas redações", proposta que seu sindicato jamais me encaminhou. Usar como pretexto o tiro que atingiu Nadja Haddad para repudiar "empresas que expõem a vida de profissionais na cobertura da violência carioca", como se a Band fosse uma delas, foi oportunismo da pior espécie. Aqui nunca se infiltrou repórteres com microcâmeras em zonas dominadas por traficantes. Não damos tamanho valor ao Prêmio Esso - e muito me orgulho de ter sido três vezes premiado.

Nadja Haddad ainda estava no carro caracterizado da emissora, em movimento. Sequer havia estacionado quando o disparo a atingiu. Ela levava seu colete à prova de balas - como todos os jornalistas da Band em trabalhos do gênero - e pretendia vesti-lo ao desembarcar. O local é via movimentada, com escolas, comércio, intenso trânsito de veículos e pedestres. Ser alvejado ali obedece à mesma probabilidade à qual estão sujeitos milhares de cariocas, em centenas de logradouros desta cidade. Não houve relação direta ou indireta entre a fatalidade e negligência a procedimentos de segurança.

Seu sindicato não apurou tais detalhes - e você reconheceu as falhas dessa apuração na conversa que tivemos por telefone, testemunhada pelo diretor de Operações da Band, Regueira Júnior. Tentou justificar-se dizendo que tentara localizar-me, deixando aviso em minha secretária eletrônica. Como não lhe dei retorno, pois simplesmente não acessei a caixa de recados naquele tumultuado dia, você se deu por satisfeito e transformou impressões em notícias. "Nossas informações indicavam que não havia motivo para duvidar da versão", indultou-se, saltando o grande fosso entre o ocorrido e os adjetivos do "manifesto" que assinou. "Isto aqui é um sindicato", concluiu, como professoras primárias perdoando a algazarra de alunos peraltas.

A tal proposta para criação de comissões de segurança nas redações jamais chegou a mim (estará em minha secretária eletrônica?). Se tivesse chegado, teria meu voto. Não por julgá-la mais eficiente que meu compromisso, já antigo, com os princípios ali defendidos. Mas por ver com simpatia o tardio engajamento do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro nesse esforço. Engajamento que, manifestado a tempo, talvez tivesse poupado a vida de Tim Lopes.

Consultei a diretoria da TV Bandeirantes para entender a razão que levou "os representantes dos patrões" a rejeitarem a sugestão das comissões de segurança. Segundo a advogada da emissora, Priscila Crespo, presente ao dissídio em que o tema foi abordado, seu sindicato abandonou o ítem tão rapidamente quanto o propôs, sem lutar de fato pela idéia, preocupado que estava, prioritariamente, em obter "ganho salarial real para os jornalistas". O baixo empenho de seu sindicato, na ocasião, desautoriza-o, agora, a encher o peito de valentia verbal.

Finalizando, Aziz, com a tristeza de quem foi atacado gratuitamente por um velho companheiro, lamento sua adesão, neste episódio, à pirotecnia, à farofa, à hipocrisia. A nota de seu sindicato foi montada ao sabor de conveniências internas e afagos a patotas, não com a seriedade que se espera de um respeitado dirigente de classe como você.

De positivo, resta o fato de que Nadja Haddad - e não "Nadia", como a chamou seu "solidário" sindicato - em breve voltará ao nosso convívio, como todos desejamos e pelo que estão trabalhando os mais conceituados médicos do Rio e um dos melhores hospitais da cidade, acionados pela TV Bandeirantes.

Ricardo Boechat
Diretor Regional de Jornalismo