Revelar "times de coração" ainda é decisão que divide jornalistas esportivos

Em 1994, o repórter e apresentador esportivo da TV Gazeta, Chico Lang, apurava as últimas notícias do Palmeiras no centro de treinamento da

Atualizado em 14/10/2011 às 11:10, por Guilherme Sardas.

Revelar "times de coração" ainda é tema que divide jornalistas esportivos

TV Gazeta Flávio Prado

Barra Funda, quando foi avisado por um funcionário do clube que cerca de 200 torcedores da uniformizada Mancha Verde se dirigiam ao local com a motivação exclusiva de expulsá-lo dali - o que, certamente, não seria feito com muita gentileza. Lang, um dos jornalistas esportivos do País a declarar publicamente, em alto e bom som, o time de coração - o Corinthians - conseguiu fugir antes da chegada da maior torcida do arquirrival.

Tempos depois, escapou de levar outra surra, desta vez da torcida da Portuguesa de Desportos. Após acompanhar a vitória do alvinegro por 3 a 1, no Estádio do Canindé, Lang desceu da cabine de transmissão para o vestiário, quando foi cercado pela pequena, porém, reconhecidamente "aguerrida" uniformizada Leões da Fabulosa. Teve tempo de correr para a cabine de imprensa, onde ficou, enquanto a polícia dispersava os torcedores. Safou-se das agressões, mas não da sutil advertência de um dos policiais. "Ele disse assim: 'eu não quero ser chato, mas, não tem como você avisar a gente antes, toda vez que vier aqui?'", conta Lang. ( e leia entrevista na íntegra)

O fanatismo das torcidas explica, em parte, por que a maioria dos jornalistas esportivos resiste bravamente em revelar o time de coração. "É perigoso, com toda a violência que existe hoje em dia", comenta Antero Greco, colunista esportivo do Estadão e comentarista da ESPN Brasil, que admite torcer por um time, mas não revela qual. A perseguição das torcidas, porém, está longe de ser fator isolado na discussão. Ora alegando que jornalista esportivo não tem time, ora argumentando paixão sincera por times de menor expressão, os profissionais da área tentam se equilibrar na linha tênue que, nesse campo de guerra, divide o profissional exemplar do parcial - para dizer o mínimo. "Quando o cara vai trabalhar com esporte, é claro que ele tem um time. Eu brinco, eu falo que torço para o Roma, da Itália, que é um time que eu gosto, mas é diferente de torcer", comentou.

Como a mulher de César - que não basta ser honesta, mas deve também parecer honesta - o jornalista esportivo está eternamente condenado a viver sob o peso de acusações. Aos que assumem o time, somam-se críticas; aos que silenciam, a situação pouco muda. Sempre resta a conturbada relação com os torcedores. "Conheço companheiros que assumiram publicamente os clubes que torcem e mostram isenção quando estão atuando. Outros optaram por não dizer e, quando comentam a favor do clube 'A', são acusados de torcer por ele", diz Wanderley Nogueira, repórter da rádio Jovem Pan e comentarista da TV Gazeta.

Para Greco, a curiosidade sobre o tema expõe o preconceito que há com os profissionais da área. "O que serve ao leitor ou telespectador saber para quem eu torço? Em que isso vai influenciar na interpretação do que eu falei? Isso é preconceito, é uma forma enviesada de olhar o pessoal do esporte. Ninguém pergunta isso para quem cobre política, economia. Não vejo falarem: 'o jornalista ateu entrevistou o Papa' ou 'o extrema-direita entrevistou o Lula'", argumenta.

Relação com os clubes

TV Cultura Antero Greco

Principalmente no caso dos profissionais mais antigos, seus times são conhecidos, tanto por colegas de ofício, quanto pelos próprios clubes. Em meio ao caldeirão passional do futebol, surge outro desafio: preservar a neutralidade diante das agremiações, que não raramente tentam se aproveitar da 'camaradagem' dos jornalistas-torcedores. "Há muitos anos, eu cobria o clube pelo qual eu torço e o dirigente chegou para mim e disse: 'Antero, você que é nosso...' Eu rejeitei aquela abordagem na hora, e fiz questão de deixar claro que quem pagava meu salário era o Dr. Júlio Mesquita Neto [ex-diretor de O Estado de S. Paulo , falecido em 1996]. Eu nunca disse o 'nosso clube', o 'nosso time', como vai 'meu presidente', e quando vejo algum colega fazer isso, me dá urticária. Eu vivo do meu trabalho e não da minha preferência pessoal", explica Greco.

Assumir sua torcida por um time pode ajudar na aproximação com o clube, e no acesso privilegiado a informações exclusivas, mas investir em tal relação é uma opção delicada. "Todo mundo do Corinthians, até jogador, vem falar comigo. Mas, se o presidente do clube me vê e quer falar alguma coisa, ele me liga depois ou me deixa um telefone. Em uma coletiva, por exemplo, eu não uso isso, porque eu respeito meus colegas", diz Lang.

Por outro lado, em se tratando de times rivais, o jornalista "assumido" pode encontrar dificuldades extras. "Na Copa de 2002, eu levei um certo gelo do Felipão. A Mesa Redonda, que é à noite, começava na mesma hora do treino do Brasil lá no Japão, que era de manhã. E eu querendo botar o Felipão no ar, e nada. Um dia ele falou: 'Se você não fosse corintiano, eu até falava'. Aí eu chamei ele de lado e falei: 'Vamo parar de viadagem, que aqui todo mundo é Brasil'. Depois disso, melhorou", conta o corintiano.

Para Flávio Prado, apresentador do "Mesa Redonda", da TV Gazeta, há desvantagens até mesmo na relação com o clube para o qual se torce. "Você passa a ter mais problemas. Como aquilo faz diferença para você, você se intromete mais. O [Roberto] Avallone torcia para o Palmeiras, e tinha problemas no Palmeiras. O próprio Chico [Lang] já teve problemas com o Corinthians. Eu mesmo, no passado, cheguei a ter alguns problemas".

Prado é um caso a parte. Torcedor do São Paulo desde criança, em 1994, passou a rejeitar o tricolor paulista por não concordar com as circunstâncias da dispensa do volante Dinho, bi-campeão mundial pelo clube em 1992 e 1993. "Algumas coisas nebulosas levaram à saída dele. Quando o Dinho foi transferido para o Santos, eu o levei, de carona, no meu carro. Ele chorava, porque tinha sido tratado de maneira indevida pelo único time que ele tinha tido amor até então. Vendo aquele baita ogro, que dava porrada, que batia [Dinho era conhecido pela marcação forte sobre os adversários], chorando daquele jeito, eu pensei que eu não podia torcer por um time que fazia isso com as pessoas", lembra Prado, que abraçou então a paixão pela modesta Ponte Preta, de Campinas. O jornalista garante, porém, que o novo time não serviu para sepultar o passado são-paulino. "Isso é coisa de ator, eu não consigo fazer isso. A partir desse episódio, eu passei a ignorar completamente o São Paulo e meu amor pela Ponte ficou mais forte", diz.

Rádio Jovem Pan Wanderley Nogueira

Saindo pela tangente

Alegar a preferência por times estrangeiros, pela seleção brasileira ou resgatar vínculos de infância para justificar a torcida por times do interior são estratégias comuns para espantar as acusações de parcialidade. "A maioria que diz que torce para times pequenos é mentira. O único que acredito é o [José] Trajano [diretor de jornalismo da ESPN Brasil]. Não porque é meu chefe [risos], mas é porque ele torce mesmo para o América, do Rio. É uma atitude simpática para não ter que dizer o time que torce", afirma Greco.

Como Trajano, o editor de esportes do portal da ESPN Brasil, Júlio Gomes, desfruta do privilégio de torcer por um time considerado pequeno. Ele e o irmão, o também jornalista esportivo Flávio Gomes, são torcedores da Portuguesa de Desportos. "A torcida pequena e o fato de o time estar tanto tempo na segunda divisão facilita um pouco as coisas", comenta. Tranquilidade que deve diminuir no ano que vem, já que a "Lusa" é líder isolada da série B, e deve disputar a série A, em 2012. "Já dá para prever a Portuguesa na primeira divisão e quando dissermos que foi pênalti ou não, certamente, a gente vai ser acusado de não ser isento", afirma. Wanderley Nogueira, da Jovem Pan, é do grupo dos que não revelam o time. Mas, para os que insistem, tem a resposta na ponta da língua. "Eu respondo com um fato irrefutável: nasci e fui criado bem pertinho dos muros da Rua Javari [rua do bairro paulistano da Mooca, local do estádio do modesto Juventus]", brinca.

Ao menos, um ponto parece unânime entre os jornalistas esportivos. Independentemente do time que torcem, os profissionais têm seus ídolos e amigos dentro das quatro linhas. "Garanto que depois de alguns anos na profissão, todo jornalista esportivo torce silenciosamente para personagens. Você torce para um atacante excelente e bom entrevistado fazer gols. Torce para que um goleiro faça defesas espetaculares. Torce para o time de um treinador educado não perder", afirma Nogueira.

Prado compartilha da mesma opinião. "Hoje, não tenho a menor simpatia pelo São Paulo, mas torço muito pelo Rogério Ceni e pelo Luís Fabiano. Eu gosto dos caras. Mas, eu também adoro o Marcos e o Neymar", finaliza.

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