RETROSPECTIVA: Balanço mostra aumento de sequestros de jornalistas no mundo em 2013

Profissionais de imprensa em todo o mundo parecem ainda não poder desfrutar de liberdade. Mesmo em países ditos democráticos, jornalistas são presos, alvo de hostilidade e até mesmo mortos.

Atualizado em 26/12/2013 às 15:12, por Edson Caldas e  Lucas Carvalho e Alana Rodrigues*.

É o que revelam os relatórios de entidades internacionais.
Crédito:Reprodução/Twitter O jornalista espanhol Marc Marginedas foi sequestrado na Síria, em 2013
Segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), embora o número de repórteres assassinados em 2013 tenha diminuído, houve um aumento de profissionais sequestrados no mesmo período. Ela contabilizou a morte de de 71 jornalistas, uma queda em relação aos 88 do ano anterior, mas ainda considerado "muito alto" pela ONG.
A diminuição de assassinados acontece ao mesmo tempo em que o número de sequestros e agressões sobe, sobretudo relacionados a situações específicas, como os protestos no Egito, na Turquia, na Ucrânia e no Brasil.
Na última segunda-feira (23/12), IMPRENSA mostrou os principais casos de violência contra jornalistas no país em 2013, com base em relatórios da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), da Associação Nacional de Jornais (ANJ), da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e da própria RSF. No país, foram 170 casos, incluindo mortes, sequestros, agressões e censuras judiciais.
"A conclusão é que, mesmo com a queda de mortes, o ano foi ruim e continua a preocupar", diz à IMPRENSA Luiz Gustavo Pacete, correspondente brasileiro da RSF. "O Brasil continua preocupando, com um quadro de 7 jornalistas mortos e virou alvo de preocupação pelo excesso de agressões motivadas pelos protestos do início do ano."
Repressão
Neste ano, 826 jornalistas foram parar atrás das grades. A China lidera o ranking de países que mais prendem profissionais de imprensa. No país, pelo menos 30 repórteres e 70 internautas foram detidos por seu trabalho envolvendo informação. As autoridades, segundo a RSF, tentam fortalecer o controle e incentivar a autocensura online. Ativistas que buscam reformas políticas, como Xu Zhiyong e Guo Feixiong, foram presos sem sequer ter a chance de responder a um juiz.
A mais recente vítima foi o jornalista Liu Hu, do Modern Express . Ele foi acusado de "difamação", após 37 dias de detenção por noticiar casos de corrupção envolvendo o vice-diretor da Administração Estatal de Indústria e Comércio, Ma Zhengqi. Em Eritreia, segundo país com mais jornalistas presos, 28 estão na cadeia em condições, de acordo com a organização, “desumanas” — confinamento solitário em celas subterrâneas e superlotadas, além de pouca comida e água.
Ao total, 2.160 jornalistas foram agredidos ou ameaçados no mundo, um aumento de 9% em relação a 2012. Profissionais sequestrados são 87, um aumento ainda maior, de 129%. 77 tiveram de deixar seus países e 39 internautas que lidavam com a divulgação de informações foram mortos.
Protestos
O ano foi marcado por manifestações no Brasil, no Egito, na Turquia, e mais recentemente na Ucrânia, onde, na noite da última terça-feira (24/12), uma profissional chegou a ter o rosto desfigurado. A jornalista Tetiana Tchornovil, militante da oposição conhecida por suas investigações sobre a corrupção em altas esferas do governo da Ucrânia, foi atacada por dois homens em um subúrbio de Kiev, capital do país.
Na Turquia, pelo menos 27 jornalistas e dois trabalhadores da mídia foram presos em conexão direta aos seus trabalhos. Os protestos no país começaram contra a remodelação de uma zona verde no centro de Istambul e, mais tarde, transformaram-se nas maiores manifestações populares da história turca.
Já no Brasil, onde a movimentação na rua foi catalisada pelo aumento das tarifas de transporte público, um levantamento da Abraji contabilizou 113 agressões a profissionais de imprensa durante os protestos, confirmando que, em 70 dos casos, o ataque foi deliberado. Apesar disso, o país, juntamente com o México, deixou a lista dos cinco cenários mais perigosos para jornalistas. Eles foram substituídos por Índia e Filipinas.
Países em conflitos
Neste ano, 39% dos jornalistas assassinados atuavam em áreas de conflito. A Síria, país onde aconteceram mais mortes, chega a ser destacada pela RSF como “um cemitério para a comunicação”. Foram mortos pelo menos 10 jornalistas e 35 cidadãos ligados à divulgação de informações.
Na próxima sexta (27/12), IMPRENSA publica a terceira parte da retrospectiva sobre agressões a jornalistas em 2013. O texto se debruça sobre os casos de violência em países como Síria, Somália e o Paquistão, que zonas de conflito.