Retratos do fotógrado Paulo Giandalia devolvem dignidade a catadores de lixo

Retratos do fotógrado Paulo Giandalia devolvem dignidade a catadores de lixo

Atualizado em 19/03/2008 às 18:03, por Ana Luiza Moulatlet/Redação Portal IMPRENSA.

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Num mundo de ausências e desatenções o fotógrafo Paulo Giandalia encontrou espaço para sua arte. A idéia de fotografar sem-tetos surgiu há 12 anos, em uma parceria com a empresa Suzano. Mas, quando foi a campo, só encontrou catadores de papel; durante o dia os sem-tetos são impedidos por órgãos da prefeitura de permanecer na rua.

Então, Giandalia teve uma nova percepção para fazer o seu trabalho. A história estava pronta, na sua frente, só que ele nunca tinha percebido. "Os sem-teto arrumaram um jeito de sobreviver, que é catar lixo. Percebi que não era mais a história de fotografar cara morando debaixo da ponte, mas sim mostrar a imagem desses trabalhadores".

O fotógrafo explica que "era uma história era sobre a miséria em construção, e não sobre a miséria em si". Ele considera os catadores de papel os bóias-frias da cidade; e, paradoxalmente, o lixo faz com que tenham uma profissão. O nada virou dignidade e respeito, "a degradação total virou profissão".

Paulo Giandalia

Os números descobertos por Giandalia são impressionantes: um quilo de papelão vale R$ 0,15. Um catador recolhe em média 200 quilos de papelão em um dia e consegue ganhar R$ 30, R$ 40. No mês, ganha dois salários mínimos, "um cara que não conseguiria emprego em lugar nenhum", diz o fotógrafo.

Em um mês, cada catador tira da rua 14 toneladas de lixo. Somados os 20 mil catadores que vivem disso, dá um milhão de toneladas por mês. O nicho descoberto por eles é tão promissor que não há brigas entre por área de trabalho ou pelo material recolhido. Tudo que eles absorvem equivale a apenas 1% do lixo da cidade de São Paulo.

De homem que não possui nenhum poder, dinheiro nenhum, tenha todo o respeito: com a ajuda de Leonardo, menino de rua, Giandalia seguiu esse mote e fotografou 50 catadores. Mas só os que o autorizaram. "É o mínimo de dignidade que os caras podem ter. Eu perdi muita coisa boa, de gente que não se deixou fotografar, mas não os desrespeitaria nunca".

E por que um jornalista renomado como Paulo Giandalia, que trabalha atualmente na coluna da Sônia Racy, no Estadão , e já passou por veículos como Jornal da Tarde , Folha de S.Paulo e Valor Econômico , decidiu mostrar uma face tão escondida da cidade de São Paulo?

"É uma grande história que eu tenho na cabeça, de profissões paulistanas que só existem aqui, como pasteleiro, aquele donos de padaria tradicionais. Queria fotografar o profissional que é a cara de São Paulo, e antes de ir para a rua eu não tinha noção de como isso era presente na cidade, não tinha olhos para isso. Eu acho que a gente tem que desenvolver projetos diferentes do nosso trabalho".

Hoje, o fotógrafo se considera um retratista, talento que usou para o trabalho com os catadores de lixo. "Hoje eu sou retratista. Eu sou rápido em redação, e procuro fazer retratos com importância jornalística. Hoje o que eu faço com paixão é retrato. Tem um lance da dignidade do cara. O que eu procuro fazer é a reportagem fotográfica dentro do retrato".

Paulo Giandalia

Essa prática veio da sua experiência no jornal Valor Econômico , que mudou sua maneira de encarar a fotografia: "Celso Pinto me deixava fotografar como eu queria. Quando fotografava empresários, quanto mais longe do padrão atrás da mesa assinando documento com telefone, mas eu era estimulado. Fazia 500 retratos por ano, dois por dia. Fiz lá mais de dois mil retratos. Hoje, por essa experiência, com certeza sou outro fotógrafo", conta Giandalia.

Esses conhecimentos foram fundamentais para o convite para a coluna da Sonia Racy. "Juca Varela, diretor de foto do Estadão , me chamou porque estava interessado na minha experiência com retratos de empresários no Valor , porque a Sonia é jornalista econômica. Coluna social não precisa ser estúpida, e como ela é jornalista de economia, achamos que a parceria daria certo".

Como forma de democratizar sua arte, e mostrar a todos personagens praticamente imperceptíveis da cidade de São Paulo, Paulo Giandalia vai expor suas fotos dos catadores de lixo na marquise do MAM (Museu de Arte Moderna), ao lado da entrada do museu, no parque do Ibirapuera. A exposição é ao ar livre, e as fotos são emolduradas com papelão, uma homenagem aos modelos de seus retratos.